Coleção pessoal de monalisa_1
Quando eu fui privada de liberdade, por uma condição clínica psiquiátrica, eu percebi rapidamente a lógica da instituição: "Salve-se quem puder". E comecei a travessia, não bonita como em uma obra de Guimarães Rosa, mas atravessada pela dor e violência simbólica contínua. Eu percebi que a minha existência incomodava e tentei me fazer invisível o máximo que pude. Percebi que era proibido ter insônia e me mantinha acordada deitada na cama, ainda que meu ser pedisse circulação. Recusar um cigarro? Proibido. A recusa poderia resultar em agressão física. E eu perguntava a Deus, por que eu não podia olhar o céu, porque havia um muro alto com arame farpado e seguranças na porta. E chorei, não como que derruba lágrimas, foi um choro interno, que inundou minha alma. Eu estava sozinha em um lugar onde o terror era naturalizado. O meu silêncio profundo foi patologizado. Ela não melhorou. E eu segui me desviando da violência, sem palavras, sem chão, sem aplausos. Recusei a comida, como quem recusa a vida. E engolia os remédios com pressa, para não ser repreendida. Minha alma chorava e não havia céu no horizonte, apenas pessoas brutalizadas, que confundiam o meu silêncio com apatia. E o meu olhar era quase uma oração: "Senhor Deus que eu creio, livrai-me desse destino". E a oração se seguia de um desespero catatônico. Nesse lugar, de que me serviam os livro que eu li? Ali eu era um número, conveniente o suficiente para me calar. Muito mais eu poderia dizer desse lugar e de mim. Mas deixo o passado e suas sombras. Estou na minha casa em silêncio e grande vitória é a chave da porta. Quem nunca passou por uma internação agressiva, talvez nunca entenda minha palavras, e nunca saibam que a palavra 'Liberdade' é sagrada. E diz tudo aquilo que o sistema cala. Sobrevivi, inteira o suficiente para narrar minhas memórias. E sei com clareza absurda a hierarquia das nessecidades humanas. E o amor romântico não entra nessa equação. É um luxo facilmente descartável. E a saúde e a dignidade são absolutamente inegociáveis. Sigo firme e forte, o que não me mata, aumenta minha Lucidez.
Acordo. Não levanto. Prolongo o momento de despertar como quem escreve sem querer chegar ao final. O telefone toca. É minha irmã, lembrando-me de tomar os meus remédios. Sou obrigada a levantar para celebrar a rotina diária de quem tem uma doença crônica. Mas isso não importa mais. A doença virou cotidiano abstrato. Hoje acordei me sentindo melhor do ontem, o que me apraz. Véspera de Natal e troco comemorações por um silêncio que não me incomoda no momento. Eu observo os quadros que eu pintei. E me agrada o que vejo. Bom sinal. Hoje não quis rasgar os livros, pelo contrário, tirei alguns minutos para organizá-los na estante. E se ontem blasfemei, hoje fiz uma canção de fé. Deus se misericordioso é, perdoa minhas oscilações de humor. Deus não precisa de mim. Eu preciso de Deus. Preciso que cada poro do meu corpo respire a presença divina, para me colocar de pé e caminhar meu passo exato. Se ontem me fartei de ironia, hoje acho uma forma de expressão pueril. Sim, estou séria e não me cabe brincar com as palavras, nem querer profanar o sagrado. Se profano o sagrado, profano a mim mesma. E hoje será noite de Natal. A Bíblia está aberta em cima da mesa e lerei, não porque é Natal, mas porque busco a fé que me falta. Estou cansada de escrever o grotesco, negando minha própria natureza, que é farta de afetos, ainda que solitários. Hoje o maior dos homens será homenageado. Jesus, grande pacificador, e eu, centelha do seu amor.
