Coleção pessoal de MoacirLuisAraldi

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Ao unir os seus pontos fracos formou um grande ponto. Seria este seu ponto forte?

Afoito
comia letrinhas
como se fossem biscoitos
oitos
tos
os
s.

Imaginação
Estrela sem constelação
Brilho dando norte
Luz marcante de neon
Pendurada sem suporte.

Muito além do humano alcance
Mitológica inspiração divina
Feito páginas de romance
Ou frescor jovial de menina.

Luz que não é lua
Com nada se parece
No céu da alma flutua
Com a força de uma prece.

Destemida enfrenta tudo
Deixa rastros de decorações
Trás gritos de voz dos mudos
Fértil ao extremo é nossa imaginação

Nem me (a)trevo,
Neste entrevero
De trevo a trevo,
Decisões,
Esquinas
Descidas
Atrevidas
E ao fim
Há (a) vida.

O que sou nunca deixarei de ser, mudar eu até mudo, mas só se for pra crescer.

A deriva...
O dia foi-se em chamas
Gordurosas...
Extintas a gás carbônico.

Entre sem relutar ó noite branca
Embalada pelos ponteiros lacônicos...
Implacáveis...
Devastadores.

A espuma no copo e nos lábios é
Mar recomeçando em mim.

A deriva...
Não valho nada.
Sou pobre,
Descrente, imperfeito, imundo.
Não vivo... Vago...
Vagabundo.

E tenho o agravante oceânico,
Incorrigível...
De crer em versos
Dominando o mundo.

Superlativo

Ainda farei um verso nobre,
Que seja leve como a folha outonal,
E saboroso como as frutas do quintal.

Que atropele do caminho a escuridão.
Que seja rápido como raio que se fez.

Que não tema a morte,
E que se acomode nos braços da vida e da paz.

Que seja superlativo como sonhos infantis,
E real como a geleia é.

Que seja a estrada da busca
E o melhor ancoradouro de destinos.

Que não tenha serventia se não puder ter,
Que não seja jardim nem rosas se não der pra ser,
Mas que contemple em cada um
O fascínio encantado de um novo amanhecer.

É recomendável ao poeta a tríplice cidadania:
Jus soli, jus mares e jus selenitas.

Falta-me a loucura
Não forço a fechadura
Tenho medo...
Falta-me a loucura
Falta-me o hábito.
Gosto da última olhada,
Do barulho da chuva
Na pré-partida.

Continuo pregado
Movimentos não me motivam.
Prevejo uma laguna enferrujando...
Sem merecer,
Sem glórias pra viver.

Nem um passo
Nem covardia.
Insano...
Medito já sem voz,
Onde encontrarei,
Neste mundo algoz,
Um poema pra morar?

Alguém sempre fica na estação e ao descer leva um verso nosso. Assim a poesia chamada vida vai perdendo a rima.

Partida

Preciso ir. Já escureceu.
Papai deve estar preocupado e
Mamãe angustiada.

Agora que tudo se inverteu
Tem noites que acordado
Sinto que a vida e danada
Sem eles, quem não dorme sou eu.

E salvando a poesia o mundo estará salvo. Largue as pedras, troque seu alvo por um poema de amor.

Madrugada
Passou pela meia noite,
duas meias noites
que semeias,
meias luas
luas e meias.
Pensamentos
fazem zunir as orelhas em
noites de contar ovelhas.
Enquanto o sereno
repousa sua leveza nas telhas.

Se saíres de mim onde passarás a noite?
Não se dorme em águas estranhas.
Mantenha a mala cheia de poeira
Deixe os perfumes na penteadeira
Desfrute a espuma densa na banheira,
Coloque o pé na agua morninha.
Acomode-se ao meu lado,
Lá fora só o vento escuro
Zunindo nas costas do muro.
Ao fundo o mar e sua selvagem maresia
Ouça a canção escolhida,
Sirva o champanhe da nostalgia
Alegre-se até clarear o dia.

Entre a vida e o litoral
Deve haver bem mais
Do que leveza, brisa, beleza,
Mistérios e mar.

A janela mostrava-me o mar.
E eu sentia a maresia,
Voar eu queria
Só arrisca quem sabe nadar.
Não nado,
Não tudo.
Neste meu minúsculo mundo,
A grandeza do oceano
É onde mergulho alguns planos,
Pra nada, nem pra nadar me serve o mar.

Se não vejo
Não aprecio, não torno real.
Se não vejo,
Fujo do verso,
Escondo-me.
Assim não vou ser lembrado,
Nem vou lembrar.
Se na vi, não vivi.
Portanto não existiu.
Só há vida no que se vê
Ainda que não se enxergue.

A ilha se movia
Alcança-la eu queria,
mas o navio se moveu
e minha fantasia desapareceu.
Afoguei-me no cais
Alto mar nunca mais.

Cronologia
Ainda carregas sonhos não vividos,
Já sem graça depois de tanto passado.
Profecias tão sérias que acreditavas
Agora desconsidera para não se ferir.
A rua da vida se tornou larga,
Lembrando dos sinais que passou no vermelho.
Uma foto irreconhecível,
Com pose de quem jurava que tornaria o mundo livre.
Quantas condenações que aos outros queria impor
Hoje silencia para se proteger.
Quantas palavras que pronunciavas
Entusiasmado já nem quer ouvir.
Quantas afirmações de eternidade
Que precoce se foram.
Quanta vida dita infinita
já findou.
Quantos rostos desejou beijar,
Tão poucos beijou.
Sorvetes e sorrisos no parque,
Só eram deliciosos por ter
uma mão segurando na sua.
Hoje os poemas de amor sem nenhuma arte
Estão em algum caderno esquecido no mundo.
Ninguém mais te reconhece.
Ficou no caminho a beleza que tinhas.
Pessoas que amavas desapareceram.
Divagas pensando e nem lembra mais,
Que valeu a pena,
Mesmo tendo ficado pra trás.

O dia tinha olhos de nunca mais
e nuances de caminhos escuros.
Ângulos desconhecidos
de um túnel sem fim.
contudo não dá pra fraquejar
nem fechar as portas do entendimento,
muito menos correr angustiado e vazio,
pois não se pode represar, na vida
o próprio rio.