Coleção pessoal de pensador
Não tentes reconciliar-me com a morte, ó glorioso Odisseu.
Eu preferiria estar na terra, como trabalhador agrícola de outro,
até de homem sem herança e sem grande sustento,
a reinar sobre todos os mortos falecidos.
Não inventaram nada, ainda, à altura da língua. Mesmo assim, a palavra nunca chega aos pés da realidade, até porque ela nasce quase sempre antes da coisa que descreve. Como falar de algo novo se todas as palavras que tenho à disposição têm a idade do mundo?
Não existe pensar fora da língua. Ah, mas uma imagem vale mais do que mil palavras, dizemos – usando palavras. Estou sem palavras, dizemos – usando palavras. A palavra é prata, o silêncio é ouro, dizemos, em vez de fazer o que o ditado recomenda e ficar calados.
Soneto da filha pequena
Acordei transformado num sultão.
A princesa, miçangas em sua testa,
dava aos gatos, seus tigres, uma festa.
Um cetro de vassoura em sua mão.
Seu vestido arrastava pelo chão.
Com os liros ergueu uma floresta.
Escondida enxergava pela fresta
a poltrona vertida em alçapão.
Da casa sem crianças tenho dó.
Nenhum dos móveis sequer sonhará
em ter seus afazeres subvertidos.
A pá só servirá pra pôr o pó.
A vassoura somente varrerá.
As cortinas jamais serão vestidos.
