Coleção pessoal de Jsgdias

Encontrados 16 pensamentos na coleção de Jsgdias

Certezas absolutas

Brasília, DF, 22 de março de 2017.
Aprovação da PL 4302/98, Lei da Terciarização.


Como será?
Não faço a mínima ideia.

Começaram por destruir a minha língua.
Furaram meus olhos.
Estouraram meus tímpanos.
Quebraram minhas pernas.
Arrancaram meus braços.

O resto é pouco...

Mas, para todos, uma certeza:
todas as incertezas vos sovino!

Plena e pura certeza absoluta: eu morro.

Não agora!

Por ora, respiro e luto.
Ainda que castrado
e insano!

Jodhi Segall
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Balada


Não, não me digas não nesta noite.
Aceita com teus risos a alegria desta hora;
envolve nos teus braços os meus carinhos
e não te afastes deles até o amanhecer...

Escuta minha balada de amor,
meus versos profanos de paixão;
toma em tuas mãos o calor latente de meu corpo
e em beijos ardentes te entrega aos meus fascínios...

Não, não me digas não nesta noite.
Aceita com teus olhos o esplendor deste luar,
que envolvido nestes versos trago:
são parte deste amor que sinto e a ti traduzo.
Escuta minha cantiga enamorada como um canto mágico
a bulir em teus cabelos,
como ternura de meus lábios a percorrer tua pele.

Jodhi Segall
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(Auto)Biografia Não Autorizada

Escrever uma (auto)biografia já é uma árdua tarefa por si só. Viver é biográfico. Por mais público e notório que se seja, a distinção entre o público e o privado é ou será sempre a distância elementar entre a cozinha da casa e sua latrina.

Os cômodos de uma casa são praticamente a realização da vida de uma pessoa. E é nela, esse pequeno feudo chamado lar, em que escrevemos com sangue, suor e lágrimas os momentos significativos e significantes de nossa estúpida e singular existência.

Talvez por isto, essa distância tão hegemônica à tantos mundos, em que quartos e salas, áreas distintas entre o lazer e o serviço, sejam tão pouco comensais. Um olhar sobre si mesmo recai muito mais sobre nossas mentiras do que sobre nossas imprudentes verdades.

Ao certo e para tanto: verdades não nos interessam. Por si mesmas já desencantam. Desmistificam. Desmitificam. E isto é trágico.

Ser sincero é ser sozinho: egoísta demais para conviver com a fragilidade da existência e sua incompletude.

Caso não queira ser contrariado, por favor: não nasça! Desejas ser perfeito? Morra!! Somente a morte nos torna, retorna, reflete em si, o que por ventura ou desventura é perfeito.

Há quem diga da perfeição divina. Nem nela, aos 120 anos de idade, um homem de bom senso crê.

Não por sua latente companhia. Aliás, de ambos: Eros e Tanatos. Juventude e decrepitude sempre andam juntas. É como saber e ignorância: como necessitamos de justificativas para nos dizermos sãos. Como precisamos tanto da palavra igualdade para nos afirmarmos únicos e tão únicos, tão donos de nós próprios: livres. Encarcerados em uma bolha de ares não respiráveis, mas livres!

E nada como afirmar: o amor é azul! A terra é azul. O mar é azul. O ouro é azul. A morte azul. A chama da vida: o fogo é azul!!

É... A lua, no entanto, é cor de burro quando foge! Ou algo meio insonso, insípido. A lua é sem sal. E tudo sem sal é, na modernidade de nossos pré-tumulares, bom. É preciso iodo. Não etos, atos. Sei lá mais... Em um mundo formatado em óides, úricos e ídricos, apenas os hídricos e hesitantes são totalmente descartáveis para o bem maior da integridade econômica (reciclável) glocal.

O êxito é uma palavra sagrada. Secreta. Guardiã da eternidade. Mãe da sobriedade. Talvez natimorta. Já que o que se revela no hoje o é em sua totalidade. E há que fale sobre sustentabilidade. Vá entender lá o que é isso!? Na antiguidade, e nunca sequer saímos de lá (se é que lá estivemos ou chegamos!?), era a legalidade da escravidão! O que não está longe, mas bem presente! Enfim, nada como ser troglodita.

Outro dia estava lá, debruçado sobre os escombros de si mesmo e solicitando piedades aos transeuntes, o meu precursor: algo de resto entre o preto, o branco e o qualquer coisa chamado de índio. E rio-me quando afirmam-nos cinza. Acaso trate-se da cor: ainda há como escolher entre escuro ou claro; mas tratando-se de ou da existência, resistência, força, qualidade, propriedade, serve ao menos para salgar a caça que sobrar. Acaso sobre.

Falava-se outro dia sobre a fome. Não a conheço. O que conheço possui outro nome. Chama-se estupidez. E nada é tão farta no mundo quanto a estupidez. Estupidez e ignorância são sinônimos da igualdade que se busca e da sustentabilidade que se conquista no “por ora” das horas extras não pagas.

