Coleção pessoal de irmosvoltaire4444_1120041

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Os pressupostos


A sinceridade
A força
A estética
O amor
A felicidade

Nave


Barulho, trepidação. O anjo pousou na Terra desorientado. O transporte imaterial que o carregava estava danificado. A escuridão surgiu no seu espírito, e ele sofreu de amnésia, que o impedia de perceber a sua condição. Assim viveu por eras entre os homens, sofrendo como eles. Um anjo é um anjo e de qualquer maneira acaba a desabrochar, descobrindo a verdade oculta: a tristeza constrói, a alegria também. O anjo não tem vergonha que o limite, nem fome do que é material. Como é o despertar? O ser que se abandona ao sofrimento, um dia saberá. O anjo é protegido e as suas dádivas revertem-se para si próprio. Assim, nenhuma arma o ferirá. O passado é uma mentira, o futuro reverte para o agora. Ao despertar, o anjo nada faz, a não ser sentir a brisa e tomar água. A simplicidade é o que há de mais belo. A tranquilidade está a um nível acima do homem. Cabe ao anjo distribuir o seu amor.

Caminhada


Caminhar, caminhar. Como é bom caminhar. Os pés se ajustando ao chão, se distendendo ao abranger a zona de equilíbrio do corpo. Era assim que eu pensava ao caminhar em círculos pelo meu quarto. O quarto não é grande mas tem uma saída, a janela. Lá enxergo os pombos asejando de topo a topo dos prédios. Logo ali as caturritas fizeram um ninho na parte alta do pinheiro. Ficam na altura da janela. Levam galhos para a rústica construção. São como eu, voltam para casa o quanto podem e se abrigam das feras. As feras estão em toda parte, menos no meu ninho. Há uma porta, um computador, um rádio, uma janela e um telefone. São canais que me ligam ao exterior. Eu vejo as feras no computador. É quando aparecem mais assustadoras, se pavoneando, mostrando os dentes e tentando ser sedutoras. Eu nunca me manifesto: que não saibam que eu existo. À noite tomo um chá. Queima a boca, eu gosto. Ontem o telefone tocou e eu estava tomando um chá. Respondi com uma voz fumegante. Fiquei com medo que não ligassem mais. Não tenho amigos, mas aí a ter inimigos, não dá! Eu não tomo remédios, mas alguém me indicou o Oxalato de Escitalopram. Mas para comprar só com receita. Então fui ao médico. O homem me examinou, mediu, dissecou. Descobri que eu era um doente, crônico, um neurastênico, quase oligofrênico. E com pressão alta. Observei as pombas da janela do médico e perguntei-lhe se ele gostava de caminhar. Ele me olhou desconfiado e eu imaginei as neuroses que ele estava descobrindo dentro do meu cérebro inocente. Fui saindo de mansinho enquanto ele escrevia alguma coisa. Deveria ser uma sentença. Um diagnóstico. Um epitáfio. Cheguei à farmácia com a receita. Os nomes dos remédios pareciam fórmulas químicas e eu, assustado, não comprei nada. Voltei para o meu quarto e fui ouvir uns discos. Essas coisas modernas não têm cheiro, nem vida. A música do vinil fluía junto com o som da agulha correndo pelos sulcos. Havia ruídos, estalos e uma sonoridade sofisticada e quente. A Wanda Landowska e o chá de capim cidró, isso combinava, mas queimei a boca de novo. O toca-discos era um mecanismo, mas não era uma criação que produzisse um som fantasmagórico como o do CD. Manifestação dos elétrons do micromundo. Já sonhei com os espíritos e mesmo já os ouvi. Ficam sob a minha janela cantando para mim para que eu fique louco. Serei um louco que acha que é médium, ou um médium que ouve espíritos loucos? Uma vez eu comprei uma tartaruga chinesa de pelúcia e dei de presente. Não gostaram. Então eu pedi de volta e nas noites quentes sonho em nadar nos trópicos com a tartaruga em evoluções fantásticas à luz da lua cheia. E também com as minhas bonecas espanholas ao som da salsa e do merengue. Ontem me lembrei de um tio, já morto. Já foi tarde. Como é bom envelhecer e ir ficando livre das malas. Haverá um dia, depois da guerra, da peste e da fome, em que eu estarei sozinho. Tão só que eu não vou ter mais motivo para não me conhecer profundamente. Depois de muitas décadas não haverá gente no caminho e eu vou poder me encontrar comigo. Vou estar em cada esquina, em cada bueiro, em cada ninho de pomba. Vou me enxergar como eu sou, não como agora em que deixo partes invisíveis. Vou me desejar sem a interferência de toda essa poluição humana.

