Coleção pessoal de irmosvoltaire4444_1120041
Qual é a verdade da lógica dos sons? O que as cores têm a ver com a verdade? Ser escritor é mentir sempre, é criar a realidade. Ser artista é tornar pública uma visão pessoal.
Sonhador
Os meus sonhos valem mais que qualquer coisa que eu tenha vivido. A imaginação cria um mundo mais completo do que aquele que eu nunca vou conhecer. A minha arte sou eu, vivo. A arte de me construir é maior do que se chama de realidade.
Todos são eu. Eu os ouço vendo as nuvens que se estendem pelo céu. Eles sabem, eu sei. Posso compreendê-los enquanto adoram o infinito, posso sentir a sua música que é o saber da música que constrói a realidade. Não mais aqui o eu que não está, ele sempre estará. As fagulhas azuladas da extensão celeste se tingem de chumbo, eu vejo a hora do ocaso, ela fará tudo voltar ao começo. Lá onde está a fonte.
Eu sou assim
Quando achamos que os pensamentos nos atrapalham, que tropeçamos no raciocínio e nas palavras, estamos enganados. Nós estamos muito além do pensamento. Nós somos o pulsar das galáxias, somos o fluxo interminável dos átomos, o choque das forças em movimento. E também a comunicação de mentes sem fim. A sombra dos astros no encontro entre a realidade e o nada.
A realidade é uma ideia, nós a compreendemos ao senti-la. As palavras só podem definir, quando tudo é o infinito. A Verdade é a imaginação, pois além de nós está Deus e o que vemos é o que nós somos. Nunca a visão será suficiente para contentar a nossa sede de saber.
O dia se repete infinitamente, a não ser pelos pontos chaves, em que podemos modificar o looping. Para saber quando mudar, isso só usando a intuição.
Todos estão iludidos pelo espaço, quando estão presentes num pequeno ponto, indo e voltando, sem sair do lugar.
Aqui no penhasco, onde mora a paz e a tranquilidade, vemos o prazer e a dor se degladiando lá no vale. O ensinamento de quem não é mais alguém.
Se não estamos cientes do passar do tempo, o senhor das horas nos rouba a noção de movimento e nos subtrai a medida do que passou.
Cego
Deus chegou a um ponto em que percebeu que era Deus. Acordou-se de fazer tudo automaticamente, de criar mundos sem saber. No fundo, nunca admitiu ser estúpido, pois acreditava que era onipotente, onisciente, não um idiota. Nem o universo triste e sem sentido que inventou o convencia da sua fraqueza. Gostava da sua onipotência e fingia acreditar que era um pequenino. O mundo era um teatro que criava sonhando e não era responsável pela maldade e pela dor. Imerso no seu poder imenso, era presa desse mesmo poder. Bêbado de vaidade, o seu medo era o medo de realizar as suas aspirações, medo do terror que desejava. Então se manteve inconsciente, anulando a racionalidade, até que chegou o momento em que teve de admitir as suas limitações e perguntar o que, acordado, faria em seguida. Deus sabia que esta história não poderia ser apreciada por ninguém mais, fora ele próprio. Não havia quem lhe dissesse o que era certo e o que era errado, ou o caminho a seguir. Era a própria imagem da solidão. Quando descia ao mundo dos homens e abandonava o seu mundo das ideias, ficava confuso porque o mundo inferior o adoecia com o nada. Grande era o medo da concussão que viria pelo desejo de abandono, pelo desejo da morte. Na verdade, era a preguiça de tudo recriar, como das outras vezes, e também pelo apego aos seres, que não sabia reconstruir fielmente: Ah, nunca seriam como antes! Ele gostaria de falar e chorar, mas as criaturas nunca poderiam entendê-lo, jamais conseguiriam se colocar na sua posição. Assim, era o responsável por se fazer apreciado. Tudo o que inventava, ele achava aquém de si próprio, justamente porque era o máximo. Ao se ver, podia perceber as suas falhas: o tempo, o movimento, a repetição, a vontade, que o impulsionavam para o abismo, pois, embora não houvesse o futuro, ele não tinha completa consciência da ordem de tudo.
