Coleção pessoal de pensador
No fim, todos nós éramos apenas humanos. Embriagados pela ideia de que o amor, apenas o amor, poderia curar nossa fragilidade.
Diálogo entre uma mulher e um homem no metrô:
– Se eu fosse casada com você, colocaria veneno no seu café.
– Se eu fosse casado com você, eu o beberia.
– Se você fosse meu marido, eu envenenaria o seu chá.
– Se eu fosse o seu marido, eu tomaria esse chá.
Você sempre pode contar com os americanos para fazer a coisa certa – depois que eles tentaram todo o resto.
Os homens e as nações se comportam de forma inteligente depois de terem esgotado todas as outras alternativas.
Céu de confeiteiro
uma fatia de céu
é dada
nesta noite de maio
quinhão que cabe ao homem
que da janela espera
a urbe apita
e o calor
se faz bruma e precipício
uma fatia de céu
é dada
aos amantes da varanda
quinhão que cabe ao amor
em tempos de luas magras
Passeio pelas ruas do espinheiro
quero
pelos olhos da cidade
apreciar papoulas
abertas de par em par
para deleite dos cãezinhos
e colares de pérola de maiorca
(a pressa atropela a solidão do homem
que vende pipoca na esquina
o vento do carro
levanta a saia da moça lilás
para felicidade dos operários
já libertos do andaime
e da rigidez das horas)
quero
pelos olhos da cidade
sentir cheiro de pão e de fuligem
de brisa e de cimento
e testemunhar o preciso instante
em que o beija-flor afaga
a papoula aberta de par em par
Olhos de mar
a primeira vez que vi o mar
fiquei em desmantelo
as ondas iam e vinham
como vinha e ia o meu olhar
a primeira vez que vi o mar
fiquei em desmantelo
os olhos iam e vinham
como iam e vinham as ondas do mar
hoje não consigo apartar
gêmeos estes dois
teus olhos e o mar
esta poesia não te cortará
já nasceu partida
como choro de quem perdeu a mãe
existe o corte de outra faca
palavra
fina ferida fervente
ferinafacadorlírica
corte de rio cinza
cano cratera carvão
cão vidro pluma
a garrafa corta a água
gavião do mangue
toca de caranguejo
puçá de siris
tetéia de goiamuns
a adaga corta a veia
singra a solidão do branco
partidapalavraperdida
mas não se importe leitor
esta poesia corta apenas o papel
já nasceu partida
como a asa do albatroz.
