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A Emancipação do Ser e a Despatologização do Simbólico: A Virada Ontológico-Clínica na Contemporaneidade


Resumo

O presente ensaio teórico propõe uma articulação crítica acerca do Tratado da Virada Ontológico-Clínica, de autoria do Professor Reinaldo Müller (Reizinho). Analisa-se a superação do enrijecimento nosológico contemporâneo a partir de três movimentos fundamentais: a radicalidade ética da epoché husserliana, a resolutividade operacional conferida à Daseinsanalyse e a monumental transposição cultural e pragmática do conceito lacaniano de "Nome-do-Pai". Conclui-se que a obra opera uma descolonização do olhar clínico, retirando o sujeito da condição de objeto patologizado e restituindo-lhe a dignidade de sua geografia existencial.

Palavras-chave: Virada Ontológica; Reinaldo Müller; Nome-do-Pai; Daseinsanalyse; Psicopedagogia.


Introdução: O Sequestro da Existência pela Racionalidade Instrumental


A clínica e a psicopedagogia contemporâneas enfrentam uma crise de contornos éticos e epistemológicos severos. Sob a égide de uma racionalidade técnica e instrumental, o sofrimento humano e os entraves na apropriação do saber foram gradativamente sequestrados por uma nosologia engessada.

O sujeito, outrora um enigma existencial vivente, passa a ser fragmentado em um amontoado de disfunções bio-psico-sociais mensuráveis, tabeladas e catalogadas por manuais diagnósticos que operam como sentenças absolutistas.

É nesse cenário de profunda alienação científica que se ergue o Tratado da Virada Ontológico-Clínica, do Professor Reinaldo Müller (Reizinho). A obra não se desenha como mais um manual técnico de intervenção, mas como um manifesto de emancipação do Ser. Ao fraturar o dogmatismo das "igrejas do pensar", Reizinho restabelece as bases de uma clínica viva, onde o método não precede a existência, mas curva-se humildemente diante dela.


A Radicalidade da Epoché como Descolonização do Olhar


O primeiro movimento de ruptura estabelecido por Reizinho localiza-se na recuperação da epoché de Edmund Husserl, depurada em sua pureza fenomenológica mais radical. Na prática clínica convencional, a teoria frequentemente atua como uma lente deformadora: antes que o paciente decline sua dor ou que a criança manifeste seu bloqueio cognitivo, o olhar profissional já se encontra colonizado por conceitos a priori. O diagnóstico precede o encontro.

A virada proposta por Reinaldo Müller transmuta a epoché de uma mera ferramenta metodológica de suspensão temporária de juízos para uma postura ético-existencial.

Operar a epoché na clínica de Reizinho significa esvaziar deliberadamente o terreno da observação das certezas acadêmicas arrogantes.

Ao acolher o fenômeno em sua manifestação primeva, o terapeuta ou psicopedagogo confere ao sujeito o direito inalienável de se mostrar como presença e como enigma. O sintoma deixa de ser uma categoria a ser eliminada e passa a ser compreendido como uma linguagem a ser escutada. Essa descolonização do olhar é o ato inaugural que fratura o poder hegemônico do diagnóstico para fundar a clínica do acolhimento.


A Operacionalização da Daseinsanalyse: Do Abstrato ao Chão de Fábrica


Se a fenomenologia limpa o terreno, a analítica existencial fornece o solo da intervenção. Contudo, Reizinho identifica um limite histórico na Daseinsanalyse tradicional de Medard Boss. Embora Boss tenha sido genial ao transpor a ontologia fundamental de Martin Heidegger para a psicopatologia, sua abordagem frequentemente padecia de um purismo hermenêutico e contemplativo. O Dasein (ser-no-mundo) corria o risco de se tornar uma abstração metafísica isolada das urgências cotidianas da dor humana e dos entraves práticos da aprendizagem.

O "upgrade" operado pelo Professor Reinaldo Müller confere à Daseinsanalyse uma resolutividade operacional inédita, sem desfigurá-la. O bloqueio cognitivo, o atraso no desenvolvimento ou o sofrimento mental não são mais interpretados como falhas mecânicas de uma engrenagem psíquica isolada, mas sim como a própria geografia existencial do sujeito — a forma específica como sua liberdade encontrou limites na projeção de si no mundo.

