Coleção pessoal de NandaaGoncalves

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⁠De Relance

Ele ouviu minha voz
e virou para olhar —
como quem sente o vento
e precisa confirmar.

Mas eu, com o coração em tumulto,
fingindo calma, segui o culto
do silêncio e da distração,
com os olhos presos na contramão.

O vi de relance, só por um fio,
como quem toca a borda do frio.
Fingi que não vi, que não doeu,
mas cada passo longe era só meu.

O tempo parou naquele segundo,
tão breve e mudo quanto o mundo.
Ele me olhou com alma e sede,
e eu... fugi dentro da própria rede.

Talvez por orgulho, talvez por medo,
talvez por tudo que ficou em segredo.
Mas meu coração — esse, sem fingir —
ainda queria apenas... o teu sorrir.

Te Vi, Mas Não Te Vi

Hoje eu te vi...
mas desviei os olhos, fingi que não.
O coração tropeçou no peito,
mas meus passos seguiram em vão.

Senti algo — talvez lembrança,
talvez um eco, talvez saudade.
Mas disfarcei com tanta pressa
que quase acreditei na falsidade.

Fingi que era nada, que não mexeu,
que teu perfume não me envolveu.
Mas havia um nó preso na garganta,
um silêncio gritando que ainda me encanta.

Te vi com o mundo, e fiquei comigo,
vesti o orgulho como abrigo.
Mas por dentro...
era só o caos calado de quem ainda sente.



Beijo no Píer

A noite vestia silêncio e brisa,
o píer rangia sob os pés calados,
dois jovens — coração na beira —
com os olhos tímidos, entrelaçados.

O frio bordava os casacos fechados,
mas entre eles algo ardia,
um sopro quente entre as palavras,
um fio tenso de poesia.

A lua, curiosa entre as nuvens,
espreguiçava um brilho sobre o mar,
testemunha pálida e discreta
de um momento prestes a se eternizar.

Nenhum som além das ondas,
nenhum gesto além do olhar,
e então, um passo — meio incerto —
até os lábios se encontrar.

Foi breve, foi puro, foi novo,
foi tudo o que o mundo não via.
Um beijo, num píer, numa noite,
em que até o frio parecia poesia.

Páscoa em Silêncio

As flores renascem, a mesa se enfeita,
mas há um vazio entre os talheres.
A cadeira vazia diz mais que mil palavras,
emudecendo os risos que já foram plenos.

A Páscoa chega com promessas de vida,
de recomeços, de fé restaurada.
Mas dentro do peito, uma cruz invisível
carrega lembranças mal cicatrizadas.

O som das crianças, tão doce, tão leve,
não alcança o canto onde a saudade mora.
E os sinos, que tocam chamando alegria,
ressoam em ecos de quem foi embora.

O coelho não veio, o ovo não importa,
se a ausência aperta feito espinho.
A ressurreição é para os fortes — ou santos —
eu apenas caminho, sozinho.

Mas ainda assim, entre sombras e dores,
uma vela insiste em não apagar.
Talvez Páscoa seja isso, no fundo:
esperar a vida… mesmo sem enxergar.


Espelho de Culpa

Ele sorri diante do espelho,
não pra se ver, mas pra se vangloriar.
Se algo quebra, ele aponta o dedo:
"Foi você quem fez tudo desmoronar."

Finge afeto com palavras doces,
mas por trás, só quer dominar.
Cada lágrima que ela verte
é motivo pra ele se justificar.

"Você que é sensível demais",
ele diz, com voz de professor.
Mas é ele quem joga com a mente,
quem planta o caos e finge amor.

Torce a verdade até ela ceder,
inventa um drama pra se proteger.
E se ela grita, ele se cala,
fazendo o mundo nela não crer.

Ela carrega culpas que não são suas,
vestida de desculpas que ele costurou.
Mas um dia, o espelho dele trinca
e ela, enfim, se libertou.

Chuva em Paranaguá

Cai a chuva sobre os telhados antigos,
molhando histórias que o tempo guardou.
Paranaguá veste seu cinza mais belo,
como quem chora, mas não se apagou.

O cais repousa em silêncios molhados,
barcos dançam ao som do trovão.
Nas calçadas, passos apressados,
corações lentos em contemplação.

As ruas refletem faróis e saudades,
espelhos d’água de um tempo que foi.
O cheiro da terra se mistura à brisa,
e cada gota parece dizer: “depois”.

Depois da pressa, vem a lembrança.
Depois do adeus, a vontade de ficar.
Na chuva mansa de Paranaguá,
há uma paz que sabe esperar.

Quase Nós

Éramos dois rios que queriam o mar,
mas corriam por margens opostas.
Dois tempos que nunca se encontram,
duas almas quase dispostas.

Nos olhos, havia promessa.
Nos gestos, carinho e abrigo.
Mas o mundo — cruel em seus mapas —
não traçou o mesmo caminho.

Faltou tempo, sobrou sentimento.
Faltou coragem, restou lembrança.
Vivemos no eterno “e se...?”,
no espaço entre o medo e a esperança.

Não foi falta de amor, eu juro.
Foi excesso de mundo, talvez.
Fomos poesia sem rima no fim,
história que o destino desfez.

E mesmo longe, ainda sinto
teu nome sussurrar no ar.
Fomos quase. Quase tudo.
Mas o quase não sabe ficar.

Cansaço Invisível

Carrego um peso que ninguém vê,
um nevoeiro denso dentro da mente,
um grito calado que não se desfaz,
ecoando em silêncio, eternamente.

Pensamentos correm, não sei pra onde,
me perco entre eles, sem direção.
O corpo presente, o espírito ausente,
a alma em queda, sem explicação.

Sorrisos ensaiados, olhos cansados,
respostas automáticas, gestos vazios.
Acordo cansado, durmo inquieto,
num ciclo sem pausa, frio e sombrio.

Queria um descanso que fosse profundo,
não só do corpo, mas do mundo em mim.
Um colo, um tempo, um recomeço,
onde eu me encontre — e diga: "enfim".

"⁠Primavera em Verso"

Desperta a terra em doce alarde,
com flores dançando em tom suave,
o vento canta, a vida arde
num verso leve que não se acabe.

Borboletas traçam no ar
desenhos livres de esperança,
o sol sorri só de espiar
o renascer da temperança.

Os campos vestem-se de cor,
os ramos brotam sonhos novos,
o tempo abranda sua dor
e pinta o céu com traços roxos.

Primavera, estação do peito,
onde tudo encontra jeito
de florescer sem ter receio —
até o amor, num simples beijo.

"Quando a Chuva Fala"

Cai a chuva, em verso manso,
como quem canta um velho canto,
que embala a terra em doce transe
e lava o tempo do seu pranto.

O som que faz é quase abraço,
um sussurrar de acalentar,
batendo leve no telhado,
como se a vida fosse ninar.

E o cheiro... ah, o cheiro vem
como lembrança de outro dia,
de pés descalços na infância
e alma limpa de poesia.

Cheiro de chão, de folha e vento,
de coisas simples, sem demora,
de tudo aquilo que é eterno
e cabe inteiro numa hora.

A chuva chega sem pedir,
mas deixa tudo mais bonito.
O som, o cheiro, o existir —
num instante infinito.