Coleção pessoal de hudson_miguel
Ainda Vou Me Lembrar de Você
Quando o tempo apagar as feições que eu decorei,
e a poeira dos anos cobrir as estradas que andamos,
quando os dias passarem depressa sem nos importarmos
com os mapas rasgados e os sonhos que eu desmontei.
Mesmo que o mundo dê voltas que eu nunca previ,
e o destino me leve pra longe de onde te conheci,
ainda vou me lembrar de você.
Vai ser numa tarde qualquer de um outono distante,
ou talvez no acorde de uma velha canção esquecida.
A memória virá como um vento furtivo e constante,
trazendo um recorte de quando você preenchia a vida.
O cheiro do café quente pela manhã na cozinha,
ou o eco de um riso perdido no meio da rua vazia,
farão com que a mente, por um segundo sozinha,
retorne ao exato cenário da nossa antiga alegria.
Lembrarei de como a sua voz acalmava a tormenta,
das noites de insônia trocando palavras banais.
O tempo é um rio que corre de forma violenta;
arrasta as presenças, mas não lava os nossos sinais.
As coisas miúdas, que pareciam não ter importância,
serão os gatilhos que vão encurtar a distância:
o jeito que você olhava antes de confessar um medo,
a mania de guardar cada dor como um grande segredo.
Não será com a angústia de quem perde e não sabe aceitar,
nem com o pranto de quem implora pro passado voltar.
O luto da despedida, com os anos, se torna semente,
e o que era vazio floresce de um jeito indulgente.
Eu serei outra pessoa, com outras marcas no rosto,
construindo outras casas, descobrindo outro gosto,
mas um pedaço de mim estará para sempre ancorado
naquela versão de nós dois que ficou no passado.
A ausência, aos poucos, se veste de paz silenciosa;
já não corta como o vidro, nem fere feito navalha.
Ela vira um farol de uma luz solitária e formosa,
que não guia o meu barco, mas ilumina a batalha.
E assim seguirei, colecionando novas chegadas,
cruzando outros mares, trilhando outras estradas,
vivendo o milagre comum que é sobreviver.
Mas saiba que, no fundo do peito de quem se entregou,
a marca deixada é profunda, não pode ceder.
Quando os invernos pesarem e o meu passo cansar,
quando o último brilho do mundo ameaçar se apagar...
Ainda vou me lembrar de você.