Na lateral da poltrona, onde descanso meu corpo da existência, está a porta do banheiro, onde muito bem centralizado há um quadro. Uma onça expressiva, com olhar vibrante, onde o amarelo envelhecido contrasta com o fundo preto. Olho para a onça e a onça me olha, sem sabermos quem será o predador da vez. Em frente da poltrona há outro quadro. Uma releitura mal feita de uma pintura de Monet. Há no campo de visão uma mesa, onde repousam três livros, que me lembram que eu deixei a leitura pela metade. O porcelanato brilhante no chão constrata com os móveis baratos do quarto. Do outro lado da poltrona há uma cama, que me lembra que eu tenho dormido demais. A casa está muito limpa, contrastando com o fato de eu não ter tomado banho hoje. Intervalo meu tempo entre momentos de um tédio sufocante e pequenos entusiasmos, que encontro em atividades banais. A mente está mais tranquila, após a catarse de escrever um texto grotesco, que assustaria quem me vê assim tão dócil. A televisão está ligada com o som no silencioso, e em um olhar rápido vejo o Roberto Carlos, pois é véspera de Natal. Embaixo do apartamento, há uma casa de festas e sou obrigada a ouvir "Parabéns pra você" todos os dias. As noites passo insone, já que tenho trocado o dia pela noite. Apesar de tudo me sinto feliz, pois estou presa em minha casa, mas tenho a chave da porta, e pra rimar, é isso que importa. A Bíblia em cima da mesa me lembra minha falta de fé, apesar de buscá-la bastante, lendo em aramaico, idioma que desconheço. Por uma velha submissão, peço perdão pelo texto anterior, em que escancaro a podridão humana. Eu não precisava ter sido tão literal assim. Mas fui. É véspera de Natal e eu peço a Deus que perdoe meus pecados e meu cinismo. E que um dia eu encontre Jesus.
Eu caminho por uma rua com forte odor de urina, como se aquela passagem fosse um verdadeiro banheiro a céu aberto, com vasos sem dar descarga. Prendo a respiração e meus olhos miram paredes pichadas, que paradoxalmente harmonizam com as velhas casas destelhadas, lembrando que ali morava o abandono do que um dia foi lar. Uma vertigem me sobressai e tenho ânsias de vômito. Até que finalmente acordei, e as paredes do meu quarto tinham cheiro de tédio, de tal forma que a rua com odor de urina, soava até agradável em sua decrepitude. Levantei a contra gosto e tomei um copo de coca-cola, porque me sentia incapaz de fazer um café. Fechei os olhos e respirei profundamente, e já não sabia se estava na rua decadente ou no meu apartamento frio, com o porcelanato impecável. Acendi um cigarro de forma tão automática, que era como se eu respirasse fumaça. Nas redes sociais desejei "bom dia", enquanto pensava que de bom não tinha nada. Sentia meu corpo denso como um elefante, e meus braços pesavam como se carregassem uma carga de cem quilos. Olhei para a janela e pensei: "Quem me salvará de mim mesma?" Em seguida olhei os livros na estante como quem olha para copos sujos na pia. As panelas de comida requentada cheiravam a morfo. E eu simplesmente não ligava. Minha solidão era refúgio. Eu não precisava abrir a boca para articular palavras. Sentei na beira da cama e permaneci inerte por longos minutos. O telefone tocou. Era engano. Deitei novamente na cama e sonhei com aquela rua mais uma vez. Eu pintava as paredes sujas das casas como se tomasse banho e o cheiro de urina da rua me fez urinar na cama. "Quanta decadência", pensei. E me pus a escrever essas palavras como cenas da minha alma exposta ao leitor. E fiz esse texto, não porque fosse necessário nem bonito, mas simplesmente porque precisava preencher a mente com algo que não fosse belo, já que o belo aumentava o meu tédio. Peguei um livro e comecei a rasgar as folhas, pelo simples prazer da destruição. Voltei às redes sociais e escrevi "boa tarde", pelo prazer da ironia. E quem me visse assim, talvez fugisse, ou talvez se uniria a mim para demolir as paredes, não sem antes quebrar o espelho e beber um copo de caco de vidro. Bendito seja aquele que acorda de bom humor.
Eu penso na vida e a vida pensa em mim, como um fogo que acende e mantém a chama. A vida o que é, senão dias que se repetem? Acontecimentos triviais, alegrias e tristezas. E sem saber o porquê estou eu aqui caminhando nesse solo, que é o solo de todos. O que sou? Uma causalidade biológica? O encontro fugidio de dois corpos? E eu me prosto a Deus, sabendo que minha fé é tão pequena, que precisa de livros que a traduzam. Eu admito ser menor do que mim mesma. Um corpo robusto e uma mente famigerada de perguntas. Livros e mais livros. E se leio é mais por vaidade do que interesse genuíno. Quem ousaria expor assim sua própria fraqueza? Educada sim, eu sou. Mas é uma educação polida, construída socialmente. Eu te trato bem, porque é bonito para mim. E então a vaidade novamente fala por mim. Não nego que tenho afeto genuíno, por pessoas que cabem nos dedos de uma mão. Os demais são uma massa amorfa que aumentam as filas no supermercado. Não sou rica, mas também não sou pobre. Mas sou pobre o suficiente para me achar rica. Eu me isolo, para as pessoas se culparem por ter me abandonado. Sim, atrás da minha voz doce há crueldade inimaginável. E o grande paradoxo: eu sou mesquinha, vaidosa e egoísta. Mas escolho a gentileza como filosofia de vida. Eu posso ser má, mas eu escolhi a bondade para viver nesse mundo. Sou porto seguro e um ombro amigo e sincero para todos os momentos. Eis a minha humanidade."