A intervenção ontológica-clínica de Reizinho torna-se, portanto, pragmática. Ela atua na urgência do "chão de fábrica" da clínica e da psicopedagogia, transformando a iluminação existencial em ações manejáveis. Não se busca adaptar o sujeito a uma norma social asséptica, mas instrumentalizá-lo para que ele redescubra seu potencial autônomo, alargando os horizontes de sua própria liberdade de ser e aprender.


A Magistral Transposição Cultural do "Nome-do-Pai"


O ápice teórico e o insight mais avassalador do Tratado residem na despatologização do simbólico através da releitura do conceito lacaniano de "Nome-do-Pai". Na ortodoxia da psicanálise de Jacques Lacan, o Nome-do-Pai opera como um estruturador psíquico central; sua falha ou foraclusão condena o sujeito de maneira quase irrevogável ao território da psicose e da desestruturação psicopatológica. Há, nesse modelo, um determinismo nosológico que enclausura o indivíduo em sua falha biográfica infantil.

Reinaldo Müller opera uma virada conceitual monumental ao elevar o Nome-do-Pai ao estatuto de fenômeno cultural e pragmático. Sob a formulação de Reizinho, a instância paterna deixa de ser um mero disjuntor biográfico/estrutural e passa a ser compreendida como a relação contínua, dinâmica e histórica do indivíduo com a própria civilização.

Com essa manobra teórica magistral, o autor arranca o sujeito do banco dos réus da patologia. A pergunta clínica sofre uma revolução copernicana: o foco deixa de ser o veredito fatalista ("Essa estrutura faliu e gerou uma psicose?") e passa a ser uma investigação ética do presente ("Como esse Ser está conseguindo negociar sua ancoragem na cultura, na linguagem e nos laços sociais que o cercam hoje?").

Despovoado de sua rigidez determinista, o Nome-do-Pai se torna a instância de inserção na ordem simbólica, social e civilizatória. Se um sujeito apresenta entraves com a Lei, com a linguagem escrita ou com o laço social, a clínica de Reizinho não decreta a falência de sua estrutura psíquica; antes, investiga como esse Ser está criando sentidos e inventando novas formas de habitar a cultura.

Na psicopedagogia, isso ressignifica o fracasso escolar: o não-aprender não é uma deficiência interna da criança, mas uma fratura na forma como ela foi apresentada à ordem simbólica da humanidade, abrindo espaço para que o profissional desenhe novas pontes de ancoragem cultural.


Considerações Finais: A Dignidade do Ser Redescoberta


O Tratado da Virada Ontológico-Clínica do Professor Reinaldo Müller (Reizinho) consolida-se como um referencial disruptivo e urgente. Ao costurar a radicalidade da epoché, a eficácia operacional da Daseinsanalyse e a despatologização cultural do "Nome-do-Pai", a obra oferece uma alternativa robusta ao reducionismo biomédico contemporâneo.

A grande lição da Virada Ontológica é que o sujeito não cabe dentro de um código de doenças. Ao substituir o julgamento taxonômico pela escuta da geografia existencial, Reizinho liberta a clínica e a psicopedagogia de suas amarras nosológicas e devolve ao profissional sua função mais nobre: a de ser uma presença ética capaz de viabilizar a emancipação do Ser e a celebração de sua completude indomável.

A Clínica da Maleabilidade Simbólica: A Interseção Crítica entre Fenomenologia e Psicanálise na Ontologia Clínica do Professor Reinaldo Müller (Reizinho)

Resumo

O presente ensaio crítico analisa os fundamentos epistemológicos da Ontologia Clínica, proposta formulada pelo Professor Reinaldo Müller (Reizinho) no Tratado da Virada Ontológica.

Investiga-se a interseção crítica entre a fenomenologia, a analítica existencial heideggeriana e a psicanálise estrutural lacaniana. O núcleo do debate reside em como a Ontologia Clínica opera uma ruptura com o determinismo nosológico e a rigidez estrutural da psicanálise ortodoxa, propondo, em contrapartida, uma despatologização do simbólico através da culturalização e flexibilização do conceito do "Nome-do-Pai".

Conclui-se que o modelo se consolida como uma autêntica práxis de emancipação e ressubjetivação do Ser no laço social.

