Coleção pessoal de pensador
Não procure agora pelas respostas que não podem ser dadas, porque ainda não poderia vivê-las. E trata-se aqui de viver tudo. Viva agora as dúvidas. Talvez aos poucos, em algum dia distante, sem perceber, vai acabar vivenciando as respostas.
Gostaria de lhe pedir do melhor modo que puder, meu caro senhor, que tenha paciência em relação a tudo o que ainda há de insolúvel em seu coração e que tente amar as próprias dúvidas como se fossem aposentos trancados ou como livros escritos em uma língua estrangeira.
Sinto que nenhum ser humano seria capaz de responder àqueles sentimentos e questões que possuem vida própria em suas profundezas; pois mesmo os melhores se equivocam nas palavras quando estas devem ter significados extremamente sutis e quase inexprimíveis.
Volte-se para si mesmo e examine as profundezas de onde brota a sua vida; é nessa fonte que encontrará a resposta para a questão sobre se realmente precisa criar.
Examine as razões que o impelem a escrever; observe se elas estendem raízes no ponto mais profundo de sua alma; confesse a si mesmo se acabaria morrendo caso fosse impedido de escrever. E sobretudo isto: pergunte-se no momento mais silencioso da noite: “Tenho necessidade de escrever?”.
Não sei nada sobre a minha obra. Só sei que a escrevi. Durante cinquenta anos pude escrever tudo o que queria escrever.
É o processo da vida que é tão complexo! Eu não saberia simplificar esse processo para ser mais compreensível, é o meu próprio processo dificultoso de existir que faz com que venha essa avalanche de palavras, umas assim barrocas demais, e que tudo seja misturado.
No mundo de hoje só um louco é que não pode pensar em utopias. Temos que desejar a utopia, sonhar com a utopia.
