Coleção pessoal de testeteste123
Avó
Ter avó é ter uma mãe duas vezes.
É ter o coração sempre cheio, nunca pela metade.
Ter avó é estar numa extremidade e ela na outra do mesmo arco-íris.
É nascer de novo sem nunca cortar o cordão umbilical.
Chamam-nos de netos, mas no fundo somos filhos também,
porque ser neto é ter sido gerado em dois corações.
Que os netos de hoje entendam:
os avós também são pais
e devem ser valorizados enquanto existem.
Um bom dia repleto de coisas boas, para todos aqueles que carregam no coração, amor e gentilezas para oferecer ao próximo...!
“Sonhar primeiro com os cadarços, aprender com a dor de alguns laços, para daí adiante não se enrolar na vida como quem tropeçou nos próprios passos.”
Os cadarços de Sophia
“Não te falta força, porém cadarços amarelos para o sapatênis que não tem. Pois quem vive vida tão sofrida, morro acima, morro abaixo, com uma bacia de roupas na cabeça, não compra cadarços — cadarços amarelos — nem sapatênis, nem uniformes; muito menos pode ir à escola, como as crianças que não trabalham e podem estudar.”
Diziam isso para a menina que chorava por cadarços amarelos, para o sapatênis que ficava na vitrine da loja de calçados, a um quarteirão e meio da escola. Escola esta particular, única na vila, de fama alta entre antigos e novos moradores da cidade por causa dos seus uniformes. Eram uniformes com pudor, de menina-moça de família, educada e de muita estima, pelo lindo e desenhado traje que usavam — principalmente o das meninas, de mangas longas e vestido, com sapatênis preto, todo padronizado. Apenas a cor dos cadarços variava: rosé ou vermelho, verde ou azulado. Era essa a razão do sonho de Sophia — um sapatênis fechado com o bendito cadarço amarelado.
Era o sonho de Sophia comprar aqueles cadarços e, para isso, guardava seus trocados, que no trajeto do morro abaixo recebia da sua mãe, que com a menina repartia parte do pagamento: duas moedinhas de dez centavos pela tarefa cumprida, pelo esforço que fazia morro acima, carregando a trouxa de roupas e uma latinha.
De três em três dias, duas moedas no fundo do pequeno cofre tiniam. Cofre para este fim feito, artesanalmente “arranjado”, de latinha de leite moça improvisada, com um adesivo amarelo pregado. Nele, estava escrita pela mãe da menina a única palavra por ela aprendida — palavra esta que Sophia também aprendera no caminho morro acima e, quando descia a ladeira morro abaixo, com fé, pronunciava o som da palavra a cada passo; e o significado de cada fonema embrulhava como se faz com um presente que ainda não chegou a hora de dar.
Cadarço, que agora era o sonho de Sophia, já fora o sonho de sua mãe, que à escola nunca ia, pois uns cadarços, em vidas tão sofridas, nunca pôde comprar — muito menos sapatênis, uniformes e ir à escola estudar.
Forças e sonhos todas as manhãs arrumava. Com o tinido de cada moeda no fundo da lata se motivava. Nunca desistiu da caminhada: morro acima, morro abaixo. Aprendeu que, na vida, tudo passa e que uma grande meta a ser alcançada traz, no começo, uma dificuldade danada.
Primeiro os cadarços, depois o sapatênis, o uniforme e, por fim, a escola. Um passo atrás do outro, uma conquista de cada vez. Diziam para a menina que chorava por cadarços amarelos:
“Sonhar primeiro com os cadarços, aprender com a dor de alguns laços, para daí adiante não se enrolar na vida como quem tropeçou nos próprios passos.”
Para minha felicidade e admiração de sua mãe, anos mais tarde, quando voltei, dei de frente com Sophia. Em suas mãos não encontrei nem bacia nem latinha. Estava diferente. Diferente da menina que, morro acima, morro abaixo, repetia insistentemente a palavra alegria. A mesma palavra escrita naquela latinha, palavra ensinada pela mãezinha, razão que foi razão dos seus cadarços, do sapatênis, do uniforme e da escolinha.
De hoje em diante, também me sento com os moradores da cidade para, com orgulho, olhar aquelas que, de uniformes tão admiráveis, caminham para estudar. Que vão e vêm todos os dias — em especial a minha menina de cadarços amarelos, única entre as demais. Aquela que vai cantando insistentemente a palavra alegria, porque desde cedo ela sabia que, na vida, não se realizam sonhos — muito menos se compram cadarços amarelos — sem alegria, razão dos cadarços amarelos, razão do sonho de Sophia.
No decorrer de certas noites, quando o tempo se mostra oportuno, cercado por uma escuridão densa, iluminado apenas pela luz da lua, fico em silêncio e passo a ter uma conversa sincera com Selene, dando voz aos meus pensamentos mais frequentes como se ela conseguisse ouvir todos eles
Assim, prontamente, consigo ficar imerso em um momento particular, permitido por Deus, um dos meios da minha mente desabafar, estando diante de uma ouvinte perfeita, que a ouve atentamente lá do céu, sem expressar nenhum sinal de desconforto, ouvindo tudo até o final, um respeito desejoso
E levando em conta o meu alívio mental, de acordo com um prisma lúdico, imagino que toda vez que conversamos, ela ouve e responde de uma maneira sábia a cada pensamento meu que decide falar sobre vários assuntos, paixão, rotina, sonhos, imaginação, amor e outras coisas da vida.