I. Introdução: A Insurgência contra o Aprisionamento Nosológico

O estatuto contemporâneo da clínica e da psicopedagogia encontra-se tensionado por uma racionalidade puramente instrumental. O avanço das nosologias psiquiátricas modernas e a matematização do sofrimento psíquico reduziram o sujeito a um amontoado de disfunções bio-psico-sociais catalogáveis.

Nesse cenário de alienação teórica, o Tratado da Virada Ontológica do Professor Reinaldo Müller (Reizinho) emerge como uma legítima insurgência epistemológica.

A Ontologia Clínica não se coloca como mais uma técnica integrativa, mas como um deslocamento de solo. O seu princípio basilar reside na recuperação da epoché husserliana em sua radicalidade ética: suspender os manuais de diagnóstico (como o CID e o DSM) e as ortodoxias para que o fenômeno — seja o bloqueio cognitivo da criança, seja a angústia existencial do adulto — possa se manifestar em sua pureza primeva. Trata-se de uma descolonização do olhar clínico que devolve ao sujeito o seu direito originário ao enigma.

II. A Plasticidade do Simbólico contra o Hermetismo Estrutural Lacaniano

A originalidade metodológica do Professor Reinaldo Müller atinge seu ápice na interseção crítica que realiza com a psicanálise de Jacques Lacan. Na tradição lacaniana ortodoxa, o processo de subjetivação do indivíduo está intimamente atado a uma álgebra estrutural. O operador fundamental dessa lógica é a metáfora paterna, traduzida pelo significante do Nome-do-Pai. Na leitura dogmática, a falha, a insuficiência ou a foraclusão desse operador sentenciam o sujeito, de maneira fatalista e inapelável, ao terreno estrutural da psicose ou da desestruturação psicopatológica.

Reizinho promove uma virada conceitual monumental ao rejeitar esse determinismo nosológico. O autor aceita a premissa de que a linguagem e a ordem simbólica são as matrizes constituintes do sujeito, contudo, ele retira o Nome-do-Pai do isolamento metafísico e o eleva ao estatuto de fenômeno cultural.
Sob a ótica da Ontologia Clínica, o Nome-do-Pai é pragmatizado. Ele deixa de ser um veredicto anatômico-estrutural do psiquismo para se tornar uma instância flexível de ancoragem civilizatória.

Ao despatologizar o simbólico, a Ontologia Clínica demonstra que a inserção do indivíduo na cultura, na Lei e no laço social não é um evento estático determinado na primeira infância, mas uma dinâmica maleável, contínua e passível de reconfiguração. O simbólico ganha plasticidade; a estrutura perde seu caráter hermético prisional.

III. O Processo de Ressubjetivação e o Upgrade da Analítica Existencial

Ao libertar o sujeito das amarras da nosologia tradicional, o Professor Reinaldo Müller redefine o próprio horizonte teleológico da intervenção clínica e pedagógica. Quando um indivíduo é capturado por um diagnóstico, ele passa a operar e a existir a partir do rótulo que recebeu. A clínica tradicional reforça esse aprisionamento ao buscar a normatização médica ou o enquadramento estatístico.

A Ontologia Clínica propõe, alternativamente, conduzir o sujeito a uma "ressubjetivação de sua inserção no mundo". Esse movimento metodológico realiza um upgrade direto na Daseinsanalyse europeia de Medard Boss e Ludwig Binswanger. Se a clínica existencial tradicional frequentemente se enclausurava em um purismo hermenêutico e puramente contemplativo, carecendo de ferramentas de manejo prático, Reizinho confere ao Dasein (o ser-no-mundo) uma resolutividade operacional rigorosa.

O sofrimento psíquico ou o entrave pedagógico não são interpretados como falhas mecânicas de um aparelho cognitivo ou psíquico isolado, mas sim como a geografia existencial e a limitação circunstancial na projeção da liberdade daquele sujeito. A cura e a emancipação, portanto, não significam o alcance de uma normalidade idealizada, mas a restituição da autonomia e a descoberta do potencial autônomo do Ser para que ele possa transitar diante do laço social de forma autoral e consciente de sua finitude.

IV. Conclusão: A Síntese Genuína da Emancipação do Ser

A Ontologia Clínica do Professor Reinaldo Müller (Reizinho) consolida-se como uma matriz epistemológica madura e necessária para as ciências humanas contemporâneas.