O silêncio é um espelho partido que indica um sinal de que a auto imagem se quebrou. Indica uma ruptura na psique análoga à dor do luto, em que jamais voltaremos a ser a mesma pessoa. A pessoa ausente sempre estará presente de alguma forma. Será sempre parte de nossa imagem.A verdade mente para poder ser ouvida porque a justiça humana é falha, como uma vidente com a bola de cristal quebrada. Para sempre fragmento. O nunca será jamais.O elo oculto entre um rio e uma carta não enviada se estabelece com um passado que nunca voltará, pois o rio segue sempre em frente e uma carta não enviada não mudará o destino das coisas feitas como um sonho esquecido que vai morar para sempre em nosso inconsciente.Morreria jovem a pretensão e viveria para sempre a justiça, que não pode ser ocultada por muito tempo.O amor adoece como uma perda por toda eternidade.
A mente humana tem cheiro de uma flor que desabrocha ao meio dia.A palavra é invisível, mas pesa na boca. O cansaço é mudo, mas tem eco no corpo. Uma sentença é uma verdade questionável.O começo de tudo vem com uma explosão e acaba com o silêncio absoluto.Quem coleciona espelhos não confia em nenhum deles.
O silêncio é um espelho partido que indica um sinal de que a autoimagem se quebrou. Indica uma ruptura na psique análoga à dor do luto, em que jamais voltaremos a ser a mesma pessoa. A pessoa ausente sempre estará presente de alguma forma. Será sempre parte de nossa imagem. A verdade mente para poder ser ouvida porque a justiça humana é falha, como uma vidente com a bola de cristal quebrada. Para sempre fragmento. O nunca será jamais. O elo oculto entre um rio e uma carta não enviada se estabelece com um passado que nunca voltará, pois o rio segue sempre em frente e uma carta não enviada não mudará o destino das coisas feitas como um sonho esquecido que vai morar para sempre em nosso inconsciente.Morreria jovem a pretensão e viveria para sempre a justiça, que não pode ser ocultada por muito tempo. O amor adoece como uma perda por toda eternidade.
A mente humana tem cheiro de uma flor que desabrocha ao meio-dia. A palavra é invisível, mas pesa na boca. O cansaço é mudo, mas tem eco no corpo. Uma sentença é uma verdade questionável. O começo de tudo vem com uma explosão e acaba com o silêncio absoluto. Quem coleciona espelhos não confia em nenhum deles.
O silêncio num mundo sem som seria descrito como um sapo com cor verde vibrante e que produz uma droga chamada vacina do sapo, que causa delírios e alucinações.
Um rio correndo para o céu levaria consigo as margens que o contêm e chegaria até a lua para que um dia ela seja habitada.
Carta da solidão ao tempo:
"Prezado tempo, tu me fizestes sentimento e me abandonastes desolada para sempre de minha origem."
Um livro que apaga palavras do mundo seria um livro feito de átomos quânticos, em que todas as realidades são possíveis, como o pensamento puro é água cristalina.
O amor é a ausência da solitude. É um não se bastar projetado no outro. É um lírio sozinho entre margaridas à beira de um lago.
Se a morte fosse como uma estação de trem invisível, estariam esperando na estação todos os que creem, porque morrer é viver para a vida eterna.
A música de uma árvore durante um eclipse seria uma árvore confusa observando o eclipse do meio dia, ao som de uma sonata.
A esperança é o último jasmim que sobrou.
A sensação de tocar um sonho esquecido é tocar no impalpável ao som de uma melodia inaudível, como um mar dominado pelos peixes.
O silêncio encarnado pode ser todos os sons que podem ser ouvidos, como um mar esverdeado refletindo uma luz alaranjada, com o som da suavidade.
