Coleção pessoal de isaac_da_silva_rodrigues
Senhor Psicológico
Tudo começa com um fim.
Como o fim de uma linha no caderno. Como o último episódio da sua série favorita. Todo começo nasce de algum encerramento.
O meu começou com o fim de uma relação que mal teve tempo de existir. . Mas essa parte da história não importa tanto quanto o que ela deixou.
Com o tempo, passei a travar uma guerra contra mim mesmo. Uma luta silenciosa, daquelas em que acordar já parece um combate.
Lembro-me de uma frase atribuída a Isaac Newton:
"Toda ação tem uma reação."
Cinco palavras. Tão simples... e, ainda assim, capazes de explicar boa parte da vida.
Não existe ação sem consequência.
Escrever uma linha no caderno significa, inevitavelmente, chegar ao seu fim. E, quando a linha termina, outra começa.
Talvez seja assim com a vida.
Talvez a batalha diária contra a depressão e contra a desordem da minha mente também tenha um fim.
Só espero que, quando esse fim chegar, ele seja o começo de uma versão de mim que finalmente aprendeu a viver.
Hoje não estou muito bem.
Há dias em que a gente não desaba porque aprendeu a guardar. E, de tanto guardar, vai enchendo gavetas que já não fecham mais, empurrando para o fundo do armário tudo aquilo que não teve tempo, lugar ou permissão para sentir.
Hoje sinto o peso dessas gavetas.
O frio da noite parece encontrar cada uma dessas sombras escondidas. Os pensamentos caminham em desordem, cruzam minha mente sem pedir licença, enquanto eu tento, silenciosamente, colocar tudo em equilíbrio. Não porque esteja tudo bem, mas porque a vida continua exigindo que eu siga.
Não tenho a opção de parar para sentir.
Então continuo. Arrumo o sorriso, organizo as tarefas, respondo às pessoas, respiro fundo... mas sinto.
Sinto o cansaço de quem precisou ser forte por tempo demais. Sinto o peso das palavras engolidas, das lágrimas adiadas, das dores que aprenderam a esperar pela madrugada para aparecer.
E talvez seja isso que mais doa: não é a falta de sentimentos. É a falta de tempo para acolhê-los.
Mesmo assim, sigo.
Não porque seja fácil, mas porque, por enquanto, é o único caminho que encontrei. Carrego comigo a esperança silenciosa de que um dia eu possa abrir essas gavetas sem medo, deixar entrar luz onde hoje habitam sombras e, finalmente, descansar o coração de tudo aquilo que ele insistiu em suportar calado.
