Coleção pessoal de pensador
Se é que você fala que o bagulho é doido
O bonde é mais louco do que o bagulho
Vivendo a vida no estúdio, lembrando os sufoco
Quem é que nunca teve um sonho guardado desde novo?
Meu olhar frio sempre foi minha fortaleza
E a pena de cada mano me deixaria mais fraco
Gentileza é paga com gentileza
Traição tem troco
CRUCIFICADO
O teu sorriso meigo e delicado,
Com que me brindaste naquele dia,
Foi toda causa do meu triste estado,
Desta minha torturante agonia.
O pássaro de barro da saudade
Revoando no aro dos meus olhos
Repousou nos meus dedos de silêncio
Partindo para as terras ignotas.
Divaguei nos roteiros do amanhã
(Quilhas cortando o ventre do espaço
Rasparam os recifes das quimeras
Encalhando nas rochas das lembranças).
E aquela argila diluída em sombras
Incensando o meu templo de memórias
Nas alvoradas dos meus sofrimentos.
Na grande solidão do inatingível
Ancorei o coração num mar de lágrimas
E adormeci num inferno entre dois céus.
SER E NÃO SER
Este ser e não ser que vive em mim
Inacessível ao meu pensamento,
No divagar meu mundo interior
Subsistindo em mim independente.
Negando-me os meus conhecimentos
Diluídos no espaço e no tempo
E o pouco que consigo recolher
Vem brotando dos meus entendimentos.
Escapando à forma do absoluto
Povoando o vácuo de minha visão,
Daquela incerteza de que estou certo.
Potência regendo este dinamismo
Do efeito que produz toda esta causa,
Do ser que acorda em mim quando adormeço.
IRA
Surgiu do leito do rio sem margens
Cantando a serenata do silêncio,
Do mar de desejos que a pele esconde,
Trazia sal no corpo inviolável.
Banhando-se no sol da estranha tarde
Cabelo aos pés mulher completamente,
Tatuou nas retinas dos meus olhos,
A forma perfeita da tez morena.
Com a lâmina dos raios penetrantes,
Arando fortemente as minhas carnes,
Espalhou sementes de dor e espanto.
Deixando-me abraçado à sua sombra,
Desceu no hálito da boca da argila
E, ali, adormeceu profundamente.
Sabe que eu não consigo evitar
Tudo que eu mais quero é ter você perto de mim
Sabe que eu não consigo até falar
Mas quem cria um início jamais encontra um fim
Pra nós dois
E ela me procura pra ser cura
No meio da noite escura, deitada na cama fria
Essa mina é só loucura, desconcerta minha estrutura
Vou te contar o que eu consumi
Até chegar aqui pra te dizer
Se eu te falar, cê deixa quieto, por favor
Eu pedi pro garçom uma dose de amor
Já ouvi seu trap
Mas nunca compara
Ela sabe que cê mente pelo olhar de prata
É meu bonde parasita na caça da plata
Com a corrente ouro,
Com a corrente lata
Eu tô querendo tudo porque, mano, vim do nada
Desculpa eu comentar
Que nunca segui sua visão
Previ que eu tava rico e não falhou a intuição
Só que eu não
Vô deixar eles perceber
Vou tomando tudo,
Pegar o malote e correr
Só que eu quero mais, eu corri demais
Isso é pouco pra mim, então faz assim
Quando a hora chegar, ela vai chegar
Não me fala nada, mano
Olha pro óclin, não olha pra mim
Não olha pra mim, olha pro óclin
Olha pro óclin, quer saber de mim
Não sabe de mim e nem vai saber
Tu vê tudo que quer saber
Tudo que quer, vai ter
Risco de vida, vida de risco
Risca do mapa pra quem te arrisca
Ainda vai sorrir quando eu for teu único motivo?
Ainda vai ouvir o que eu digo, mesmo quando eu só quiser falar de amor?
Ainda vai tentar me entender quando eu não fizer mais sentido?
E ficar comigo quando tiver visto o pior lado de quem eu sou?
Quando a nossa música tocar, tu ainda vai lembrar do ritmo?
Quando o mundo me machucar, tu ainda vai querer curar minha dor?
Tua voz e tua respiração são meus sons preferidos
Mas, quando eu esquecer de viver, teu olhar ainda vai me lembrar quem eu sou
Amor, quando o nosso vinho amargar ou perder o sabor
Quando a maquiagem borrar e as fotos perderem a cor
Tu ainda vai querer me aquecer quando não me restar nem calor?
Dias passam e nada muda
Digo que tô bem, mas preciso de ajuda
Nado contra a dor, mas me afogo na culpa
Vocês me ouvem, mas ninguém me escuta
