Coleção pessoal de pensador
A gente se acostuma com tudo, inclusive com a deserção daqueles a quem pensávamos estar ligados para sempre.
Aqueles que não se arriscaram, que não se entenderam harmoniosamente com sua natureza profunda, não são necessariamente medrosos. Talvez estejam perturbados, desorientados, perdidos como alguém se sente no meio de uma floresta muito vasta, muito densa ou muito escura.
Quis escrever só para contar que fui feliz nesses meses que passamos juntos, que nunca fui tão feliz, e que já sei que nunca mais serei tão feliz de novo.
Sei que gostaria que as coisas fossem diferentes, que eu dissesse palavras que lhe dessem segurança, mas não posso, e, de qualquer forma, nunca soube usar as palavras.
O amor só foi possível de acontecer porque ele me via não como quem eu era, mas como a pessoa que eu me tornaria.
Loucura de não poder demonstrar nossa felicidade. Uma palavra pobre, não é? Os outros têm esse direito e o exercem, não se privam dele. Isso os deixa ainda mais felizes, os enche de orgulho. Mas nós somos atrofiados, comprimidos, em nossa censura.
A espiritualidade é fundamental no processo teológico, porque é um estilo de vida e uma maneira de ser.
A mensagem cristã é como carne congelada. Ela está aí, mas não é possível comê-la. É preciso descongelá-la, isto é, situá-la na realidade atual.
Muro
E se um poema opaco feito muro
te fizer sonhar noites em claro?
E se justo o poema mais obscuro
te resplandecer mais que o mais claro?
Os juramentos que nós juramos
entrelaçados naquela cama
seriam traídos, se lembrados
hoje. Eram palavras aladas
e faladas não para ficar
mas, encantadas, voar.
O fim da vida
e não há, depois da morte,
mais nada.
Eis o que torna esta vida
sagrada
ela é tudo e o resto, nada.
As livrarias
Ia ao centro da cidade
e me achava em livrarias,
livros, páginas, Bagdad,
Londres, Rio, Alexandria:
Que cidade foi aquela
em que me sonhei perder
e antes disso acontecer
aconteceu-me perdê-la?
Canção do amor impossível
Como não te perderia
se te amei perdidamente
se em teus lábios eu sorvia
néctar quando sorrias
se quando estavas presente
era eu que não me achava
e quando tu não estavas
eu também ficava ausente
se eras minha fantasia
elevada à poesia
se nasceste em meu poente
como não te perderia
