Coleção pessoal de suzana_travassos_valdez
O tempo do esquecimento é um tempo com margens incertas. Não sei que idade tinha quando li certos livros nem se os li depois de nascer ou antes de existir.
Depois daquele instante, compreendi que o passado não está atrás, e que a presença de um homem genial, pode persistir muito para além da sua vida, não como sombra, mas como semente.
A noite avançava lesta, como só acontece quando as palavras se unem para dançarem uma valsa perfeita.
Bernardo encerrara-se em silêncio. Temi, naquela libertação e modo de me encontrar, que ele se alheasse ou se entediasse. Percebi que afinal, ele conspirava consigo próprio.
Bernardo olhava-me em silêncio. Mas não era um silêncio qualquer, era um silêncio habitado. Os seus olhos tinham um cintilar quente, talvez de ternura, talvez de espanto, demoraram-se um pouco mais nos meus, como se quisessem dizer algo que as palavras ainda não sabiam.
Arrepiei-me no lugar onde as lágrimas se anunciam, naquele espaço ínfimo e invisível que o Belo toca.
Corajoso não era aquele que não tinha medo por inconsciência, mas sim o que tinha medo e sabia que, independentemente de tudo, tinha que avançar.
Do pouco que me recordava, jamais me encapotara perante as múltiplas vicissitudes, se era resiliente e audaz, apenas o devia a Deus e à vida.
Como seriam considerados pela História, os assassinos de inocentes do século XXI? Aos olhos dos futuros cronistas, só poderia restar um único veredicto - uma humanidade miserável!
Acordar era o horrífico viver do século XXI. Era o monstruoso assassínio de inocentes, a desolação de vários países sem terra lar, apenas com a terra nua para se ajoelhar e suplicar a Deus, a Allahu, a Javé... A Paz que os homens não lhes davam.
Humanidade em latim, "humanistas", significa; o conjunto de seres humanos, a natureza humana e, ainda, um sentimento benévolo e solidário em relação aos outros. Onde se encontrava essa humanidade?
Que espécie de cérebros existia a garantir que não éramos todos homens irmanados numa única humanidade?
A ignorância dos instruídos, a arrogância dos narcisistas, a pequenez de almas que precisam da tirania para compensar a própria vileza, a avidez por territórios a conquistar, a exigir, não era conquista, era RECUO, O DECLÍNIO TOTAL DA HUMANIDADE!
Homens ínfimos, que desejavam o regresso de raças superiores, territórios conquistados, religiões perfeitas. A guerra era moda? Não! ERA O RETROCESSO ABSOLUTO DA HUMANIDADE!
É uma autêntica maldição sentir demais. Pensar demais. É talvez uma benção saber sentir. É talvez uma benção saber pensar! Mas chega sempre o momento em que já não basta pensar. Nem somente escutar.
Uma alma de encadeamento e mutabilidade como o caleidoscópio encantatório, trazido pelo pai, de uma das muitas partes do mundo. Seria a minha alma, uma alma-caleidoscópio? Assim me pareceu!
A forma igualitária de vestir dos outros, deixava-me indiferente, já os que arrojavam na roupa, na escrita, na arte, a esses, eu admirava o destemor, a ousadia.
