Coleção pessoal de karioca
A Medida do Sacrifício
Era como um artesão que constrói a mais bela das moradas, esculpindo cada pilar com as próprias mãos feridas, polindo o assoalho com as próprias lágrimas. Ele ergueu as paredes de madeira para abrigar você da tempestade, abriu janelas para que a luz da manhã beijasse o seu rosto e preparou a mesa com o que havia de mais precioso em sua própria vida. Ele fez tudo isso sabendo, desde o momento em que cortou a primeira tábua, que você trancaria a porta por dentro e o deixaria do lado de fora, na chuva.
Ele desceu de um trono intocável para caminhar sobre a poeira das estradas que você mesmo pavimentou com distância e esquecimento. Foi o pastor que deixou as pastagens seguras para entrar na floresta mais escura e hostil, absolutamente ciente de que a ovelha perdida, ao ser encontrada, tentaria fugir de volta para os espinhos.
Na matemática fria dos homens, o amor é um investimento que exige retorno. Ninguém derrama água limpa em terra seca sem a garantia de que a flor vai brotar. Mas a lógica dEle sempre desafiou as regras da troca. Ele não plantou a semente exigindo a colheita do seu afeto; Ele plantou porque a sua essência é dar vida, mesmo àqueles que se acostumaram com o deserto. Ele viu a traição antes que o beijo fosse dado no jardim. Ele ouviu a negação antes que o galo cantasse na madrugada. Ele sentiu o peso da rejeição antes que o martelo fosse erguido.
O Rei do universo despiu-se de sua glória para vestir a vergonha de uma cruz áspera, pagando uma conta incalculável por um devedor que, muitas vezes, rasgaria o recibo com indiferença. Ele olhou através da eternidade, viu as suas falhas, a sua ausência, os dias em que o nome dEle seria apenas um eco distante na sua rotina, e ainda assim respirou fundo e decidiu seguir em frente.
Não houve nenhuma ingenuidade em sua entrega. Ele não caminhou para o Gólgota iludido, esperando que o mundo inteiro o abraçasse arrependido. Ele marchou para o sacrifício com a clareza cortante de quem conhece o abismo do coração humano. No ápice daquela tarde escura, a maior prova de graça não foi apenas o fôlego que se esvaiu, mas a aceitação silenciosa da sua recusa. Entre a terra que o rejeitava e o céu que se calava, a verdade foi cravada na história para sempre: ele te amou sabendo que não seria correspondido.
Ainda Vou Me Lembrar de Você
Quando o tempo apagar as feições que eu decorei,
e a poeira dos anos cobrir as estradas que andamos,
quando os dias passarem depressa sem nos importarmos
com os mapas rasgados e os sonhos que eu desmontei.
Mesmo que o mundo dê voltas que eu nunca previ,
e o destino me leve pra longe de onde te conheci,
ainda vou me lembrar de você.
Vai ser numa tarde qualquer de um outono distante,
ou talvez no acorde de uma velha canção esquecida.
A memória virá como um vento furtivo e constante,
trazendo um recorte de quando você preenchia a vida.
O cheiro do café quente pela manhã na cozinha,
ou o eco de um riso perdido no meio da rua vazia,
farão com que a mente, por um segundo sozinha,
retorne ao exato cenário da nossa antiga alegria.
Lembrarei de como a sua voz acalmava a tormenta,
das noites de insônia trocando palavras banais.
O tempo é um rio que corre de forma violenta;
arrasta as presenças, mas não lava os nossos sinais.
As coisas miúdas, que pareciam não ter importância,
serão os gatilhos que vão encurtar a distância:
o jeito que você olhava antes de confessar um medo,
a mania de guardar cada dor como um grande segredo.
Não será com a angústia de quem perde e não sabe aceitar,
nem com o pranto de quem implora pro passado voltar.
O luto da despedida, com os anos, se torna semente,
e o que era vazio floresce de um jeito indulgente.
Eu serei outra pessoa, com outras marcas no rosto,
construindo outras casas, descobrindo outro gosto,
mas um pedaço de mim estará para sempre ancorado
naquela versão de nós dois que ficou no passado.
A ausência, aos poucos, se veste de paz silenciosa;
já não corta como o vidro, nem fere feito navalha.
Ela vira um farol de uma luz solitária e formosa,
que não guia o meu barco, mas ilumina a batalha.
E assim seguirei, colecionando novas chegadas,
cruzando outros mares, trilhando outras estradas,
vivendo o milagre comum que é sobreviver.
Mas saiba que, no fundo do peito de quem se entregou,
a marca deixada é profunda, não pode ceder.
Quando os invernos pesarem e o meu passo cansar,
quando o último brilho do mundo ameaçar se apagar...
Ainda vou me lembrar de você.
