Coleção pessoal de suzana_travassos_valdez

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Aquela rua, no silêncio adormecido de um corredor sem fim, onde cada passo ecoava no escuro, fazia-se rasgo memorial.

Talvez dessa forma, conseguisse envolver a noite que avançava, com condição de estação florida, aquém e além, do meu olhar de ser despojado.

Com a devida vénia aos terapeutas da alma, teria sido sempre o meu próprio capitão em mar alto.

Quis desamarrar a idade para regressar à ternura do quarto amarelo.

Encaixotarmo-nos ou não, numa idade que a mente pensante desconhece, derivará sempre dessa bússola da quimera, sem medo de nós perdermos no mar da incerteza, de não termos idade.

Apenas o sonho, o orvalho da alma, divulga sermos gente de idade experimental.

Não sabia em que palavra embrulhar aquele meu tempo, mas sabia que o viveria como um sonho de anjo.

Quão bom era pertencemos a décadas de manhãs!

Viria o juízo de braço dado com a idade ou com os dentes de siso?

Apenas uma aranha na sua lida. Fiquei a observá-la naquele fascinante entretecer dos valorosos e inalteráveis fios de seda.

As dores eram, naquele tempo límpido, apenas rasgos de vermelho, isentas de crescidos cuidados.

Outrora, nesse tempo garantidamente, já gasto pelos dias passantes, pelo desabar dos poentes, as crianças não detinham palavras de exigência.

Bem-amada era a infância que se movera até mim.

Trincou-me o tempo na face, menos bochechuda...

Um mesmo medo, um mesmo tremor. Um outro horror de gente crescida a ser obrigada à intrepidez que nunca desejara.

Olhei, já em antecipação, para o lugar do ruído de sobressalto, horrorizei-me. O horror susteve o grito, o medo sufocou-o e deixou-me paralisada.

Ali, prostrada, percebi que o tempo vindouro que relembrava, se tornava pretérito...

O pai ensinara-me a sensibilidade, a avó adivinhara-o desde sempre. O futuro di-lo-ia em susto permanente.

Aquela cor que não era sol nem lua, mas a terceira luz, a que só acendia onde o tempo se esquecia de passar.

Olhei para dentro de mim, era lá que habitava a memória inaugural.