Coleção pessoal de pensador

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⁠Mesmo que minha própria escuridão estivesse sendo dissipada, havia outra sombra escura aparecendo nas proximidades.

⁠As pessoas vivem a vida pacificamente e buscam, nas acumulações de sua própria existência, ora sua própria liberdade e as obrigações do mundo, ora sua necessidade interior e a contingência do mundo; nos dois casos, a vida é generosamente provida de determinações variadas.

⁠A desordem do homem é sua inesgotável fonte de criação.

⁠É verdade que todos amamos o que podemos modelar; amamos a obra que sai de nossas mãos. Mas que amor, este! Assim que nos entregamos ao trabalho, sentimos de modo claro que já não amamos verdadeiramente o ser ou a coisa que se faz sob nossos olhos; através desse ser ou coisa, o que amamos é a ideia que nele introduzimos, isto é, o geral.

⁠Quando, por um gesto elementar de lucidez, o homem desperta da hipnose dos sentidos comuns que geralmente o manobram – no interesse, aliás, da espécie e da sociedade –, ele busca por todos os meios curar de sua amargura de ser uma simples existência individual sem nenhuma significação de ordem geral.

⁠Quando tivéssemos compreendido que a eternidade não é condição suficiente para realizar o ser (...), poderíamos enfim perguntar-nos se é de fato na consciência de sua natureza “perecível” (...) que se deve buscar a causa que faz do homem esse “animal doente” por excelência que nele já se reconheceu.

⁠A água simboliza toda a potencialidade – a fonte de toda existência possível.

⁠O homem toma consciência do sagrado porque ele se manifesta, se mostra, como algo completamente diferente do profano.

⁠Seria assustador pensar que, em todo o cosmos, que é tão harmonioso, completo e igualitário, apenas a vida humana acontece ao acaso, que só o destino do ser humano carece de significado.

⁠A luz não se origina da luz, e sim da escuridão.

⁠O caminho para a “sabedoria” ou para a “liberdade” é o caminho para o seu ser interior. Esta é a definição mais simples de metafísica.

⁠Entre Nós Até o Segredo

Entre nós até o segredo
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros – para todos –
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.

⁠Virginia

Ouse. Ande, ainda dá pé
apesar do corpo empedrado
infiel consigo mesmo
como todos são.
Caminhe para o fundo
e enfrente o arrependimento
pois já é insuportável
continuar assim pisando
no chão firme e frio.
Ouse e alguns dias depois
terá chegado na vazante
na foz sem vozes
livre da corrente – partida.

⁠Sem Endereço

Seus olhos não estão mais aqui.
De azul só ficou o céu
sem assinatura.
Não, não há nada, cadáver
neste apartamento cego
de seu olhar
que lembre o outro
onde você correu
desde a menina do princípio
até o precipício da mulher final.
Aqui não há nada, cadáver:
somente sua voz sozinha
e gravada – em off
que faz com que qualquer coisa
das que foram suas
ganhe corpo, sopro, retrato
enquanto escutamos
o repetido ataque de sua voz.

⁠Seu rosto
é um pedaço de música
muda
conforme o vento
mas eu o escuto
de longe, sem olvido
mesmo sem ver
e acompanho, de cor
o suspiro deste ah
mor rasgado.

⁠Escrevo
só
em último caso
ou como quem alcança
o último carro
como quem
por um triz
por um fio
não fica
no fim da linha
de uma estação sem flores
a ver navios.

⁠Fora um cachorro, um livro é o melhor amigo do homem. Dentro de um cachorro é muito escuro para ler.

⁠A cultura come a estratégia no café da manhã.

⁠Se a única ferramenta que você tem é um martelo, tudo começa a parecer com um prego.

Quando o único instrumento que você tem é um martelo, todo problema que aparece você trata como um prego.