Coleção pessoal de pensador
Tudo o que podia fazer era oferecer-lhe conforto, a garantia de que, no momento em que partia da vida, não estava sozinho e sim acompanhado pelo cachorro que o amava mais do que a qualquer outra coisa em todo o mundo.
Ficção científica
Depois de uma viagem
Pelo espaço sideral,
O astronauta chegou
Ao seu destino final:
Um planeta diferente
Cujo em cima ficava embaixo
E o atrás ficava na frente.
Um planeta tão estranho
Que a sujeira era limpa
E a água tomava banho
Um planeta mesmo louco
Onde o muito era nada
E o tudo muito pouco
Um planeta dos mais raros
O seu ouro era de graça,
O lixo custava caro.
O astronauta não gostou
E foi-se embora. Quando
Pensou estar muito longe
Viu-se outra vez chegando
Num planeta onde, aliás,
O embaixo ficava em cima
E a frente ficava por trás...
Quando Cabral o descobriu,
será que o Brasil sentiu frio?
Diz a História que os índios comeram o bispo Sardinha.
Mas como foi que eles conseguiram abrir a latinha?
Qual o mais velho, diga num segundo:
D. Pedro I ou D. Pedro II?
De que cor era mesmo (eu nunca decoro)
o cavalo branco do Marechal Deodoro?
Declaração de bens
meu deus
minha pátria
minha família
minha casa
meu clube
meu carro
minha mulher
minha escova de dentes
meus calos
minha vida
meu câncer
meus vermes
partido: o que partiu
rumo ao futuro
mas no caminho esqueceu
a razão da partida
(só perdemos
a viagem camaradas
não a estrada
nem a vida)
não era esta a independência que eu sonhava
não era esta a república que eu sonhava
não era este o socialismo que eu sonhava
não era este o apocalipse que eu sonhava
Se esta rua fosse minha,
eu mandava ladrilhar,
não para automóveis matar gente,
mas para criança brincar.
Se esta mata fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?
Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Joguem esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.
Se este mundo fosse meu,
Eu fazia tantas mudanças
Que ele seria um paraíso
De bichos, plantas e crianças.
Um homem
que se preocupava demais
com coisas sem importância
acabou ficando com a cabeça cheia de minhocas.
Um amigo lhe deu então a ideia
de usar as minhocas
numa pescaria para se distrair das preocupações.
O homem se distraiu tanto
pescando
que sua cabeça ficou leve
como um balão
e foi subindo pelo ar
até sumir nas nuvens.
Onde será que foi parar?
Não sei
nem quero me preocupar com isso.
Vou mais é pescar.
Eu vi um ângulo obtuso
Ficar inteligente
E a boca da noite
Palitar os dentes.
Vi um braço de mar
Coçando o sovaco
E também dois tatus
Jogando buraco.
Eu vi um nó cego
Andando de bengala
E vi uma andorinha
Arrumando a mala.
Vi um pé de vento
Calçar as botinas
E o seu cavalo-motor
Sacudir as crinas.
Vi uma mosca entrando
Em boca fechada
E um beco sem saída
Que não tinha entrada.
É a pura verdade,
A mais nem um til,
E tudo aconteceu
Num primeiro de abril.
A arara
é uma ave rara
pois o homem não pára
de ir ao mato caçá-la
para a pôr na sala
em cima de um poleiro
onde ela fica o dia inteiro
fazendo escarcéu
porque já não pode
voar pelo céu.
E se o homem não pára
de caçar arara,
hoje uma ave rara,
ou a arara some
ou então muda seu nome
para arrara.
neste lugar solitário
o homem toda a manhã
tem o porte estatuário
de um pensador de Rodin
neste lugar solitário
extravasa sem sursis
como um confessionário
o mais íntimo de si
neste lugar solitário
arúspice desentranha
o aflito vocabulário
de suas próprias entranhas
neste lugar solitário
faz a conta doída:
em lançamentos diários
a soma de sua vida
O tempo é algo escorregadio: segure com firmeza ou seu encadeamento pode escoar de suas mãos para sempre.
Algumas vezes, eu me apanho encarando o mar e me esqueço de minhas tarefas. Parece grande o suficiente para conter qualquer coisa que as pessoas possam sentir.
Quando perdi a visão, as pessoas disseram que eu era corajosa. Quando meu pai foi embora, as pessoas disseram que eu era corajosa. Mas não era coragem; eu não tinha escolha. Acordo todos os dias e vivo minha vida. Você não faz a mesma coisa?
