Coleção pessoal de IsaacRamoan
Há um padrão litúrgico: um movimento conhecido, previsível, esperado.
Há um desenvolvimento rítmico; um fim provocativo, argumentativo, catártico.
A repetição ritualística, advinda de uma herança antiga, é por si o fim aceite nela mesma.
Como alcançar o objetivo da busca, pelo Caminho que é por ela condenado?
Temo gastar minha vida em um tema que nem sequer me posso debruçar com inteireza, dado ao limbo entre os fatos e o que se mostra verdadeiro.
Eu já percebo que a religião não vai acabar. Não será o despertar de uma formiga que irá derrubar o tamanduá.
Vejo-me novamente a contemplar um passado de um estado anímico irrepetível para mim; em que se torna improvável voltar a ignorar aquilo que as palas dos meus olhos cobriam.
A ontologia do ser, o humano em demasia, ecoam numa mente que só sabia viver. Mente essa que aprendeu a viver antes de entender o que é estar vivo.
Quão grande será o fardo de ser humano em demasia?
Quem o diria que sapiens sapiens com furor o traria.
Qual foi a última vez que você lembrou que está vivo?
Talvez quando sentiu dor, talvez quando sentiu a cura.
Talvez vendo a chuva, talvez em uma noite escura.
Talvez na solitude, talvez em uma aventura.
Talvez a vida seja sobre a completude do processo, semelhante a um filme; persistir mesmo sabendo que há um fim quase certo.
Todas as questões humanas são respostas ao absurdo primordial: a recusa do universo em responder à nossa exigência de sentido. Não crio uma filosofia nova. Reconheço, talvez, um chão comum a todas elas.
Tenho muita teoria que por vezes a prática é negligenciada. Me fixo na ideia de que o conhecimento não ocupa espaço, mesmo que por vezes eu fique exaurido com tanto saber. Mas saber que saber? Não é sabido.
A completa complexa arte de viver e gerar uma vida,
Desde a finesse do ventre pequeno ferido,
Ao espaço de tempo do primeiro minuto de vida.
Que nunca possamos perder o otimismo que nos move. O otimismo anunciado por lábios de vento e feito ponte de névoa sob o rio da vida. Ponte essa que liga o ínfimo desejo de ter e o tédio de pertencer. O otimismo anuncia a eternidade de uma vida finita, nos move a alimentar um corpo que sucumbe por si só e nos guia a acreditar que mesmo que, se aqui não bastar, há outro lugar melhor, no porvir, que um dia virá. Virá? Que nunca possamos perder o otimismo.
Até quando vou aceitar migalhas do meu próprio eu? Se meus objetivos fossem favores de alguém ou ordens do patrão, já os teria feito em um prazo curto.
O que os olhos da razão veem que nem mesmo os lábios da verdade podem descrever?
O que se mostra por trás do véu do achismo?
Se uma bandeira tivesse olhos e boca, o que ela nos diria?
São perguntas desconfortáveis que não aceitam respostas prontas. Aquele que se dispõe a respondê-las, dá largos passos no estreito caminho da verdade.