E cobrá-las acaba por ser direito, porém, incoerente. Afinal, a previdência é a previdência. E para ela hora extra não existe. Não conta como tempo de serviço. Ou se conta, onde estão os dez, quinze anos nelas embutidos e consagrados à vã gloria do proletário. Assiduidade. Nada como ser assíduo. Nada como a mais profunda competência. Relevância. Excelência. É bom também! É ser sustentável... No mínimo: auto-sustentável, ainda que imóvel.

Imóvel. Creio bem mais nesta palavra do que na liberdade ou esperança. Um dia foi-se criança. E hoje é-se velho, arcaico, deprimente, descartável – principalmente se não possuir renda ou recursos. E tem-se apenas vinte anos... O que dizer de quem chegou – sobrevivente – aos sessenta, setenta, oitenta, cem...

E sem é uma palavra derradeira. Porém cada vez mais comum. Assim como imóvel. É... O latifúndio venceu: a cova rasa é um direito legal, porém, distante, bem distante do lugar comum. É um imóvel. Como cada vez mais nos tornamos...

O pedágio está nas ruas, nas vielas, nos becos e avenidas, está nas praças, nos concretos e congressos, nas concretudes constituídas no pânico e no medo nosso de cada dia.

É o patrimônio que somos. O legado que deixamos. A biografia. A historiografia real e ampla de nossas palavras, atos e omissões. E tudo é trabalho. Tudo se resume ao servir, ao prestar, ao eficiente e eficaz. Aos meios e recursos recebidos. Às habilidades e competências adquiridas. Ao uso. Usufruto, talvez!? Usucapião, sempre.

Memórias são assim: fragmentos de nossas conveniências.

E como somos tão determinados por nossas inconveniências. Como somos julgados segundo nossas misérias. Como nos espelhamos tanto em dependências.

O mundo não é um mundo de luzes. Ele é constituído e consagrado através da escuridão. O obscuro e o oblíquo são as forças motrizes da existência. Precisamos muito mais dos vícios do que das virtudes... Pessoas virtuosas não nos são úteis.

E no fim desta, assim como as demais, pouco nos importa ser Dante ou Cervantes: de nada ou pouco a prata abasta. Tanto faz perguntar sobre o caminho: “as aves do passado não repousam no mesmo ninho do agora”.

Ter um Deus apenas, não é algo de bom senso.

Falar de amor não é bom. Amar faz bem, só isso. Saber amar é que é difícil: tanto de aprender, quanto mais, ensinar...

Perdão?! Não conheço! Mas esquecer vale a pena.

Vou viajar. É comum ao tempo fazer-se espaço. Na bagagem quase nada levo. O suficiente para uma semana, ainda que a jornada leve décadas. Esteja onde estiver, lá estarei completamente nu. E isto me é bom e sagaz: ser sempre incompleto. Satisfatoriamente, incompleto...

Alexander Martin Wash
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Confissões

nasci em algum tempo
em algum lugar
nada sei de mim ou do mundo
e isto me faz viver

declaro inexistente a esperança

sem ela
todos somos crianças

um dia cresci e foi horrível
ser homem é não existir

Jodhi Segall
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Relicário

nos demais
envelhecer ou morrer de acidente
causa natural
da busca
do medo
do espanto encontro
ou simplesmente
da simplicidade das coisas que
com tanta eficácia e eficiência
além ou aquém das dificuldades
naturais das coisas
edificamos
ou não

Jodhi Segall
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Amores perfeitos

ali
na lateral
o litoral e a
nuvem

uma sereia cantou aqui

e tudo se recriou na imperfeição

do amar

restou-se

o mar

Jodhi Segall
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Lux


terras de ninguém

o corpo

meu teu outro teu meu
nele em mim em ti
noutro alguém o
vortex

no velório amém

e diz-se amar
aquilo que não tendo
não contém

Jodhi Segall
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Espelho

Aos poucos nos tornamos mais fortes.
Aquela fraqueza não se sustenta.

Vemos a grandeza como algum comum.
Tomamos posse de nossas riquezas, fortunas, venturas.

Nada tememos em nós próprios e tudo preservamos ao derredor: o modo, as coisas, as pessoas...

Aos poucos a imagem se dissipa e no espelho encontramos nossas verdades.
Nenhuma dor permanece.
Sentimos uma áurea de humanidade, cantamos uma música enternecida sem melancolias, melodramas, restituições ou resgates.
Todas as contas estão pagas.

Leve como uma pluma, ergue-se sobre o sol, a alma.

Sob estradas, estrados...
Além de nós, estrelas!

