Coleção pessoal de pensador

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Não podemos expor nossas queixas e jogar bombas no ar como numa família normal, ou acabamos danificando algo muito maior e muito mais importante. O sistema.

Foi quando eu aprendi o que era a dor. A verdadeira dor. Como ela se move pelo corpo. Como ela o habita. Como se torna parte da sua pele. De suas células. E faz um lar lá. Um lar permanente. Mas você aprende a viver com ela. Você voltará a ser feliz. Embora nunca como antes, mas essa é a ideia. Continuar encontrando novas formas.

Por fim entendi que, se não divulgar minha história, as pessoas nunca entenderão como tem sido para mim.

Tenho fixação pelo passado. Pela tradição. Por preservá-la. Conservá-la.

Não é extraordinário que a ideia de diversão de duas pessoas seja tão diferente?

Álbum de família

Meu pai viu Casablanca três vezes (duas
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.

Cantiga de caminho

Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
sei rezar latim pro nobis
sou primo do preto Brás

Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
vou vivendo como vivo
faço o que ninguém mais faz

Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sei somar zero com zero
e ainda divido por dois

Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sempre que posso eu passo
o carro à frente dos bois

Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
sou rosa e pedra no caminho
sou capaz de guerra e paz

Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
dou volta e meia no mundo
e o mundo não acaba mais

Queridos dias difíceis

Queridos dias difíceis,
acho que já deu – embora

eu considere prematuro
um definitivo adeus.

Querendo, voltem. Minha
casa é de vocês. Agora,

pensem bem se será mesmo
saudável nos testarmos em

novos convívios tão longos
(também não sou fácil) como

foi desta vez. Menos mal se
vierem em grupos – tantos,

em tais e tais períodos do mês.
Topam correr o risco? Vão resistir

até o fim? Podem vir, eu insisto.
Mas contem primeiro até três.

Florilégio

Sou uma pessoa
muito simples.

Meu único luxo
é ler Cruz e Sousa

e Murilo Mendes
no original.

Até perder

Meus 5 sentidos querem
olhar os seus 5 sentidos ouvir os seus
5 sentidos tocar os seus 5
sentidos cheirar os seus 5 sentidos até perder
os sentidos

Só tornei a literatura possível quando a retirei da solenidade.

A literatura é uma versão da realidade.

Toda história tem um fundo e quem escreve deve se comprometer em não parar enquanto não encontrar esse fundo.

Não sei o rumo da história até que comece a contá-la, até que a própria linguagem me sinalize.

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Eu tenho quarenta e um anos
E onze graus de miopia

Eu tenho quarenta e um anos
E nenhuma carta de motorista

Eu tenho quarenta e um anos
E sete mil dias de despersonalização

Eu tenho quarenta e um anos
E vinte e oito dentes

Eu tenho quarenta e um anos
E um coração para cada filho

Eu tenho quarenta e um anos
E nenhuma vontade de morrer

Para minha filha

Quando sentir o chão ceder debaixo da sola de seus passos
Quando olhar para a frente e enxergar a nuca do mundo
Quando a água do mar parecer fria e seu nariz grande demais
Quando o vazio te ofertar a mão com brandura encenada
Quando a noite perpétua te jurar que nunca mais haverá dia
Quando alegria desertar de suas pernas e você parar de dançar
Quando se sentir cansada até mesmo para dormir

Sua mãe estará aqui

24 de junho

Os braços me doem de carregar o filho
E as pernas de tanto caminhar
Com o filho nos braços
Para que tanto mundo para vida tão curta?

As costas doem de me curvar
Para febre e o choro
E me doem os cantos das unhas e a cabeça
Me dói ainda mais o coração

Por que dói tanto?
Eu pergunto à minha mãe
Ela não sabe
Diz que são bonitas as noites de junho
O céu de mar profundo e as estrelas de São João

Eu engastalho o choro e aperto meu filho
Respiro o cheiro da boquinha cor-de-rosa
Leite e vida recente
Olha, meu filho
Como são bonitas as noites de junho
O céu de mar profundo e as estrelas de São João

Eu era primata e segurava primata

Não me lembro o que eu era antes de ser mãe
Alguma coisa entre tijolo e rã
(sólida e escorregadia)
O tempo de antes ficou sujo de uma coisa
que eu não sei
A vida principiou naquele dia
e depois só futuro
E era um futuro tão velho que parecia passado
Quando eu coloquei no colo minha filha
Era como se carregasse minha mãe
Ou a mãe da minha mãe
Ou a primeira mulher do mundo
Que era gente e era macaco
Ali eu era primata e segurava primata
E doía tanto

A vingança nos consumiu. Não podemos permitir que ela consuma o nosso povo.

Isso não é o que ela desejaria para você. Não é o que eu quero para o meu povo.