Coleção pessoal de pensador
Dizem que não há atalhos na vida e que nada é de graça. Mas o acordo que vou lhes oferecer é o mais próximo da liberdade que vocês chegarão.
Se as coisas supostamente estavam tão boas entre nós, por que eu sentia estar com o coração partido?
Eu não conseguia evitar. Não queria magoar Lee, mas sentia uma atração por Noah que não era simplesmente física…
As pessoas podem ser rasas e superficiais, mas de vez em quando são egoístas demais para reparar em você.
Sempre há alguém que vai ajudar você, seja no que for. Mesmo se você não quiser notar que essa pessoa está lá. Sempre há alguém que, mesmo que não entenda exatamente, estará lá por você. E você só tem que se deixar ajudar.
Quando as pessoas têm uma opinião sobre você, é muito difícil mudá-la. Elas já julgaram você, gostam de rotular e desejam que você permaneça com esse rótulo para sempre. Você foi alocada em um lugar na sociedade delas, e é aí que querem que você fique.
Sinto como se tivesse sendo jogada no meio do oceano, sem ninguém para me lançar uma boia salva-vidas.
(a dor nos traz anseios
tolos – como fazer a Terra
voltar meses, anos atrás, como fez
aquele herói extraterrestre
do filme e do álbum de figurinhas
que juntos colávamos
em muitas manhãs de domingo –
ou olhar uma estrela
e imaginar que você
dorme em algum lugar
ali por perto –
e nos dá a medida do tempo
e continuamos sem entender
medida alguma, aguardando
o barco retornar de Delfos
para que possamos, também,
nos despedir definitivamente
desse nosso
bosque liliputiano)
eu não entendia
& ela se mexia tanto ao meu lado
& aqueles bancos apertados
o ar condicionado gelando tudo
(os brincos dela, o meu humor)
mais de uma hora cruzando
ruas, avenidas, parágrafos –
o livro gritando alto
num mundo surdo
depois de arrumar-se
mais algumas dezenas de vezes
passou batom nos lábios
o sol já estava no meio do céu
quando ela se levantou
foi então que percebi que
três pequenos pássaros
voavam em suas costas
entre noites
melancólicas,
ruas sem saída,
dia após dia
cultivando a ferida
aberta,
custou-me,
nuvens
perdidas,
passeios
só,
suor a contragosto,
frio,
no fundo do poço,
raiva cobrindo
o corpo
todo,
contas a pagar,
falta de ar,
febre amarela,
febre do rato,
tifoide,
deixando de lado
o amor
(sopro
cosmo
humano)
disenteria,
erros calculados,
a poesia?
JUGULAR
o gato afia as espadas de samurai
em cada uma de suas patas
nada escapa de tal arte atroz:
da jugular da tarde
salta um sangue viscoso
para dentro da noite veloz
Às vezes me bate
a súbita vontade
de arrancar todas as roupas
com uma tesourinha
cirúrgica porque
eu preciso
andar sobre quatro patas
Um cavalo que sobe o rio
para testar
a tração das pernas
Diz a Constança
que escrever poesia tem
Que ter um clique
Uma coisa que não há quem me salve
Nada clica
pra mim
Você começa a bater os dentes
eu faço isso também
eu ranjo
o maxilar para frente e para trás
a noite inteira
eu leio um poema
eu me preocupo com seu dentes
com os sonhos inquietos
você respira
barulhos de sono
A luz apaga
Eu cheiro seu cabelo
e esfrego o nariz
e a boca
na sua testa
Eu leio um poema e você range os dentes
Eu vou te buscar com meu carro
Eu vou me inclinar para abrir a porta
pra você
por dentro
uma mão no volante
Meu cabelo vai me acompanhar
para abrir a porta pra você
Eu acho esse gesto
mais bonito
do que sair do carro
para abrir a porta do lado de fora
Daí um beijo, oi, você entra
E depois, eu, dando a volta
Um sorriso
depois do silêncio
de ter ficadosozinha no meu carro por um tempo
O tempo da minha volta ao meu lugar
Que meu corpo e meu carro
nasceram fechados
Abrindo por dentro
a inclinação
um braço no volante alavanca
o cabelo que cai por cima do ombro
que se esforça
a mão que encaixa na maçaneta
um anel pequeno
Lágrima
A cada hora
o frio
que o sangue leva ao coração
nos gela como o rio
do tempo aos derradeiros glaciares
quando a espuma dos mares
se transformar em pedra.
Ah no deserto
do próprio céu gelado
pudesses tu suster ao menos na descida
uma estrela qualquer
e ao seu calor fundir a neve que bastasse
à lágrima pedida
pela nossa morte.
Cantiga do Ódio
O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
