Coleção pessoal de irmosvoltaire4444_1120041
Pobre figura
Deus era um guri que vivia aqui em Porto Alegre. Era franzino e bobo e não imaginava o que era. Criar o universo era a sua diversão, mas não tinha ideia da profundidade e das consequências do seu ato. À medida em que o tempo passava, as coisas que criou foram se voltando contra ele mesmo. A inércia fazia com que os pensamentos malignos se acumulassem, e o mundo virou um inferno, graças à sua tendência negativa. Assim, sofreu por incontáveis eras, prisioneiro da realidade que criara. Quando ele percebeu que o mundo era apenas um reflexo dele mesmo, se viu na maior solidão que poderia haver. No entanto, como tinha criado o mundo por diversão, ele viu que era bom. Foi um empreendimento e tanto, as ideias presentes nas mais variadas formas, a repetição para que não se esquecesse da sua condição, impedindo que mergulhasse na ignorância do esquecimento, o passado construindo o presente, sempre atrasado, mas antevendo o futuro. Pobre Deus, uma criatura insignificante e perdida que já se achou o todo-poderoso.
Quando competimos com os outros, sempre perdemos. Quando competimos com nós mesmos, sempre ganhamos.
Hábito
O que o músico, o desenhista, o escritor, o artista, precisam aprender é assumir uma atitude. É se colocar numa postura de nada decorar memórias, de não acumular procedimentos. É começar, neste instante, o que os mestres descobrem no final das suas vidas. A segurança, a certeza que vem justamente do que estão fazendo. Fazer graciosamente é o suporte, e não o amontoar de vivências. A Vida pulsa agora, agarremos a sua cauda! A Arte é o que surge neste instante. O que devemos aprender é aprender como livrarmo-nos daquilo que aprendemos.
Caxias
As pessoas acham que viver irá preencher o seu vazio, isso acontece, pelo menos é nisso que elas acreditam. A ideia, aqui, é justapor as experiências com as emoções, as memórias com as sensações até que se crie uma história. Naqueles dias, no velho apartamento, sentávamos sob o sol. Nos esquentávamos, no frio do inverno, naquela nesga de luz e apreciávamos o gosto doce e ácido das bergamotas. Só que isso não existe. Eu estou velho e as bergamotas há muito foram comidas. A minhacachorrinha morreu, não existe. Percorrer as memórias ativa o banco de emoções e produz a sensação de uma volta ao passado. Eu não sou ninguém, apenas um vazio. Esta casca, que muitos desprezam e que acham que é a residência de algo interior, é a existência. Queres conhecer a verdade sobre o mundo? Ela está bem na tua frente, ao alcance das tuas mãos. A profundidade está na superfície. Qualquer um que tenha sensibilidade já compreendeu que a realidade é uma forma. É algo que muda constantemente já que estamos sempre a criá-la. É a forma da nossa mente. Ela é a forma que contém todas as outras formas e que está contida em cada uma delas. Eu pensei que estava sendo límpido e claro, mas surgiu quem discordava, e ainda ficaram ofendidos, e queriam brigar. Parece que as pessoas têm um enorme apreço pelas suas convicções e não admitem que se discorde, imaginando que os que pensam diferente podem corromper a pureza das suas ideias. Claro, podem brigar comigo, mas não adianta, porque eu não tenho convicções, só tenho ideias velhas. O que está na memória não tem valor no hoje.
Há três níveis: a mente, que enxerga, o coração, que percebe, e a vontade, que impulsiona. A vontade não é o desejo, o coração não é a sensação e a mente não é a compreensão.
Os físicos e matemáticos querem entender o universo utilizando números. Isso é um fetichismo maluco! Os religiosos querem entender a Deus usando livros e palavras. Isso é um fetichismo insano!
Uno
Deus nos espanta com o passado,
doce e cruel a mim foi arremessado.
A vida guia a minha pena vibrante
para aqui ficar,
sem ir adiante.
Como mil centopéias,
tenho braços que te abraçam,
e tu, minha velha,
meu coração trespassa.
O ouro me tenta.
A carne me suberge.
A vida que é lenta,
da corrida me perde.
Ao não dizer, não digo.
Minh’alma fere quem pouco entende.
Para falar, um perigo,
ao proferir mudo, à toda gente.
