Coleção pessoal de pensador

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Já quiseram me derrubar e olha nós aí
Forte e firme, salve a todos que fortaleceu
Onde nós passa, banguelo põe dentadura pra sorrir
Mas não me iludo com sorriso, eu sou mais eu

Trago no bolso uma grande vantagem
Inteligência é prata e o silêncio é ouro
E vale mais que qualquer nave na garagem

A vida corresponde, quem corre faz por onde
Não têm pessoas fortes com caminhos fáceis
Se persistência é meu nome, resiliência é o sobrenome
Se não der, firmão, eu vou tentar outra vez

E aí foi bica na canela do recalque
Se tentar bater de frente, se acostuma com nocaute
Tenta no segundo round, nóis sabe bem que é fraude
Só não vem de bolo podre que nóis chega e chuta o balde

OUTRA RAZÃO PARA EU NÃO TER UMA ARMA EM CASA

O cachorro do vizinho não vai parar de latir.
Ele está latindo o mesmo alto, rítmico latido
que late todas as vezes que eles saem de casa.
Eles devem ligá-lo na hora de sair.

O cachorro do vizinho não vai parar de latir.
Eu tranco todas as janelas da casa
e toco uma sinfonia de Beethoven no máximo
mas ainda posso ouví-lo abafado pela música,
latindo, latindo, latindo,

E agora posso vê-lo sentado na orquestra,
seu focinho confiantemente erguido como se Beethoven
tivesse incluído na partitura o cachorro latindo.

Quando o disco finalmente acaba ele continua latindo,
sentado ali na seção de oboés latindo,
seus olhos fixos no maestro que está
lhe regendo com a batuta

enquanto os demais músicos ouvem em respeitoso
silêncio o famoso solo de cachorro latindo,
aquele trecho infindável que primeiro consagrou
Beethoven como um gênio criativo.

INTRODUÇÃO À POESIA

Peço a eles que peguem um poema
e o segurem à luz
como um negativo colorido

ou que aproximem o ouvido contra sua colméia.

Digo jogue um rato dentro do poema
e observe-o procurar a saída,

ou caminhe na sala do poema
tocando as paredes à procura do interruptor.

Quero que eles esquiem
sobre as águas do poema
acenando para o nome do autor à margem.

Mas tudo o que querem
é amarrar o poema a uma cadeira
e torturá-lo até obter uma confissão.

Eles começam a bater nele com a mangueira
para descobrir o que ele realmente significa.

CONSTELAÇÕES


Sim, aquela ali é Orion,
os três orificios do cinto
nitidamente enfileirados para lá do horizonte.

E se te virares podes ver
Gémeos, muito nítida esta noite,
os gémeos com o olhar perdido no espaço como sempre.

Aquele grupo um pouco mais acima no céu
é Cassiopeia sentada na sua cadeira astral
se não estou em erro.

E mesmo acima de nossas cabeças,
não parece Virgínia Wolf
deslizando ao longo do Rio Ouse

na sua canoa insuflável?
Vês o sombreiro de aba larga e além,
a silhueta do remo, levantado, gotejando estrelas?

O meu livro de instruções de poesia,
comprado num quiosque junto ao rio,

contém várias regras
sobre o que evitar e o que seguir.

Mais de duas pessoas num poema
é uma multidão, eis uma.

Mencionar que roupa usas
enquanto escreves, é outra.

Evitar a palavra vórtice,
a palavra aveludado, e a palavra cigarra.

À falta de um final,
coloca umas galinhas castanhas em plena chuva.

Nunca admitas que reves.
E – mantém sempre o teu poema numa só estação.

Tento estar atento,
mas nestes últimos dias de verão

sempre que elevo os olhos da página
e vejo uma mancha queimada de folhas amarelas,

penso nos ventos glaciais
que brevemente me atravessarão o casaco.

Pergunto-me como te vais sentir
quando descobrires
que fui eu que escrevi isto em vez de ti,

que fui eu que me levantei cedo
para me sentar na cozinha
e mencionar com uma caneta

as janelas ensopadas pela chuva,
o papel de parede com heras,
o peixe-dourado circulando no aquário.

Vá lá, dá a volta,
morde o lábio e arranca a página,
mas, escuta - era só uma questão de tempo

até que um de nós casualmente
reparasse nas velas apagadas
no relógio murmurando na parede.

Para além disso, nada ocorreu nessa manhã –
uma canção na rádio,
um carro assobiando na estrada lá fora –

e eu simplesmente pensando
no saleiro e no pimenteiro
colocados lado a lado num mantel individual.

Perguntei-me se se haviam feito amigos
depois de todos estes anos
ou se ainda eram estranhos um para o outro

como tu e eu
que conseguimos ser conhecidos e desconhecidos
um para o outro ao mesmo tempo –

eu a esta mesa com uma fruteira de pêras,
tu encostado algures na entrada de uma casa
junto a umas hortênsias azuis lendo isto.

Ah, sim, ele a ama: tal como os ingleses amavam a Índia, a África e a Irlanda; o problema é o amor, as pessoas tratam muito mal seus amores.

Eles não podem escapar da própria história, assim como você não pode perder a sua sombra.

Você deve viver a vida com o pleno conhecimento de que suas ações permanecerão. Nós somos criaturas de consequências.

O tempo é o modo como você gasta seu amor.

A única razão pela qual escrevo é para não passar toda a minha vida sonâmbula.

A maior mentira já contada sobre o amor é que ele liberta você.

Você nunca é mais forte do que quando aterrissa do outro lado do desespero.

O diálogo concentra o significado; a conversa dilui.

As histórias são a conversão criativa da própria vida em uma experiência mais poderosa, mais clara e mais significativa. Elas são a moeda do contato humano.

A maioria das ações da vida está ao nosso alcance, mas as decisões exigem força de vontade.

Na vida, dois negativos não se tornam positivos. Negativos duplos se tornam positivos apenas na matemática e na lógica formal. Na vida, as coisas ficam cada vez piores e piores.