Coleção pessoal de EricJoLopes
Se vou errando
Me ensino
Se me falaram
Me dito
Se viro a página
Me livro
Sem falar nada
Me digo
É preciso escrever
Me nino
Pra dormir em paz
A gente nunca esteve na mesma página
Verdade seja dita
Eu sempre quis tirá-la de dentro do livro
As pessoas não mais acreditam em contos de fadas
Quem sabe se ela saísse e se mostrasse
Todos voltassem a acreditar em magia
Ela me faz flutuar
Mas não existe alguém pra quem eu possa contar
E se acreditarem?
Será que vão queimá-la?
Soube que existem outras mais por aí...
É, eu acredito nisso!
É injusto que só eu possa ficar enfeitiçado.
E nesse jardim abandonado
Tudo permanece intocado
Foi um jardineiro dedicado
Que arrumou tudo isso aqui
Mas pra quê o cadeado?
Por que tudo esta trancado?
E as visitas do outro lado?
Não quer mais ninguém ai?
Deixe os beija-flores entrar
Eles não querem bagunçar
Na verdade, querem mostrar
Que ainda vale a pena sorrir
É tudo tão turvo
Inebriado
Mas tem seu cheiro
E gosto do seu batom
Posso ficar feliz
De não enxergar
Ou triste
De só imaginar
Não sabendo
Acho o que quiser
Sem certeza
Posso ser o único de pé
Esperando pra dançar
A música que só eu ouço
Mesmo assim eu torço
Pra não pisar no pés
De quem me tira o chão
Toda vez que abro os olhos
E fico nessa escuridão
A tatear
Em sua frente
Um futuro que eu invente
Ou talvez exista
E resista
Com medo de se mostrar
O que dizer
Quando se perder
Em suas convicções
O que falar
Quando errar
Em suas ações
Pra quem rezar
Quando esperar
Por mil perdões
Onde gritar
Quando beirar
Perder a razão
E se chorar
Se não consegue
Dizer não
Se sussurrar
Só se cair
Em tentação
A sina do palhaço
é deixar o sorriso no rosto
enquanto o mundo pega fogo
Fazer rir
mesmo que em seu mundo
tudo esteja se desmoronando
Deixar que pensem
que se apresenta em todos os picadeiros
enquanto na verdade
já se aposentou faz tempo
Amor próprio
É gás em balão
É ar em bexiga
É asa de cera
Tem que dosar
Pra não se perder
Pra não estourar
Pra não derreter
Não precisa ter medo
Continue enchendo
Continue soprando
Continue batendo
E com atenção
Voar sem desatino
Alegrar os meninos
Pousar em seu destino
E a raposa?
Que quando por ti cativada
Das outras cem mil é diferenciada
Torna-se única ao seu olhar
Campos de trigo?
Se enchem de magia
Lhes tiraram a monotonia
Pois de você a faz lembrar
Os meus passos?
Diferenciam-se dos caçadores
Já que esses não trazem dores
Só melodia a se seguir
Se vou as quatro?
Desde as três, felicidade
Sobra tempo na animosidade
Pra arrumar o coração
Não fica triste?
Se de súbito for embora
Mas o tempo que dedicaste até agora
Já faz dela única pra ti
Do que devo lembrar?
De olhar com o coração
Esquecer nossa visão
Pra enxergar o essencial
Existem servidões que desejamos
Vitórias que não ganhamos
E sim, perdemos
Nos perdendo
Até achar
Outra alma capaz de nos redimir
Por mais injusta
Que seja a justa
Se justa a causa for
Justifica-se a luta
Pois há glória no combate
E honra em quem bate
Em retirada
Como quem bate as asas
De um lugar que não vale a pena estar
Orbitando em seu olhar
Fico sempre à vontade
Sem imaginar a gravidade
Enquanto vou perdendo o ar
Olho para todos os lados
Vejo planetas acorrentados
Satélites a muito apagados
Sem estrelas pra iluminar
Quem bagunçou tudo aqui dentro
Já não visita faz um tempo
Deu anéis sem cabimento
Fez Saturno se apertar
Peço então estrela cadente
Farei tudo diferente
Porei luz nesse ambiente
Só me deixe respirar
Para onde você vai?
Disse o bobo apaixonado
Ela olhando para o lado
Apontou a direção
Mas eu vou pro lado oposto!
Disse o bobo encantado
Mas não tem nada de errado
Disse a moça a enrubescer
Mas por que não vem comigo?
Disse o bobo pensativo
Tem alguém a me esperar
Os olhos da moça a marejar
Então quer que eu desista?
Disse o bobo paralisado
Se já escolheu o seu lado
O que essa moça pode fazer?
Achei que também tinha escolhido
Disse o bobo arrependido
E a moça ao pé do ouvido
Se tiver coragem, vou contigo
Se afogando em liberdade
Vivia o bobo na verdade
E presa em sua própria realidade
Sorria a moça pra se consolar
Trevos só trazem sorte com quatro folhas
O resto não passam de plantas
Verdes onde o meu sol aquece
Mortas onde o meu eu floresce
Há quem insista em procurá-los
E quem desistiu de encontrá-los
Mas, que permaneça a razão
Aceite os de quatro, os de três não!
O PEQUENO POLEGAR
Havia um par de botas
Mas não um par comum
Serviam pra toda a gente
Cabiam em qualquer um
Não eram botas surradas
Nem tampouco elegantes
Enfeitiçadas pelas fadas
Guardadas pelos gigantes
Basta saber aonde ir
Essas botas não dão trégua
Botas rápidas feito o vento
As botas de sete léguas
Um grande bruxo as possuía
Até alguém dele roubar
O mais jovem de sete irmãos
O pequeno polegar
Abandonados pelos pais
Pois não tinham o que comer
Na floresta foram largados
Tinham mais chances de viver
Com as botas de sete léguas
Já não havia choro
Enganaram o velho bruxo
Levaram todo o seu ouro
Mas o bruxo era malvado
Se isso serve de consolo
Acharam o caminho de casa
Dividiram o seu tesouro
E não há quem não conheça
Aqui ou em qualquer lugar
Terror dos bruxos e dos gigantes
O pequeno polegar!
DIÁRIO DE UM ALMIRANTE
Da nostalgia do último sopro
vive as apagadas velas
dessa pobre embarcação
Veste luto na bandeira
e pelas águas que vagueia
traz pesar em seu timão
Por ironia do destino
viu a frota naufragar
Por que só os meu amigos
falta água nesse mar?
Não restaram dias de glória
navegando essa memória
até Netuno apagar
DEVANEIO ETÉREO
Domando dragões celestes
Viajo de planeta em planeta
Ouvindo cantos de sereias
Solitárias em suas pedras
Temendo qualquer balanço
Que a lua cheia ouse fazer
No seu imenso mar de solidão
Onde o sol navega apagado
Tendo a tristeza ao seu lado
Feliz pela morna companhia
