Coleção pessoal de pensador

26141 - 26160 do total de 52278 pensamentos na coleção de pensador

⁠Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

⁠A dor que está sentindo e o luto… Acho que é só canalizar. Canalize e coloque na sua música. Porque é isso que um artista faz.

⁠Não consigo nem imaginar o que você está passando agora, mas seu talento, o motivo pelo qual ganhou esta oportunidade, ainda está aí. Não vai desaparecer. Continua dentro de você.

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

⁠não me importo que o vestido
suba com o vento
até certo centímetro da perna
lembro-te que já disseste todos os fins
das coisas
aceito até os pardais
que chocam em contramão com
Bóreas
aceno às mulheres
nas varandas
e digo-lhes:
prendam bem a roupa no arame
ladrões há muitos
o meu vestido é uma bandeira:
agita sem rasgar
sem fronteira sem hino
recorta os flancos e funde nos joelhos
uma profunda melodia:
o mar na areia
mas não sou cacique
e o vento não me fala
não há um gesto de tréguas
e ainda tento
ainda penso agarrá-lo entre os dedos
ainda o procuro na gota de silêncio maior
vento, vem
vento, fica
mas só o meu vestido se espanta
e dança
contra a minha vontade

⁠a minha avó repete:

o tempo cura a ferida
mas não cura a cicatriz

e nenhum outro poema
de nenhum outro poeta
me falou tão alto ao ouvido

⁠BIOGRAFIA EM VIDA

Se fossem regados
os meus canteiros
fariam brotar
flores de plástico.

⁠agora
compreendo melhor
as garras dos gatos:

também eu gostaria
de esconder
punhais
por baixo
de um corpo manso

⁠e se perguntarem por mim
diz-lhes que fui à minha procura.

⁠Escapa aquele que consegue ver
um ponto mais à frente.

Como se estando aqui,
Já estivesse além.

⁠Do cimo da árvore
vê como te perdem a pista.

Eles nunca olham para cima:
Esquecem que a quem escapa
É como se lhe nascessem asas.

⁠são precisos pelo menos dois
para que a solidão se instale.

nisso, a solidão é como um filho.

ele perguntou-me:
em que medida é que isso te
marcou?

eu perguntei-lhe:
como se mede uma raiz? ⁠

⁠não há solidão
comparável
à de vivermos longe de nós.

⁠a conveniência
de ser apenas alguém estranho
com ideias estranhas
já não é suficiente

e⁠ntão numa festa com uísque de graça
uma bonitinha de cabelo curto
chega bem perto de você
e diz que sente pena de você
diz que você está se tornando
tão patético quanto as personagens
que inventou

⁠no rosto imerso no espelho
a confirmação de que o meu superpoder
é colocar carroças na frente dos bois
tablado batendo o susto
no compro ouro corriqueiro
onde o ferro volta à carne
e no reflexo do caixa o olhar de máquina
jornada duma luz que não aceitei –
metragem cansaço inesperado
(razão preenchimento do odiar)
e uma voz na cópia me dizendo
nunca foste tu o salvador
desfazendo o refrão dos que lutam
e são imprescindíveis
as lágrimas da passeata
e invadido pela esperança que alastrei
sem encontrar a guerra santa
que havia dentro do poema e da canção
removo as verdades estampadas
nas camisetas
alinhavo o que se rasgou no heroísmo
admito que o tempo é maior (e dá repuxo)
que são intermináveis os sonhos
apesar da evasão que nasce deles
já atingido pela chance do amor
(jarro terrível)
falho escudo imprescindível

⁠Não faz nenhum sentido essa matemática
Bem mais que a teoria
Eu te quero na prática
Você é um cubo mágico que não tem fórmula
É meu romance trágico que não tem volta

⁠Números e amor têm muito em comum
Sei que ambos podem ser irracionais
Emoções irão fazer frações
Números irão fazer canções
E hoje eu vou tentar me elevar
Acima de todas as razões

⁠Teu corpo é uma equação
Que eu não tenho solução
Mas tudo o que eu quero
É me multiplicar com você