Lembrança


Velho destino, poeira do tempo
Para o olfato, o suor como pimenta
Para o paladar, o corpo todo

O nariz, o olfato, é a chave.

Fria noite


Caminho pela rua à noite. A luz mortiça se refletindo nas lajes. Ó meu querido papel que aceita tão docemente a minha mágoa, o que não encontramos na noite, lar do sonho e da imaginação? Enquanto abro caminho na névoa, os espectros tomam forma, passam por mim protegidos pela escuridão. O escuro contém algo que eu perdi, que não me deixa encontrar. Foi a luz do dia, a clareza e a certeza da compreensão. A certeza da morte ao final. O breu do meu sonho cria vagos lampejos de nebulosidades. Durmo e vivo num mundo em que não há memória, que não tem passado nem futuro, ele existe sem termos consciência. Não quero, não posso voltar, a noite me seduziu e me tomou como posse. Só quero imaginar e isso acontecerá.

O manual


Se tu és burro, sem imaginação e não suporta isso, escreve. E em quantidade. Lança um jorro de estupidez sobre o mundo através de muitas e muitas palavras. As pessoas vão ficar muito impressionadas. Quanto menor o conteúdo que o teu texto tiver, maior ele deve ser. Abusa das expressões “idiota”, “estúpido”, “inepto” e todos se identificarão contigo, pessoa da mais alta inteligência. Carrega nos paradoxos, eles não querem dizer nada, mas impressionam. Usa palavras vistosas para esconder a tua fraqueza mental. E o melhor: a autocrítica. Faz com que todos pensem que estás falando de ti, quando na verdade estás criticando os outros.

Tudo o que é difícil, é para que fique fácil.

O homem é uma criança num corpo de adulto e a mulher é um adulto num corpo de criança. Os homens se divertem, as mulheres não têm senso de humor.

A boiada


Aqueles que falam bem calam os que não juntam argumentos. Os bons fotógrafos cegam quem não se preocupou em ver. Os artistas treinam a sensibilidade para embotarem os descuidados. Os políticos controlam os que não se controlam. Todos esses arrotam a sua excelência para mostrar a nossa insignificância. Nós aplaudimos. Nós precisamos dos fortes, dos espertos, dos inteligentes, dos poderosos. Precisamos que mandem em nós. Nós não temos a capacidade de dirigir as nossas vidas, precisamos do cabresto, da exploração e da chicotada. Nós, os feios, admiramos a beleza. Nós, os idiotas, reverenciamos a genialidade. Nós, os desnorteados, seguimos os que encontraram o caminho.

Eu não sou um gênio, sou aquele que imagina a genialidade.

Qual é a verdade da lógica dos sons? O que as cores têm a ver com a verdade? Ser escritor é mentir sempre, é criar a realidade. Ser artista é tornar pública uma visão pessoal.

Sonhador


Os meus sonhos valem mais que qualquer coisa que eu tenha vivido. A imaginação cria um mundo mais completo do que aquele que eu nunca vou conhecer. A minha arte sou eu, vivo. A arte de me construir é maior do que se chama de realidade.

Todos são eu. Eu os ouço vendo as nuvens que se estendem pelo céu. Eles sabem, eu sei. Posso compreendê-los enquanto adoram o infinito, posso sentir a sua música que é o saber da música que constrói a realidade. Não mais aqui o eu que não está, ele sempre estará. As fagulhas azuladas da extensão celeste se tingem de chumbo, eu vejo a hora do ocaso, ela fará tudo voltar ao começo. Lá onde está a fonte.

Como pode ser surpreendente a realidade, se, neste instante, estamos lhe criando os pressupostos?

Eu sou assim


Quando achamos que os pensamentos nos atrapalham, que tropeçamos no raciocínio e nas palavras, estamos enganados. Nós estamos muito além do pensamento. Nós somos o pulsar das galáxias, somos o fluxo interminável dos átomos, o choque das forças em movimento. E também a comunicação de mentes sem fim. A sombra dos astros no encontro entre a realidade e o nada.

A inteligência se desenvolve exponencialmente. É uma progressão geométrica.

A realidade é uma ideia, nós a compreendemos ao senti-la. As palavras só podem definir, quando tudo é o infinito. A Verdade é a imaginação, pois além de nós está Deus e o que vemos é o que nós somos. Nunca a visão será suficiente para contentar a nossa sede de saber.

Tudo pode dar certo ou errado. O que importa é o que acontece, a prova da realidade.

Obrigado, Deus, pela luz.