Coleção pessoal de KlaasKleber

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ESBOÇO INACABADO

Se me perguntarem
o que é ser um homem
de meia idade
eu direi: não sei
De fato não sei
Mas sei que na minha idade
o homem se torna o que é
Um esboço inacabado
de uma obra dele todo

Klaas Kleber

O JARDIM DOS BADEN

Acalentado pelo outono
o jardim do Palácio de Karlsruhe
exala o seu último suspiro
antes de invernar

O outono resguarda-o
tece-lhe um manto de folhas
em tons vívidos e harmoniosos
como as sinfonias de Beethoven

Sublime por realeza
o jardim do marquês de Baden
será abrigado das nevadas
até o alvorecer da primavera

Klaas Kleber

FLOR MORENA

Vá flor morena, vá!
Embala-te nos abraços
da mulher que te gerou

E nana!

Nana flor morena, nana!
São Cosme e São Damião
hão de vigiar o teu sono

E sonha!

Sonha flor morena, sonha!
Pois a candura dos seus sonhos
tem a beleza de um Querubim

Klaas Kleber

CARÊNCIA

A carência
é uma correnteza de desafetos
que serpenteia por entre a vida
arrastando os homens
para abismos recônditos
e obscuros

Pudera eu,
ser uma ilha abraçada pelo mar
e pudesse estreitar
nos meus braços
o calor do ocaso poente

A premência de afeto
é algo que fragiliza
a natureza do nosso ser!

Klaas Kleber

Retirar-se na solidão

Retirar-se na solidão
é estar consigo mesmo
é colonizar seu pensamento
é desencarcerar seu sentimento
é desoprimir sua emoção

Retirar-se na solidão
é conectar-se com o fora
é ouvir o seu entorno
é estender o seu universo
é transcender a sua imaginação

Retirar-se na solidão
não é renunciar a si próprio
não é retirar-se do mundo
não é morrer para a vida
não é perder a razão

A solidão
também tem seus encantos!

Klaas Kleber

NADA MAIS

A noite dissipou-me o dia
dispersou-me os amigos
nada mais me apetece
senão, o acalentar do silêncio

A noite dissipou-me o dia
fragmentou-me os pensamentos
nada mais me ambiciona
senão, o cenário do vazio

Já não quero pensar
já não quero falar
nada mais me aspira
senão, velejar nos meus sonhos

Klaas Kleber

Libertino

Minha elegância de maneiras
oculta desejos impuros
por prazeres carnais
obscenos

Tenho um jeito lascivo de amar
um jeito devasso de possuir
sem pudor e decência
libertino

Klaas Kleber

Porto cinzento

A tonalidade cinza
e melancólica
dos seus monumentos
ornados de lavores
tem a intensidade
de um fado dolente
a obscuridade do luto
e da mortificação

Klaas Kleber

Agô meu pai

O soluçar do tambor
faz o gemido de um cântaro vazio
lúgubre, lamurioso e triste

Sua epiderme magoada
segrega a seiva bílis encarnada
dos golpes do açoite

Palpita forte e sensível
invocando o velhusco negro
adormecido no seu oco

Agô meu pai!

Klaas Kleber

Domingo de inverno

A chama do candeeiro guarda silêncio
enquanto os ponteiros do relógio
musicam as horas tardias
As noites dominicais
são sempre monótonas

O cortinado encandeia o clarão da lua
e matiza de cores sombrias
as velhas paredes do quarto
As noites invernosas
são sempre enfadonhas

Apanho um bloco de rascunhos
preenchido de frases mortas
e rabiscos sem sentido
A poesia nem sempre
surge na forma de versos

Confortado num velho cobertor de lã
versejo em pensamentos
sentimentos de tristeza
Os domingos de inverno
sempre inspiram melancolia

Klaas Kleber

“Ser” austero

Castigado pelos meus atos
o meu “Ser”, soluçante,
geme alto dentro de mim.

