Coleção pessoal de JefferLimma

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O Visitante


Há quem entre
sem fazer barulho.


E, ainda assim,
desorganize a casa inteira.


Toca nas paredes,
elogia a luz,
senta à mesa,
fala como quem pretende ficar.


Depois rareia.


Não vai embora de uma vez.
Seria honesto demais.


Vai sumindo aos poucos,
como quem espera
que o silêncio faça o trabalho
sujo.


A casa observa.


Não cobra.
Não chama.
Não implora.


Só aprende.


Porque há presenças
que não quebram nada,
mas deixam tudo mais frio.


E no fim,
o que pesa não é a partida.


É lembrar que alguém soube
entrar
e ainda assim
não teve coragem de
permanecer.

O Visitante II


Depois que a casa aprendeu,
nunca mais abriu a porta
com as duas mãos.


Agora,
quem entra
já encontra o chão gelado,
as luzes apagadas
e uma cadeira vazia
posta no lugar certo:


longe demais
para parecer convite.


Há pessoas tão monótonas
que nem chegam como tempestade.


Chegam como poeira.


Sentam,
falam pouco,
prometem nada,
mas ainda assim
ocupam espaço
como móveis velhos
em cômodos que já pediam fogo.


Eu sempre soube.


Só não dizia alto
porque há verdades
que ficam mais bonitas
quando provadas
pelo próprio desaparecimento
dos outros.


No fim,
ninguém me surpreende.


Apenas confirma.


Uns rareiam.
Outros somem.
Alguns fingem delicadeza
enquanto deixam a lâmina
em cima da mesa.


Mas todos,
absolutamente todos,
partem do mesmo jeito:


fazendo silêncio
como se o silêncio
não tivesse digitais.


Eu vi.


Vi quando a presença
começou a virar intervalo.


Vi quando a palavra
perdeu peso.


Vi quando o cuidado
ficou preguiçoso.


Vi quando o “perfeito”
já vinha vestido
de despedida.


E ainda assim,
não pedi explicação.


Porque pedir clareza
a quem vive de sombra
é oferecer vela
a um túmulo.


A casa não corre mais
atrás de visitante.


Não limpa pegadas.
Não guarda copo.
Não espera retorno.


Deixa a poeira assentar
e aprende o nome
de cada ausência.


Há gente que se acha mistério,
mas é só repetição
com perfume barato.


Há gente que se acha perda,
mas era só tempo
escorrendo pelo ralo.


Há gente que pensa
que deixou saudade,
quando deixou apenas
uma prova:


eu estava certo.


Sempre estive.


E se um dia perguntarem
o que aconteceu,
direi sem raiva,
sem saudade,
sem brilho nos olhos:


nada.


Só mais alguém
entrou numa casa
que não merecia conhecer
e saiu pequeno demais
para virar lembrança.


Porque, no fim,
o que assusta não é perder pessoas.


É perceber
que algumas nunca tiveram altura
para serem chamadas de perda.

De cem sorrisos, noventa e nove são falsos!