Coleção pessoal de iolandav606_1128590

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náufrago


Era meia-noite... O vento frio passava triste, como palavras cortantes, acompanhadas com uma enorme sensação de que carrego um mar dentro de mim. Mas não um mar plácido, de ondas preguiçosas e céu límpido. É um mar revolto onde há trevas, frio e escuridão, dessas que afastam os pescadores mais corajosos sobre enormes barcos em uma noite negra e vazia como as noites sem luar. Um mar que não acolhe, expulsa; que não acalma, derruba.
Sinto que tudo que se aproxima acaba sendo devastado pela tempestade. No mar intenso, pessoas, gestos, tentativas de cuidado... tudo naufraga. E eu o assisto, de modo impotente das profundezas da alma, com um verbo de desgraça, com um grito questionador e agonizante. E em resposta, o vento que passa por meus cabelos fugazes responde-me: "pobre órfão! Vagando no espaço em meio a escuridão, mandas um grito!"
Agora. o silêncio preenche o vácuo das palavras não ditas. Um silêncio que não é apenas a ausência de som, mas uma presença pesada que ocupa todos os cantos e ecoa nos meus ouvidos como se zombasse de mim.
Parece estranho, embora este oceano sem fim pareça calmo; engana quem o vê de longe. O abismo azul ataca amargamente e devasta tudo à minha volta. Não é por mal, mas não sei ser porto seguro quando sou eu quem está naufragando e, silenciosamente, eu só queria ter um refúgio em meio às tempestades. Clamo por alguém que me consiga atravessar esse mar, porém minha tempestade turbulenta sacode violentamente os barcos.
Talvez esse mar sempre faça parte de mim e não se trate apenas de atravessar a tempestade, mas de admitir como parte da minha jornada. Com o tempo, quem sabe, eu reconheça que mesmo sendo arrastada para o fundo e sufocada pelo silêncio, isto revele minha resistência e minha capacidade de me manter firme aos meus propósitos.
Afinal, viver quem, sabe, seja isso. Nesse turbilhão, ressoa-me os versos do poeta Castro Alves: "Por que foges assim, barco ligeiro? Por que foges do pávido poeta? Oh! Quem me dera acompanhar-te a esteira que semelha no mar — doudo cometa!" Assim como o Poeta dos Escravos, percebo que viver é, muitas vezes, aceitar o mistério da travessia e permitir que as correntes nos guie, sem abrir mão dos nossos propósitos.
Amanheceu. Vejo a calmaria do mar, cujas águas, mesmo balançando, sabem ser abrigo. Posso vê-las deixar os barcos passarem devagar, junto com o vento suave e o marulhar das ondas. É como se o mar, em sua imensidão, oferecesse passagem segura a quem tem coragem de navegar, mesmo sem saber exatamente o destino. Agora, vejo um farol que me guia a um porto seguro. Estou em terra firme.