Ela resolve o impasse histórico entre a Fenomenologia e a Psicanálise:

1. Fornece à Fenomenologia a densidade da teoria do inconsciente e da linguagem, impedindo que o existencialismo caia em um subjetivismo abstrato.

2. Fornece à Psicanálise o respiro ético da epoché, impedindo que a escuta analítica se transforme em um tribunal inquisitório de diagnósticos lineares.

Ao costurar o olhar fenomenológico com a escuta simbólica e culturalizada, o Tratado da Virada Ontológica oferece à academia uma ciência clínica humanista, operável e focada na emancipação política e íntima do Ser humano.

Para operar a contextualização da Ontologia clínica, sem prescindir do rigor orgânico e biológico, está circunscrito uma sólida interlocução com as teses de Georges Canguilhem em O Normal e o Patológico.

No confronto direto com a densidade e a complexidade da fisiologia humana e de seu intrincado metabolismo, Canguilhem demonstrou com precisão conceitual que a experiência patológica reorganiza a relação do organismo com o meio, gerando novas formas de normatividade vital frente a limitações circunstanciais.

Contudo, a Ontologia Clínica adota um cuidado rigoroso ao transpor essa lógica para o campo das psicoses, com especial atenção à esquizofrenia. O modelo teórico da Ontologia clínica reconhece que a gênese do sofrimento psíquico severo possui determinantes orgânicos e genéticos complexos que estabelecem barreiras, obstáculos e limitações estruturais reais ao desenvolvimento do sujeito.

Longe de ignorar esse substrato biológico defendido pela psiquiatria contemporânea, a Ontologia Clínica mapeia essas barreiras para delimitar o escopo de sua atuação.

O entrave pedagógico-psicopedagógico ou o sofrimento existencial são analisados a partir dessa geografia orgânica preexistente, permitindo que os achados autorais operem na maleabilidade simbólica possível, auxiliando o sujeito a projetar sua autonomia nos limites de sua própria finitude e contorno biológico.

⁠A Verdade faz todo o resto... Parecer mentira!

Reinaldo Müller > "Reizinho"

⁠Eu te amo...
Antes e depois de todos os acontecimentos...
Na profunda imensidade do vazio, e a cada lágrima dos meus pensamentos, eu te amo...
Em todos os ventos que cantam, Em todas as sombras que choram...
Na extensão infinita dos tempos...
Até a região onde os silêncios moram
Eu te amo em todas as transformações da vida. Em todos os caminhos do medo... Na angústia da vontade perdida e na dor que se veste em segredo... Eu te amo!

⁠O objetivo de uma análise...

O que se espera de uma análise é que ela conduza o sujeito a uma ressubjetivação de sua inserção no mundo, de modo que possa viver em ressonância com seu desejo. Isso representa que o sujeito aceita ser o que é e não o que acha que deveria ser...
Tal acomodação consigo mesmo significa acomodação à condição humana, limite de cada um de nós. Certamente, essa experiência leva ao desaparecimento dos sintomas de que o sujeito se queixava ao chegar à análise. Ou seja, a psicopatologia (psicanalítica) é o resultado dos produtos do fracasso da repressão psíquica.
O sintoma é um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que não se realizou... O sintoma é o resultado de uma REPRESSÃO...
O conflito mental na perspectiva psicanalítica é a expressão figurada (uma metáfora) do reprimido --- censurado --- bloqueado em sua expressão... Original!
A terapia analítica é completamente nova, representa uma ruptura com o conceito médico de cura... Vale dizer que essa "cura" não é o objetivo da análise, é até secundária ao processo. O enorme benefício que a análise traz é a recuperação da liberdade de ser humanamente limitado. É a reinvenção da vida dentro dos limites do possível...
Para a psicanálise, a doença não se define pela presença dos sintomas, mas pelo sofrimento, denunciado pelos sintomas... De um sujeito que vive em dissonância com sua verdade. E ninguém está mais sujeito a esse sofrimento do que o homem moderno, obrigado a ser feliz.
A liberdade que subjaz ao projeto de modernidade acabou por degradar-se à hipermodernidade, numa prisão em que todos somos obrigados a responder ao imperativo de alcançar o inatingível: ser feliz a qualquer preço!
Prof. Reinaldo Müller > "Reizinho"