Uma casa feita de ausências. Sua estrutura seria feita de silêncio e palavras não ditas.
Um relogio que demole o futuro está parado no passado, estrangulando o futuro e perdido do agora. Precisa de cuidados, dos futuros abortados, talvez alguns seriam preciosos.
A saudade circula em duas existencias. É abstrata. Circula entre corações e o universo. Tem sempre som de dor, daquilo que poderia ter sido e não foi, como uma flor açucena que morre antes de nascer.
O som de uma casa que nunca existiu tem som do momento que antecede uma demolição. Cheiro de passado desconstruído, perdido em pedras e poeiras.
Um homem que morreu e virou estrela em outra constelação vira saudade primordial.
Frases escritas por dois seres que não existem, mas se amam:Eu te amo com os olhos fechados ete enxergo em meus sonhos, onde te faço realidade em minha transcendência.
Um fastasma que não acredita na morte fala: Eis que venho para ficar, com a passagem só de vinda e a eternidade será minha velha companheira.
Uma estrela feita de silencio coincide com a explosão de uma estrela abundante de palavras. Vivem momentos existenciais opostos.
O último eco antes do silêncio comer a si mesmo seria o som de um grilo, suave, natural, como quem ignora a linguagem.
Um espelho sonha que é agua. Quando acorda está inundado de peixes.
A cor do tempo é transparente e impede que o tempo conte mentira, limitando seu alcance sem precisar sangrá-lo.
Se a lógica fosse uma escultura de vidro, permaneceria intacta, para além da impossibilidade de voar. Se suas asas é a razão, ela impera soberana.
Um livro que lê o leitor, descobre um homem falho, cuja limitação remete ao ventre de sua mãe e se prolonga no infinito. O livro choraria de
O infinito ferido é um vaso perfeitamente restaurado, que humano nenhum vê onde ele se cortou.
Um oráculo sem voz aponta as rachaduras na pedra, como quem alerta o homem de suas rachaduras humanas.
O silêncio rodeia o tempo, como quem se apropria de sua sombra. O silêncio tem fome do tempo, e o transpassa como quem implora por um minuto a mais.
O relâmpago para um estado de consciência é como um insight, uma ideia nova e original, que tem o poder de mudar o norte para o sul, o leste para o oeste.
Caminhar sobre a ausência é atravessar um deserto de silêncio e ouvir o eco das miragens. Caminhar sobre a ausência é atravessar a dor do vazio e ouvir o eco das palavras não ditas.
Ele me olhava e eu olhava para ele, como se fossemos espelhos um do outro. Um silêncio profundo refletia nossa conexão.
Cada cor tem um som. O amarelo tem o som de um girassol, o azul tem o som do céu e o verde tem o som das florestas.
Uma metáfora não existe no mundo físico.Mas é poesia latente.
A alma é uma grande rocha, densa, palpável, forte. De dentro da rocha nasce a linguagem.
Nos instantes não lembrados, mora uma lembrança, delicada.
A linguagem nasce do silêncio. Sendo o silêncio denso como pedra, a linguagem é quando o silêncio extravasa. A linguagem é leve e natural, mas tem em sua raiz uma densidade profunda.
O tempo seria uma mistura de homem e lula, cabeça de homem e tentáculos de lula. Ele é manso e em cada tentáculo mora uma
Dionisio era o símbolo da loucura. Andava pelas matas e era seguido por viageiros errantes, lobos e cães. Ele nasceu duas vezes, uma delas da coxa de seu pai.
A palavra Enquanto encarna o agora sem esgotar a linguagem e nem contê-la.
A ausência é o sal da vida, sua essência. A saudade é a expectativa do doce, quando ao paladar se apresenta o amargo. Ausência e saudade são faltas, que o ser humano suporta com resignação, de uma esperança que resultou inútil.
O tempo que não passa é uma fruta que não amadurece. É simbologia da estagnação, que leva à apatia e ao desespero. Todos os tempos fluem com a ação. A inação é a quebra da força vital.
Silêncio do cansaço é quando a retina se gasta com imagens que se repetem. O silêncio da contemplação é quando o silêncio pele um pouco de calma, para apreciar suas criações.
A memória é uma pulga que salta até quarenta vezes o seu tamanho. A memória é aquilo que ficou daquilo que passou. É um baú de lembranças que ao mesmo tempo alegra o coração ou o faz sangrar.
