Coleção pessoal de OgaihtSuil
Eu deixo a moralidade para putas e ladrões.
Ontem mesmo eu estava com a solidão, essa velha cafetina da alma, me levou ao quarto de uma meretriz. Não tinha dinheiro, mas paguei com um relógio que encontrei no próprio prostíbulo; o tempo ali não pertence a ninguém.
Deixo a moralidade para os alcoólatras e os viciados em jogos, que fazem sermões com o copo na mão e roletas no bolso. Eu, por mim, não gosto nem de álcool nem de jogos, então só jogo quando bebo, e só bebo quando me percebo vivo.
Deixo a moralidade para os que se afogam na em águas rasas.
Eu prefiro os pecados honestos, as mentiras sinceras e as verdades que se contam em um beijo na boca.
Assim como a chuva, tenho aprendido a cair, mas também a encontrar o caminho aos céus.
Assim como as nuvens, aprendi a resguardar meu sol, mas também a permitir-me brilhar.
Os socos que me foram acertados, descobri que não devem ser recitados; os olhos só refletem o que a alma os condenam a enxergar
e as raízes do homem já compuseram todos os finais dos livros que só leram pela metade.
Quando a necessidade de sobrevivência se locomove ao lado de escolhas, a decisão e o direito se rompem, restando apenas a morte e a vida.
Ao devorar o mundo, com todos os seus tons sutis e amargos,
o vazio permanecia teimoso
no coração daquele que jamais soube beber a vida
como se fosse um vinho quente e doce que alegrara a alma...
Do passado, guardarei apenas as saudades.
Do presente, o desejo.
E do futuro, a pressa dos sonhos.
Não sou aquele que ensina,
sou o que aprende.
Pois na ausência da luz,
é no menor clarão que encontro minha devoção,
e, quando o sol me envolve inteiro,
desprezo àquilo que um dia jurei amor eterno.
Se no mundo fossemos a nossa única companhia,
a jóia mais valiosa perderia o
brilho e valeria tanto
quanto um ínfimo grão de areia
esquecido na
palma da
mão.
Mas um único curto gesto de
voz
custaria mais do que toda
riqueza guardada
no cofre da
existência.
Aquele que amou a tristeza jamais sofreu um única noite, pois, ao conhecer as cores compreendemos os tons do mundo.
Quem amará as lacunas de um coração partido?
Quem amará as ações de um
arrependido?
Quem amará a covardia de um homem crescido?
Quem amará as fugas, as surras e os
delírios?
Quem permanecerá quando tu estiveres esvaído?
Realmente não há amor quando o mundo está perdido.
Quantos relógios teremos que quebrar para alcançarmos a eternidade?
A glória tem sido roubada por ponteiros.
Não há saída para quem nunca tentou
fugir
Não há conflito para quem nunca enfrentou uma guerra
E não há futuro para quem nunca esqueceu o passado.
A solidão é a companhia daqueles que aprenderam a se germinar.
A companhia é a solidão daqueles que aprenderam a se podar.
Para salvar quem eu amo, eu me entregaria ao inferno em troca de que aquela alma beijasse o céu. Mas jamais entregaria um único fio de cabelo da minha amada às brasas para que minha alma fosse salva.
A capacidade de racionalizar a dor a ponto de não senti-la não é uma demonstração de alta inteligência emocional, mas apenas um de seus aspectos. Inteligência emocional também é permitir-se sentir, seja a tristeza, seja a felicidade.
Racionalizar um sentimento é como correr para um abrigo em um dia de chuva: em algum momento, você terá que se molhar.
A racionalidade nasce da introspecção; a introspecção, da dor. Não há guerra sem cicatrizes. Quem se aventura pelos mares da própria consciência corre o risco de naufragar no próprio ego.
Sobreviver, minha doce criança, é assassinar sonhos,
enquanto o tempo embaralha o destino com os tentáculos amargos do acaso,
as cores percorrem o mundo e são capturadas pelo
cansaço.
Restando, então, telas em preto e
branco,
não para serem coloridas, mas para esquecermos que
um dia já existiram tons azuis em
nossos
céus.