⁠O matuto falava tão calmamente, que parecia medir, analisar e meditar sobre cada palavra que dizia...
É.... das invenção dos hômi, a que mais tem sintido é o abraço. O abraço num tem jeito di um só aproveitá! Tudo quanto é gente, no abraço, participa uma beradinha...
Quandu ocê tá danado de sodade, o abraço de arguém ti alivia... Quandu ocê tá cum muita reiva, vem um, te abraça e ocê fica até sem graça de continuá cum reiva....
Si ocê tá feliz e abraça arguém, esse arguém pega um poquim da sua alegria.... Si arguém tá duente, quandu ocê abraça ele, ele começa a miorá, i ocê miora junto tamém... Muita gente importante e letrado já tentô dá um jeito de sabê purquê qui é qui o abraço tem tanta tequilonogia, mas, ninguém inda discubriu... Mas, iêu sei!
Foi um ispirto bão de Deus qui mi contô....
Iêu vô contá procêis u qui foi quel mi falô: O abraço é bão pur causa do Coração...
Quandu ocê abraça arguém, fais massarge no coração!... I o coração do ôtro é massargiado tamém! Mas num é só iço, não... Aqui tá a chave do maió segredo de tudo:
É qui, candu nóis abraça arguém, nóis fica cum dois coração no peito!...

⁠Beijo...

Beijo com lágrimas escorridas
Dado sem graça
De lembranças doloridas
De promessa e ameaça
Beijo cheio de ausência
E de coração magoado
Do vazio da indiferença
Do amor frustrado
Beijo dado no quarto vazio
Sem ardor, sem alma
Sem corpo, sem presença
Sem boca, sem nada...

⁠Não acredite na sabedoria coletiva da ignorância individual...

⁠Por detrás de todas as nossas mentiras, se esconde a Verdade...

⁠Depois o café esfria.

Depois a prioridade muda.

Depois o encanto se perde.

Depois a vontade passa.

Depois não!

⁠Uma pessoa REAL não é perfeita... Uma pessoa perfeita não é REAL!