Lento é um nome poético para o vento, pois o vento é fluido e se vai de um canto a outro sem pressa. O vento calmo. Mas o vento pode ser potência destruidora, quando se embravece e brinca de arrancar casas e telhados.
Meu nome é solidão. Brinco com corações humanos, bombardeando-os de um silêncio absurdamente desconcertante. Meu objetivo é ver o homem se bastar.
O destino tem a cor dos meus olhos castanhos. Tem o amendoado dos meus olhos e me convida a rir ou chorar, no baile da sociedade ferida.
Se o amor fosse um labirinto seria o labirinto do Minotauro. O Minotauro encontraria-se em estado de paixão e seria incapaz de ferir até que a paixão passasse. Seguiria-se a realidade nua e bruta.
Ela nasceu nas fontes de água e morreu no deserto sem árvores. Ela era a antítese entre a abundância e a escassez. Renasceu como uma criança desconfiada, com a alegria do muito e o medo do nada.
Entre o céu e a terra havia um abismo que uma estrela cadente deveria atravessar, para o seu nascimento terreno. Era uma estrela em estado de epifania e nada podia temer. Era seu destino implacável.
Relâmpago é para tempestade assim como a epifania é para uma descoberta, que faz os olhos verem o invisível e os pés suspensos no chão.
A chama queima o escuro da noite e a faz um estado da natureza que dança entre opostos complementares.
Vazio é quando a festa acaba e seu vinho ainda está pela metade.
O tempo é um pressentimento, que é uma intuição, que é um estado inominável.
Ela fazia do silêncio um artesanato fluido que atravessava a alma como um bisturi afiado, que operava o excesso de vazio na alma cansada.
A porta estava trancada como um livro fechado. Todos os mistérios ocultos.
Um ser se cala ao ser nomeado, pois seu ego está paz. Ao ser esquecido, grita com sua necessidade de existir nas palavras.
A raiz da árvore sustenta o tronco. A raiz quadrada é incompreendida pelos próprios matemáticos poetas, que não enxergam números, mas metáforas. A raiz de uma palavra é sua essência que grita, dizendo que chegou primeiro.
A linguagem em determinado momento estagna. A poesia dá nova voz à linguagem, com suas criações originais. A linguagem é um cardume de pequenos peixinhos.
O tempo passa arrastado como minha dor que não encontra sentido em nossa sociedade. Minha dor é o líquido que sai da fruta, quando colhida antes do tempo.
Todos os pensamentos que penso são únicos. Alguns pensamentos que todo mundo pensa são únicos.
Espelho é para rosto assim como silêncio é para linguagem. O espelho espera o rosto para refletir. O silêncio espera a linguagem para se transmutar em palavra.
A árvore precisa de tempo para amadurecer. Seu crescimento encontra analogia com o relógio que mede o tempo. A árvore simbólica cresceu em trinta e três minutos, contados no relógio.
A luz era o eco brilhando. Seu brilho revelava uma ferida na alma que se esconde em pântanos escuros.
Solidão é sinônimo de ausência e vazio. Um retroalimenta o outro. Solidão é ser a única árvore do deserto.
Ontologicamente a verdade não pode ser a mentira. Onde mora a verdade, há ausência de mentira. Onde mora a mentira, há ausência de verdade, como o fruto que não cai longe do pé. Essa explicação racional é limitada como uma árvore que não produz frutos. Sua missão é ser flor.
Um espelho se quebra no escuro, apenas os átomos presenciaram o colapso. Simbologicamente, todo o universo é formado por átomos, que se reorganizam a cada desintegração.
Palavras são facas que cortam o silêncio de maneira irremediável. Textos são mísseis direcionados ao interlocutor.
O som de uma memória que nunca aconteceu se assemelha a gotas pingando de uma torneira que não existe.
Às vezes a alma se cansa e se aconchega em nosso colo, cujo único afago possível é o silêncio das palavras que nunca brotaram, mas escreveram um livro de memórias caladas.
Um relógio quebrado paralisa o tempo como o silêncio joga xadrez com as constelações.
Extacolia é um neologismo que mistura êxtase com melancolia. Ela se encontrava em um estado de extacolia e não sabia definir o que sentia.
O invisível tem o peso de uma pluma deslizando suavemente dos céus à terra, sem pressa de chegar, até porque ninguém veria.
No meio de uma casa abandonada havia um ninho de passarinho. Em vez de ovos, havia uma semente resistente, com sede de vida, que cresceria rompendo o telhado e se formaria como um imponente pinheiro. Todos os dias era Natal.