A altivez é uma tendência
do meu caráter impetuoso!

Klaas Kleber

Rúbido Viking

Orvalhada de suor
a rubra e alva pele
de penugem carmesim
exalava pelos poros
o odor afrodisíaco
de um óleo de jasmim

Banhado pelo suor
da rubra e alva pele
de penugem carmesim
os meus poros inalaram
o odor afrodisíaco
de um óleo de jasmim

Meu libido foi fecundado
sua virilidade me possuiu!

Klaas Kleber

Volver

Saudosista,
o poeta galga a teia rugosa do tempo,
enredada por fios de seda.
Sua memória retém felizes lembranças!

Nostálgico,
o poeta aviva velhas recordações,
vincadas num passado remoto.
Sua saudade resguarda a inocência!

Silencioso,
o poeta apalpa o rosto de tez morena,
facetado de amabilidade e afeto.
Seu sorriso se converte em versos!

Klaas Kleber

Quem sabe a sorte

Desprovido de ânimo
meu coração enlanguesceu

Fatigado pelo tempo
meu coração esmoreceu

Desiludido com os homens
meu coração enrijeceu

Meu coração cansou-se
de ser súdito da vontade de outrem

Sinto o seu ardor arrefecer
o seu rúbido empalidecer

Nem mesmo a poesia
pode salvá-lo da morte

Quem sabe a sorte?

Klaas Kleber

Se fosse diferente

Minha vida é um tecido roto
cerzido com memórias amargas
com sentimentos frágeis
e sonhos

Se fosse diferente
não careceria tanto assim

Minha vida é um tango argentino
compassado de paixões fortes
de emoções ardentes
e furor

Se fosse diferente
não sentiria tanto assim

Klaas Kleber

Quitério

A noite fria tirou-me o sono
aprisionou-me no quarto
estou às escuras
e o silêncio me causa enfado

Sussurro o nome de Quitério
Quitério! Quitério!

Ouço um ronronar indolente
a passos manhosos ele se abeira
silencioso, desperto, matreiro
sua noite também é monótona

Sussurro o nome de Quitério
Quitério! Quitério!

Quitério salta para os meus abraços
parece um tufo de algodão
trocamos carícias fadigados
e nos aquecemos de amor

Meu gato Quitério
tem o olhar de um fadista

Klaas Kleber

Momento fugaz

Espelho d´alma
de suave transparência
reflete a pele escamada
no oco vazio do tempo
invólucro sensível
meus lábios não magoam
silenciam a surdez
não é preciso cegar
a luz navalha
numa velocidade finita
tudo é fugaz
o tempo
o momento
o agora
o nada

Klaas Kleber

Lua cheia

A lua reluz ardente
por um jovem pescador
que nas noites de lua cheia
é poeta trovador

A lua se desnuda da noite
e vai repousar em seu leito
o pescador não desperta
o seu mar tem a cor dos sonhos

Klaas Kleber

Entardecer em Aveiro

Crepúsculo na ria
triste beleza
o dia agoniza, esmorece
em tão breve perecerá
a paisagem guarda silêncio
os moliceiros se aportam
uma garça solitária
plaina no horizonte
é o seu último voo
o seu último adeus
uma gradação de cores
aquarela as águas salinas
tintura cambiante
a ria se emoldura em túmulo
logo sepultará o dia

Klaas Kleber

Destino

Um guerreiro de pés alados
galga as paredes mucosas da cripta
efêmero casulo de morte
trás na tez do seu rosto
a palidez dos homens aflitos
e na face do seu escudo
as cicatrizes dos discursos travados
seu carma foi seu triunfo
ouve-se o ressoar das trombetas
as moiras tecem a passagem
sensatas senhoras do destino
a luz invade a cavidade cavernosa
e vem banhar os seus lábios profanos
sente o rosto ruborescer
muito em breve
sua cabeça será coroada
pelo mérito de sua vitória

Klaas Kleber