Jodhi Segall
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Os Titãs (Das questões)



Dois titãs se completam
Se refletem e se maravilham
Dois amantes
opostos se iluminam na mesma escuridão
Dois pesos
um só êxtase e fadiga
Dois náufragos e tudo é
Angústia e medo
Distância
Viscosidade
De corpos putrefatos
E almas mortas
Sem portos ou portas
Só incertezas
E um gosto acre de maledicências e inveja
Total desprezo à dor
Abandonos...

Jodhi Segall
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Quando

Para Edison Simon e Eduardo Galeano


E então como as nuvens passam
E os homens morrem
Assim tão simples entes e mentes
Nada mais significam

São engodos
Nódoas
Mágoas
Coisas esquecíveis.
Simples entes e mentes
Ignoráveis.

Acordamos um dia como noturnos.
Entre fuzís e coturnos nos definimos libertários.
Perdidos entre o bucólico e o alcóolico nos dizemos apaixonados.
Mas nada é tão burguês quanto ser socialista.

É o mesmo que dizer temos queijo, mas não para ratos.
Temos vinho, mas vista o terno. Saiba termos. Regras.
Silêncios. Discrições descritas nos index
do bem comum.
Nada tão hipócrita.

A mortalha me serve.
É rede feita de linho.
Simples.

O sol é lindo.
O sal não arde.
De amor fui feito,
por amor lutei.
E as nuvens passam...

Um dia há de contrários, mas não eternidades.
É preciso o impreciso de verdades.
Então morremos. E sabemos
com tranquilidade
que não há mais dor.
Nem precisamos de esperanças.
Em breves, como em vidas, não havemos mais
lembranças ou
esquecimentos.

Nada mais além
do firmamento.

Jodhi Segall
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Gratidão


Para as minhas mães, irmãs e filhas Dominicanas
e meus fraternos frades Maristas, Franciscanos e Beneditinos.
1979. Colégio Nossa Senhora das Dores. Uberaba-MG.


Deus me amou tanto que me fez poeta.
Quisera eu ser seu filho predileto:
poder multiplicar os pães de que o meu povo
tanto necessita, ter a sabedoria de Salomão
e as virtudes de Maria.

Quisera ser um Cristo e dar de graça a
salvação do mundo.

Mas não.

Pequenino como Marcelino,
guardo comigo a gratidão:
Deus me fez poeta:

Um homem comum
(pobre e feio),
como qualquer
um.

Jodhi Segall
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Poeminha de amor


Para Irene. Maestro Arturo Toscanni: 1976.
EM 19XX19 Cap de Frag Didier Barbosa Vianna
Ilha do Governador. Rio de Janeiro – RJ.


Um barco veleja
Sobre as ondas do mar
E o tempo me leva
Nele a navegar

Vento forte vento bravo
Este vem a me atrasar
Mas mais forte é o meu barco
Que navega sem parar

Navega com rumo e sentido
Sentindo as vagas do mar
Me leva tonto e perdido
Louco (louco) para te amar

Jodhi Segall
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Clave de Sol


Para Maria Solange de Souza.
Praia do Jardim Guanabara. 1983.
Ilha do Governador. Rio de Janeiro-RJ.



Epopéia.

Coxas entrelaçadas nas labaredas
do céu.

Espera na busca do delírio:
suor
melodia
e ego.

Curas.

Revela pensante o animal: amante.

Usa-me.

Jodhi Segall
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Verbo


Para Monsenhor Juvenal Arduini.
Uberaba, MG, primavera de 1998.
Folhas de Outono, 2001.


O verbo é a essência.
O homem é o pote.
A oração é a mensagem.
O verbo, a prece.
Todas as coisas giram ao seu redor.
Sozinho, ele não é nada.
Como eu, tu e ele,
Todos dependemos do nós.
E dos nós que desatamos...

Jodhi Segall
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Pérola


Para Henrique Leonardo Lima do Nascimento.
Uberaba, MG, dezembro de 1999.
Folhas de Outono,2001.


Assim
como as folhas caem no outono
e as flores brindam a primavera
tua amizade
é verão em pleno inverno
luz e vida a aquecer a alma

Em pequenos e vãos momentos
em tudo me acrescentas
saudade é já antes do partes
e me transformas para a guerra
e me conduzes na partilha

Melhor me dou
na independência do senso e do sentido
que sentindo sou

Jodhi Segall
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O Corpo


Ribeirão Preto - SP.
Grande Circo Popular do Brasil. 1995.


Masculino este meu corpo se heterogeniza, sexualiza,
revela e muta, descarna: deságua em feminino absoluto.

Fundidos, atados, corpo e alma solidificam:
unificam, purificam, autenticam.

Masculino, este meu corpo se rebela à mera função de macho
reprodutor,
consumidor de fêmeas,
de primata.

Minha alma feminina o guia e protege e ilumina;
ousa em asas, afirma: ascende rasgada, dissecada;
exposta, nada priva.

Livre, meu masculino corpo se dilui...
Ama, entrega: integra, desintegra, marca.

Semeia e segue.

Jodhi Segall
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