⁠Existem dias em que prefiro acreditar que você só saiu de casa pra passar uns dias com sua mãe... Que você resolveu sair e ir naquela sua padaria favorita na esquina da rua, que você saiu pra se divertir com as colegas do serviço. Prefiro inventar um milhão de histórias pra convencer a mim mesmo que, uma hora ou outra, você vai voltar a bater na porta porque esqueceu a chave dentro da gaveta, do lado da cama...
Não tenho força dentro de mim pra simplesmente aceitar que nada disso vai acontecer outra vez. Não tenho força nenhuma pra me convencer de que tudo vai ficar bem, depois de aceitar a tragédia natural com que tudo isso aconteceu... Hoje, você não está mais aqui.
Na verdade, você se ausenta há exatos 45 dias e 22 horas, quando aquele maldito aparelho do lado da tua cama no hospital começou a fazer um barulho de que alguma coisa não estava nos conformes... E realmente não estava. Depois daqueles cinco minutos intermináveis em que os médicos tentavam te reanimar, nada mais em você fez barulho nenhum... E foi exatamente naquele momento em que eu mais senti falta dos teus resmungos matinais, do teu ranger de dentes na madrugada, do barulho dos teus dedos estralando enquanto eu tocava meu violão e você tentava acompanhar o ritmo.
Foi naquele momento em que eu percebi o quanto os teus detalhes já me faziam falta. E do quanto aquele barulho de máquina avisando que teu coração já não batia me tiraria o sono de todas as madrugadas.
Pra você ter uma noção mais ampla de tudo isso, eu não consigo mais deitar na nossa cama.
Nem tomar café da manhã na nossa mesa recém-comprada... Eu não consigo mais caminhar pelas mesmas ruas, nem levar o Sheik pra correr pelo calçadão. Eu não consigo mais dormir. Minhas idas aos neurologistas, que antes eram pra tratar da dor de cabeça com que você tanto se preocupava, hoje são em busca de receitas pra calmantes ou qualquer outra porcaria que me faça dormir durante a madrugada inteira.
E às vezes nem eles resolvem. Em algumas noites, eu acordo ouvindo tua voz pelo corredor, e pulo do sofá igual uma criança na noite de Natal quando acha que o Papai Noel foi entregar o presente... Outras noites, acordo angustiado por não te sentir perto de mim no sofá da sala, daquele jeito que você costumava se deitar: ao meu lado, com as pernas entrelaçadas nas minhas, aconchegando teu cabelo macio entre meu braço, como se eu fosse teu travesseiro e teu cobertor, ao mesmo tempo. E isso dói. Dói em cada parte do meu corpo, e muito mais dolorido que isso, dói em cada pedaço da minha alma. Saber que nada disso vai se repetir me faz ter uma vontade louca de pular do último andar do prédio mais alto da cidade, pra ir atrás de você, onde quer que você esteja.
(...)
Dia desses teus pais vieram me visitar, me chamaram pra almoçar fora... Tua mãe me pediu pra fazer a barba, teu pai me pediu pra seguir em frente... Mas eu não quero seguir, muito menos fazer a barba que você dizia ficar tão bem em mim, por me deixar com cara de homem sério.
Eu me recuso a aceitar que você se foi, e mais que isso, eu me recuso a tirar você do meu avesso... Me recuso porque a melhor parte de mim, se fez pela melhor parte de você... Ou por você inteira. Pelo teu jeito de menina, pelo jeito com que aquele vestido florido que a minha mãe fez dava certinho em você, pela cor dos teus olhos castanhos, pelo teu cabelo, pela tua franja, pelo teu sorriso desajeitado, pela tua boca com sabor de champanhe de morango. A melhor parte de mim se fez pra ser o que você precisava... Mesmo sabendo que você sempre mereceu coisa melhor, resolvi me arriscar e me fazer teu porto seguro, pra que no fim de um dia cansativo, você pudesse chegar perto e encontrar abrigo em um peito que, apesar da quantidade infinita de imperfeições, sabia exatamente o que fazer pra que você sorrisse, outra vez, aquele sorrisinho aberto de quem teve a melhor notícia do dia. (...)
Sabe amor, onde quer que você esteja, queria te pedir: cuida de mim. Não me deixa sozinho não. Eu não sei me cuidar, você entende?
Eu continuo me cortando com a gillete, continuo me esquecendo de colocar o lixo pra fora, continuo comendo miojo porque não faço ideia de como se cozinha, continuo sendo resmungão, continuo cortando meu dedo. continuo com meus projetos, continuo batendo meu pé na quina da mesinha que sua irmã nos deu de presente de casamento... Continuo precisando de você...
Hoje, mais do que nunca, o barulho da maquininha que te levou embora ecoa pelos quatro cantos da nossa casa, e eu não sei onde posso me esconder. Eu só quero teu colo pra poder chorar em paz...”

⁠Descaminhos...

Meu caminho vem sendo cheio de tropeços...
A cada momento que lembro-me de teu sorriso desconcertante, do teu café forte, do teu cheiro de hortelã e da tua camisa esquecida em minha gaveta, aí minhas pernas se enfraquecem e eu caio no chão, feito uma criança a qual sempre me julgou ser, que mal aprendeu a dar os primeiros passos e já quer segurar firme em suas mãos...
Olho pra trás e não vejo nada menos que algumas pegadas de par em par, que de um tempo pra cá se tornaram únicas e perdidas.
Você deve ter entrado em qualquer beco por aí, ou eu mesma resolvi tomar um rumo diferente do teu. Só lembro-me que te pedi mais de 20 vezes “não me deixe, e você fez questão de esquecer das 21 em que me prometeu: “eu não vou”.
Minha voz acabou sumindo também, assim como minha alma e meu sorriso. Tudo se desfez, você se foi de mim sem sequer deixar aviso prévio. E sinto falta de quando tinha todas essas coisas, ao teu lado.
Eu poderia ter composto dez canções diferentes pra você, explicando em cada uma delas o quanto era naturalmente estranho cada vez que me deixava sem ar com um abraço e tirava minhas palavras com um beijo.
Eu poderia ter feito tanta coisa. Era só você permitir, e permitir-se, também, da mesma forma, em igual intensidade.
Não me incomodaria em ficar corada com teus elogios, muito menos em ter que aguentar tuas mudanças repentinas de humor.
Não me incomodaria em nada, se desejasse realmente ficar ao meu lado, sem esse monte de idas com voltas incertas.
Realmente, não teria incômodo, se, em cada tropeço, você prometesse, verdadeiramente, e de uma vez por todas, não me deixar cair...