Coleção pessoal de lirio_reluzente

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TRIBUTO AO OBSTINADO

“Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.” E talvez seja essa a mais dolorosa verdade que a morte nos entrega: a de que certos homens, quando partem, levam consigo um modo inteiro de existir no mundo.

Sousa Filho não morreu apenas como poeta. Morreu como morrem os raros: deixando o ar pesado de ausência. Há agora um silêncio sepulcral pousado sobre a escrivaninha, onde a caneta inerte parece esperar a mão que jamais regressará. Os papéis envelhecem devagar, como se também estivessem de luto. E as palavras, órfãs, procuram ainda o sopro daquele que lhes dava rumo. O poeta nos deixou. E no entanto, permanece.

Permanece nas letras da eternidade, porque há homens que escrevem não para o tempo, mas contra ele. A pluralidade de sua escrita era um espelho de muitas almas convivendo dentro de uma só. Em cada crônica, havia um país íntimo. Em cada verso, um homem atravessado pela memória coletiva do povo. Sousa Filho escrevia como quem acende lamparinas em corredores escuros da existência.

Os jornais O Piagui e A Voz do Igaraçu ainda guardam o eco de sua presença tipográfica, como velhas igrejas guardam o cheiro do incenso após a missa. No Almanaque da Parnaíba, seu nome tornou-se parte daquela arquitetura invisível construída por intelectuais que recusaram o esquecimento. E a Academia Viva talvez nunca tenha sido tão viva quanto agora, quando precisa sustentar, na ausência, a herança daqueles que fizeram da palavra uma forma de permanência.

Há escritores que publicam livros. Sousa Filho publicou permanências. Suas crônicas entre gerações não eram apenas textos: eram pontes. Faziam os velhos conversarem com os meninos; faziam o passado sentar-se à mesa do presente sem constrangimento. Havia nele essa estranha capacidade de transformar memória em alimento humano.

No Piauí Poético, sua voz não se limitava ao poema — era uma espécie de louvação contínua à cultura, à terra e às pequenas eternidades escondidas no cotidiano. Porque os verdadeiros poetas não escrevem somente sobre flores ou abismos: eles recolhem o invisível das coisas simples e devolvem ao mundo em estado de revelação.

Hoje, talvez ele seja um anjo sem asas, caminhando pelas avenidas silenciosas do infinito, carregando nos bolsos fragmentos de estrelas e manuscritos inacabados. Talvez converse com os mortos ilustres, esses que nunca deixaram de escrever na eternidade. Talvez apenas descanse. Mas uma certeza permanece sobre todas as outras: a luz não se apaga. A poesia não morreu. Morre o homem. Fica a respiração do verbo. Fica a permanência da palavra atravessando os anos como um sino que continua vibrando depois do toque final.



Homenagem ao poeta parnaibano Luiz Gonzaga Sousa Filho