O inconsciente humano é um profundo oceano desconhecido, como a noite escura que absurda os corações aflitos, que não podem comer estrelas.
Se a linguagem fosse um corpo ela seria as mãos, esculpindo um ser humano capaz de pronunciar o silêncio das pessoas angustiadas com o grito histérico dos desesperados.
A linguagem é um elemento no limiar da transformação, deixando de ser quem é e se transmutando em outro elemento, o ouro. Quando um homem passa debaixo do arco-íris, ele vira mulher.
Eu peguei o eclipse e fiz dele um pincel. Todas as vezes que eu pinto, os quadros são escuros e solares. São um fenômeno da natureza cósmica transcendente.
Uma régua serve para medir. Um copo serve para beber água. O indizível serve para silenciar.
O tempo que não passa e não fica pode ser traduzido como o tédio, sentimento que descarta todas as possibilidades da criação. O tédio não passa nem fica, ele come as beiradas da lucidez, num grito rouco, sem forças para se comunicar.
A verdade é uma fruta aberta por um pássaro. Ele se torna dono de sua suculência.
O homem comia o fruto, e sua seiva era meliflua. O que era meliflua, o fruto ou o homem?
Um espelho que visse essência refletiria as grandes questões existenciais do ser humano: a angústia, a alegria, a pressa, a calma, a vida e a morte.
O tempo caiu no abismo, mas não morreu. O silêncio o sustentou em sua queda, para que o tempo não se extinguisse.
Só quem já se perdeu de si olha o mundo como exaurido, nada mais lhe pertence. Em seu descontrole perdeu a capacidade de lidar com a complexidade da vida. A dor do vazio se apresenta, mas se restaura ao ver um filho criado. Eu sou além de mim mesmo.
O tempo é um filtro que só deixa passar as palavras puras, próprias para consumo.
Memória é para o passado assim como a imaginação é para a alma viva das estações, dos momentos oníricos e da brutal realidade do ser.
Só quem convive com a solidão aprecia uma verdadeira companhia.
Angústia que nasce da beleza é como o filhote de pássaro, que nasce despejado, frágil e se transforma em um lindo flamingo rosa.
O pensamento criativo flerta com o infinito, mas não pode ultrapassar a atmosfera.
A escova de dente é como uma mãe lambendo o rosto de seu filhote — no caso, é a saúde bucal.
O vazio sobra
Aquilo que se fragmentou
O desejo alcança
O além da esperança.
Ela esperava o sol esfriar para aquecer o café. Esperar o sol esfriar é torná-lo sujeito onisciente, para o momento certo de aquecer o café — convite para que a comadre se aproxime e compartilhe esse momento.
Melflorar — mistura de mel e florescer. Quando o mel está no ponto de ser colhido e reiniciar o ciclo.
Impermanência é acompanhar o crescimento de um filho em todas as suas etapas.
A verdade para um ser feito de mentiras é um gato que nunca nasceu nem nunca morrerá.
Traaa e se quebrava o espelho do sonho.
O pensamento que o mundo não está pronto para ouvir nasce como um ovo no ninho de um animal mamífero.
O coração que ama o impossível é um homem grávido, enquanto sua mulher espera um filho.
O vazio que habita o ser humano é um balão preso na garganta.
O céu de quem perdeu toda a esperança é um universo colorido de estrelas que o homem não enxerga.
O nascimento ao contrário é um feto parindo sua mãe.
Antes de ser dita, a palavra precisa ser criada. As palavras nunca se repetem, elas são sempre um ser humano nascendo com suas únicas impressões digitais.
A dor que não cabe no corpo nem na linguagem é um pássaro que nunca pousa.
A dança de dois silêncios que se amam é a mãe olhando o filho pela primeira vez.
Sua alma calada é uma fruta de plástico.
O agora eterno era um relógio sem bateria.
O amor sem liberdade é um homem preso ao corpo.
Uma flor que nasce do silêncio era um gesto que só o tempo entendia.
A lucidez em demasia é a distorção da realidade em estado de insanidade.
Quando ninguém a observava ela ria com os ouvidos.
A cor da ausência é transparente e quando preenchida é um prisma de arco de íris.
A lágrima interna molha a alma.
Páaa é o som do impossível absurdo.
Se a linguagem evaporasse ela nascia de novo na chuva das palavras.
