Coleção pessoal de pensador
Quando falamos das habilidades do futuro, uma das barreiras na periferia são os termos do empreendedorismo. Você fala em flexibilidade, proatividade, empatia. Já ouviu falar? São todas habilidades que todo mundo na periferia já tem de forma compulsória. Somos proativos porque temos que buscar oportunidades, uma mãe solteira é flexível por ter que cuidar da família e trabalhar. Mais criativo que periferia não existe, mas aí é chamado de gambiarra. Na verdade, é a inovação da quebrada, a inovação do improviso. Então, é preciso se preparar para o futuro. Eles já têm as qualidades e precisam estudar a técnica para entrar no mercado. Falta juntar o talento com o conhecimento técnico.
Só no dicionário que a palavra sucesso vem antes de trabalho. Empreender não é simples, mas é possível. Em qualquer área de atuação das nossas vidas, teremos desafios. No empreendedorismo não é diferente.
O imaginário brasileiro, pelo racismo, não concebe reconhecer que as mulheres negras são intelectuais.
Gosto de dizer ainda que a escrita é para mim o movimento de dança-canto que o meu corpo não executou, é a senha pela qual eu acesso o mundo.
Sou aceita, mas sou exceção que não é aceita como tal. Sou o ato político. Por exemplo, esses tempos fui a um almoço na Fazenda Boa Vista e uma senhora da elite começou a fazer as minhas tranças voarem. Imagina se eu chegasse naquele evento e começasse a mexer nos cabelos dela? Mas é que ela não sabia lidar com a minha diferença. Não percebe que, porque o corpo negro foi objetificado por séculos, ela está tocando meu corpo achando que pode. Mas não pode.
Eu acho muito interessante como o Brasil me deu um palco para falar deste assunto, como se eu fosse mais válida a falar sobre isso porque sou estrangeira e mulher negra da elite. É interessante ver isso porque vejo muito mais mulheres brasileiras militantes, ativistas, que são muito mais experts na causa negra do que eu, mas elas não estão presentes na mídia. Estão basicamente ausentes.
Agora, eu vejo que minha voz tem eco, mas eu fiquei quieta por 38 anos. Cada pessoa tem uma história para contar, um episódio de superação. É importante sonhar grande e ir atrás dos sonhos.
Quando tem um guarda me seguindo no supermercado do Pão de Açúcar, eu posso sentir o que é o racismo. Porque lá, não sou consulesa, sou uma mulher negra. Então eles me seguem pra ver se vou roubar alguma coisa.
As crianças negras de menos de cinco anos já veem a boneca branca como a linda e a boazinha e a boneca negra como a feia e má. Por quê? Eles nascem com ódio deles mesmos? Claro que não. A sociedade cria este ódio.
Do lado de dentro rainha sou eu
Mulher que ama e sabe dar adeus
Eu sei que tudo na vida acontece
Quem me conhece pode lhe dizer
Tudo eu espero e toda me entrego
Levanto até as paredes
De um barracão desabado
Mas Deus foi quem me fez nessa vida
E eu cumpro ordens de um bom destino
Se ele quiser, eu posso querer
Ela vai te seduzir, lhe tirar para dançar
Elevar a dimensões, vai mobilizar, fazer clarão
Tem vocação para misturar, força para transcender
É uma miragem fascinante
Dá asa a imaginação
É impetuosa em si
Desassossego
Molha feito calor do sol
Em mim
Mesmo assim o meu coração
Sem razão
Se deixa seduzir
E se entregar
Eu quero mais um amor real
E que seja em paz
Não fecha a conta
A cota é pouca
E o corte é fundo
E quem estanca
A chaga o choque
Do terceiro mundo?
De vez em quando
Um abre a boca
Sem ser oriundo
Para tomar pra si
O estandarte
Da beleza, a luta e o dom
Com um papo
Tão infundo
Por que tu me chama
Se não me conhece?
Sempre que algum contexto de racismo ou machismo me enfraquece, olho para dentro e vejo que tem algo muito mais brilhante e especial dentro de mim. Sou uma mulher com potência energética e acho que devo isso à minha ancestralidade, que é uma história de luta, mas nobre.
Não dá para falar em consciência humana enquanto pessoas negras não tiverem direitos iguais e sequer forem tratadas como humanas.