Os ouvidos
da minha alma
não estavam preparados para
recusar carinho.
Esbanjando melodia, você ajuda o vovô a quebrar as próprias regras!
Os que conhecem um pouquinho de mim, sabem ou deveriam saber que detesto Áudios e Ligações por WhatsApp.
Mas aí está um dos áudios que fizeram a minha alma se sentir tão Amada e Laureada que até retornou a ligação.
Porque quando o afeto chega cantando, até as estranhas manias se calam.
Minha resistência, tão orgulhosa e rendida, só puxou a cadeira para se sentar e sorrir.
Não era só um áudio — era um colo em forma de som.
Nem era só uma ligação — era um abraço que aprendeu a discar.
E assim, a alma, antes desconfiada, aprendeu que algumas exceções não quebram regras:
elas revelam sentimentos.
Quando tropecei na certeza de acreditar que só precisava de três mulheres para ser Feliz: uma para me chamar de Filho, uma de Amor e outra de Papai, Deus me presenteou com a que me chama de vovô.
E quando esse carinho todo nos chama pelo nome, a gente atende.
Quando o amor insiste, a gente retorna.
Vovô ama porque reconhece.
E reconhece porque sentiu.
Te amo, lady Laura!
Acumular rancor é igual a esponja que acumula sujeira; basta alguém apertar para expelir toda aquela sujeira, todo aquele ódio acumulado.
“Na origem, o corpo era apenas verdade, não motivo de culpa. Adão e Eva não sentiam vergonha porque ainda não havia separação entre quem eram e quem pareciam ser. A desobediência não criou o corpo nu, criou o olhar que julga. A vergonha nasceu quando a inocência foi perdida, não quando a pele foi revelada.”
O extraordinário se revelou.
A esperança outrora emudecida renasce,
subjugando os excessos maculosos da mente
que teima, desiste e renova.
Nós não o perdemos
Nós não o perdemos, ninguém o perdeu.
Nós ganhamos o privilégio de viver 31 anos com uma pessoa maravilhosa. Ganhamos da vida a oportunidade de conhecer uma pessoa especial, e dizer que fomos felizes é pouco para descrever.
Se eu pudesse voltar no tempo para tê-lo de volta, voltaria.
Se fosse preciso renunciar a todos os títulos acadêmicos para tê-lo de volta, sem dúvida eu faria. Qualquer um de nós faria.
E, se tivesse essa alternativa, eu escolheria viver mais 31 anos de novo com ele, sem mudar nada do que foi. Tudo do mesmo jeito: os mesmos momentos bons e ruins, todos os momentos e a vida exatamente como foi. Perfeito como foi, porque não teria sido perfeito de nenhuma outra forma, se não fosse ele exatamente do jeito que é.
Hoje, esse ciclo não se encerra. Continuaremos vivendo, não apenas com tristeza, mas com o orgulho de quem o teve.
Cada lembrança, cada sorriso, cada risada, cada instante. Seu jeito, seus trejeitos, sua luta e suas vitórias não esqueceremos.
Procuro sempre olhar o lado bom das coisas e, após essa constatação do quão dolorida é a sua ausência, fica claro que viver com ele foi viver um paraíso na terra.
E o melhor de tudo é que um dia o encontraremos de novo. Ele estará feliz e ansioso para nos ver. Mas, enquanto esse dia não chega, tenho certeza de que o seu desejo é que vivêssemos bem, com a alegria que ele nos mostrou.
Espero que essas palavras encontrem paridade com o sorriso dele, mas sei que as palavras nunca serão suficientes para substituí-lo. Por isso, a melhor forma de viver neste momento é entender que a sua vida foi uma dádiva e que as nossas, por causa dele, foram privilegiadas.
Sobre este texto: não é o melhor que já escrevi, até porque nunca pensei em escrever sobre a sua despedida. Nunca pensei, porque só o amor nos faz acreditar que certas pessoas são imortais.
Menino criado com vó
Que a despedida seja nosso derradeiro anseio. Que dedicatórias e saudades não sejam nunca ensaiadas. Que os olhares não mirem lembranças ou lugares lembrando de alguém, e que a minha robusta linguagem seja tímida se um dia precisar falar de adeus com você.
Não tenho poemas tristes sobre você. A minha vida e a vida dos outros são todas vidas de dentro de você. Tu sabes que eu sei dizer e arrumar em palavras as mais consoladoras e convincentes. Só as nego e negarei dizer a todos qualquer coisa que explique um dia a tua ausência, porque “até logo” ou “até um dia” eu até diria, porém adeus jamais lhe daria.
E num verso em que foge a rima e o português rebuscado, digo-te até um pouco bravo, não com a braveza de um desorientado, mas falo da bravura de um filho de nordestino, cabra arretado, te proibindo que desta vida se retires antes que eu veja em vida os filhos dos meus filhos, para terem também a sorte, assim como eu tive, de ser menino criado com vó.
Quiçá todo mundo pudesse ter sido, como eu fui na infância, querido; hora outra chamado de neto preferido; comigo sempre repartindo os doces recebidos. Sorte na tua casa ter vivido, e da tua vida me foi feito abrigo, como até hoje e ainda em breve será.
Pois com pressa só tratamos a saúde. O que não for saudade pode esperar!
