Coleção pessoal de northon_salomao
Você deve ter sido feliz,
não como quem celebra,
mas como quem consente.
Eu penso nisso quando te lembro
não como ausência,
mas como um ponto exato
em que o mundo, por um instante, não me contrariava.
Houve um tempo em que eu não disputava com o real,
em que te amar não era um excesso,
nem um desvio da ordem das coisas,
mas parte dela.
Você estava ali —
com aquela forma silenciosa de me amar
que não prometia o impossível,
mas entregava o inteiro.
E eu, pela primeira vez,
não quis mais do que aquilo.
Ali, havia medida.
Nada em nós precisava durar para ser verdadeiro.
Nada precisava resistir ao tempo
para justificar ter existido.
Mas então você partiu.
E eu digo isso agora sem acusação,
como quem finalmente compreende
que certas escolhas não são contra alguém,
mas a favor de algo que não pode ser ignorado.
Sua carreira —
esse chamado rigoroso que te atravessava
com mais autoridade do que qualquer promessa —
não foi uma ruptura,
foi um destino.
E eu vi, ainda que tarde,
que te amar bem
talvez exigisse exatamente isso:
não te impedir de ir.
Houve um momento em que eu quis resistir,
em que confundi perda com injustiça,
em que achei que o mundo me devia
a permanência do que me fez inteiro.
Mas o mundo não deve.
Ele apenas é.
E você também foi —
inteira demais para ficar
quando ficar significava trair a si mesma.
Hoje, quando penso em você,
não é a falta que me atravessa primeiro,
mas a estranha serenidade
de ter vivido algo que não precisava continuar
para ter sido pleno.
Você não ficou.
Mas não desfez o que fomos.
Há em mim ainda
um vestígio daquela lucidez breve
em que amar não era possuir,
mas aceitar até o fim —
inclusive o fim.
Você deve ter sido feliz também,
eu gosto de acreditar nisso,
não apesar de ter ido,
mas justamente porque foi.
E se há alguma justiça silenciosa nisso tudo,
talvez seja esta:
em algum ponto do tempo,
sem excessos, sem ilusões, sem dívida,
nós estivemos em acordo com o mundo.
E isso — agora eu sei —
era o máximo que se podia ter.
Algumas vezes, ele aparece. Não é anunciado, não pede licença. Surge em tardes frias, em noites sombrias, silencioso, mas com a intensidade de um grito interno. Eu o chamo de O Vazio.
Sentir O Vazio é sentir a morte por dentro — mas não aquela morte física, simples e final. É uma morte diferente, mais sutil, mais antiga, que insiste em me lembrar de algo que eu já fui, de algo que já senti em outros lugares e tempos. É como se minha existência, fragmentada e atravessada por cicatrizes antigas, estivesse sendo revisitadas por sombras que o presente não consegue alcançar.
Quando O Vazio chega, não estou no tempo. Estou fora dele. Não é uma sensação que se possa controlar, ou mesmo compreender completamente. Ele se apresenta segundo suas próprias regras, segundo sua própria vontade. E, quando vem, parece sussurrar que meus passados — não apenas o imediato, mas todos os que deixaram marcas — têm algo a me dizer.
São cicatrizes que ainda latejam. Memórias que não pertencem mais a este instante, mas continuam a pulsar no corpo da alma. Não é daqui. O Vazio me remete a algo distante, quase irreal, perdido no tempo e no espaço, mas que insiste em permanecer. É a prova de que a experiência humana não é linear, e que o que fomos, mesmo quando esquecido, ainda vive dentro de nós, às vezes em silêncio, às vezes com a força de um choque inesperado.
Talvez O Vazio seja um portal para o que ainda não compreendemos de nós mesmos. Talvez seja um aviso, um chamado ou apenas a lembrança de que a alma carrega impressões de lugares e tempos que o corpo jamais atravessará novamente.
No encontro com O Vazio, aprendemos algo essencial: que a vida não se mede apenas pelo que fazemos ou sentimos agora, mas também pelo eco das feridas antigas, pelo rastro dos nossos passados que insistem em conversar conosco.
E, quando ele parte, resta a consciência de que fomos visitados por algo maior do que a dor momentânea: fomos confrontados com a própria eternidade da memória, com o peso do que já fomos e, de certo modo, com a promessa de que ainda somos.
