Coleção pessoal de geanfm
O que somos quando tudo isso acaba? O que nossos corpos se tornam quando chegam ao limite?
Você me mostrou a verdade antes que tudo acabasse. Agora, sinto que não consigo continuar. Sinto que preciso de você. Às vezes, deixo a escuridão me levar o mais longe possível nas noites frias, e tenho a impressão de que isso vai acabar me matando.
Alguma coisa dentro de mim foi destruída.
Sinto que Deus me abandonou. Por quê? Perdi minha fé no dia da sua partida.
Eu sei que esse dia era inevitável. Sei que preciso ser forte. Mas minha alma já perdeu o brilho. Sinto o envelhecimento chegar a cada novo amanhecer.
Eu nunca serei o mesmo, não é?
Sempre procurarei aquele estado de paz em mares agitados. Continuarei me culpando por ser tão apegado, mesmo quando você dizia que eu não deveria.
Sempre odiei despedidas. Há sempre um pouco de verdade em cada última palavra que dizemos.
Às vezes, ainda acordo com medo, mesmo depois dos bons sonhos. Tenho medo de não suportar o peso de tudo isso. E, às vezes, queria poder me permitir ser vulnerável. Queria gritar tudo o que guardo até que minha voz falhasse.
Eu queria ser mais como você.
Pai...
Você já sentiu medo de que, um dia, o peso de todas as dores que carregava caísse sobre você?
Você já teve medo do futuro?
As pessoas estão sempre se curando do amor.
De alguma forma, isso as renova.
É como se estivéssemos sempre nos tornando versões novas de nós mesmos —
moldando um alguém que esteja apto a tentar tudo outra vez.
Vejo isso como uma forma de melhoria:
mexendo aqui, mudando ali,
ajustando pedaços que antes doíam demais.
E, no fim de tudo,
torcemos para que, da próxima vez que nossos corpos e mentes forem danificados,
seja um pouco mais fácil se reconstruir.
E recomeçar.
“Ok, pai, você tem razão. Eu herdei aquele seu lado complicado. Fico irritado quando não consigo resolver as coisas, sou ansioso demais e não sei esperar o tempo agir como deveria. Não sei medir minhas palavras — elas quase sempre soam mais duras do que eu pretendia. E, sem perceber, acabo ferindo pessoas com atitudes impulsivas, tomadas antes que o pensamento alcance o gesto.
Então acho que podemos admitir isso: sou, em muitos aspectos, uma cópia fiel de traços que você deixou como herança. Não apenas no sangue, mas no jeito de sentir, de reagir, de errar. Carrego em mim partes suas que talvez você nunca tenha nomeado, mas que continuam existindo através de mim.”
“Somos marcados pelas primeiras coisas que lembramos na vida. Elas definirão o restante de nossas jornadas; serão as últimas de que nos lembraremos no fim. É nelas que pensaremos nos bons e nos piores dias. Não sei por qual motivo nos apegamos a elas, mas sei que sempre terão uma forte influência sobre nós.”
Conversando com a minha psicóloga, ouvi algo que me marcou profundamente: “Às vezes, deixamos as melhores partes passarem despercebidas porque estamos tão machucados e tão focados nas piores que, quando crescemos, acabamos nos espelhando apenas nelas. E isso nos adoece.”
Carta para o senhor Bento.
