Coleção pessoal de pensador
Talvez nisso esteja a verdadeira conservação da espécie, em perpetuar até a última geração de humanos as neuroses de nossos antepassados, as feridas que vamos herdando como uma segunda carga genética.
Meus pais pareciam tomar a infância como uma etapa preparatória em que devem ser corrigidos todos os defeitos de fabricação com que chegamos ao mundo e levavam essa tarefa seriamente.
O silêncio, como o sal, é de uma leveza apenas aparente: na realidade, se alguém deixa que o tempo o umedeça, começa a pesar como uma espécie de bigorna.
A dor permanece na nossa consciência como uma borbulha de ar cujo interior está intacto, esperando que se lhe invoque ou, no melhor dos casos, se lhe permita sair.
Os comportamentos adquiridos durante a infância nos acompanham sempre, e mesmo que tenhamos conseguido, à força de uma grande vontade, mantê-los cercados, encolhidos em um lugar tenebroso da memória, quando menos esperamos nos saltam na cara como gatos enfurecidos.
Sempre amamos sozinhos, pois cada um ama a seu próprio modo, cada um ama com sua história, com seu sintoma, com suas perebas psíquicas, com seus perrengues transgeracionais.
Não existe receita pronta para ser a gente mesmo. Só a gente é o que é. Somos sozinhos nesse sentido.
Eles se beijaram, e se beijaram mais uma vez, e ele teria pensado que estava em um conto de fadas, se não fosse pela areia em seu colarinho, a água nas botas e a dor no corpo. Mas ele não trocaria isso por nada.
Eu sei que somos jovens, eu sei que nos conhecemos em circunstâncias estressantes… Eu sei que nós dois somos os últimos e nos sentimos sozinhos. Mas poderíamos ficar sozinhos juntos.
Não sei se sua boca está beijando outra
Nesses momentos, nesses momentos,
E não sei se seus olhos já esqueceram de mim
E os pensamentos se foram com o tempo