Caro senhor Bento, estou em uma viagem até a minha antiga cidade, meu pai faleceu e minha mãe disse que deveria pegar o ônibus o mais rápido possível, eu e ela não temos contato um com o outro a uns 12 anos, parece grosseiro da minha parte nunca ter ligado uma única vez para saber como anda a tia Júlia ou se nosso cachorro, o senhor Raivoso teve uma boa vida, já que seu passatempo era rosnar para todos ou até mesmo ligar para saber como ela estava ou claro, como o papai estava. Acredito que nós dois somos orgulhosos demais para isso, mesmo que ela tenha insistido muito em dizer que eu puxei minha personalidade forte do meu pai, algo que eu descarto até mesmo como hipótese. Não é que eu não tenha pensado nisso, é que acho que nenhum de nós estava preparado para dizer aquelas dolorosas e verdadeiras palavras, e quais são elas? Bem, às vezes eu não tenho certeza quais das milhares das possíveis palavras que se encaixam no contexto, no fim das contas, eu continuo pensando que ela nunca pedirá desculpas pela forma que me fazia sentir tudo, eu ainda consigo ouvir os murmúrios dela, falando em como tudo seria tão mais fácil se eles tivessem feito escolhas melhores, minha mãe sempre falava sobre como a vida dela era boa antes de todo o resto, ela ainda teria um belo corpo, teria liberdade e não estaria trancada a algo que ela no fundo nunca quis, lembro que quando ela foi embora e deixou a mim e meu pai, ela me disse que nunca daríamos certos juntos, de alguma forma, ela estava certa sabe, eu sinto que eu nunca fui um bom filho, acho que eu devia ter me dedicado mais, se eu tivesse largado tudo pelo que eu lutei e tivesse apenas aceitado ficar, acho que seríamos bem mais próximos, mas não sei se deveria sentir culpa por isso…
Que todos os meus amigos sejam como o sol depois da chuva —
trazendo alegria e conforto ao meu coração.
E que, se um dia eles se forem,
eu possa ser grato pelos bons momentos
e pelas pequenas coisas
que, no fim, sempre se tornam as mais importantes.
Que um dia eu tenha a certeza
de que as amizades mais sinceras
são as que mais nos transformam,
e que aqueles que são temporários
são justamente os que mais deixam saudade.
Sou grato pelos bons, velhos e rabugentos amigos da vida —
aqueles que ficam, mesmo quando o tempo muda.
Eu sempre tive dificuldade em falar o que sinto — ainda tenho.
Talvez por isso eu escreva.
Ainda não consigo dizer “eu te amo”, sempre acho que nunca é a hora certa.
Ainda não sei consolar os outros, porque acredito que o silêncio também pode ser um abraço.
Ainda não gosto de abraços, mesmo sabendo que, às vezes, eles transformam um dia ruim em um bom.
Ainda não encontrei um propósito. Não que eu ache que isso defina quem seremos no futuro, mas eu gostaria de me sentir menos perdido.
Começo algumas coisas, termino outras, abandono tantas pelo caminho.
E me pergunto se todos já se sentiram assim — perdidos — em algum momento da vida.
Se sim, como se encontraram no processo?
Há dias em que eu só espero que minha mente desperte, que descubra algum sentido, ou que me conecte a pessoas que também se sintam assim.
Talvez nelas eu encontre uma resposta.
Enquanto isso não acontece, continuo escrevendo tudo que minha mente questiona.
Mãe, você já sentiu a incerteza rasgar o peito a cada decisão? Já passou noites acordada, encarando o medo do que o futuro lhe reserva? Já se arrependeu das verdades ditas em momentos de raiva?
Mãe… você é feliz?
Dizer que não queremos ser como nossos pais já é doloroso; descobrir o quanto nos parecemos com eles dói ainda mais.
Que minha alma seja como um animal selvagem, livre para correr pelos vastos campos, sem amarras nem destino.
Há pessoas que dizem me conhecer por conviverem comigo a vida inteira, mas nem eu mesmo me conheço. Sinto que sou uma metamorfose que nunca encontrou um fim, uma transformação final.
Com o tempo, percebi que correr atrás de alguém que não era meu estava se tornando uma perda de tempo. Então deixei esses sentimentos de lado e segui minha vida. Quando deixamos de nos importar, algumas pessoas começam a nos valorizar, e é aí que percebemos o quanto esperar nem sempre vale a pena. Mais do que uma volta por cima, isso mostra que sou capaz de seguir em frente sem depender de amores que nunca existiram.
Não é possível ter certeza das decisões que tomamos na vida, mas podemos ter esperança de que, ao fim de cada caminho, haverá paz.
