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Coleção pessoal de Eliot

661 - 680 do total de 1102 pensamentos na coleção de Eliot

⁠Triste Balada -

Ái minha vida perdida
que a vivi n'outra vida
minha dura memória!

Ái meu lamento sentido
meu punhal desabrido
sem tempo nem glória!

Ái minha história doida
meu lastro de ferida
na raiz da memória!

Ái minha vida sem nada
de nada marcada
verdade sem história!

Meu caminho sem estrada
minha triste balada
na dolência da Vida!

⁠Tão Longe de Mim ...

Hoje a solidão é mais pesada
a Vida mais cansada e a sorte
tão longe de mim, tão longe!

Hoje a dor é mais agreste
e o Amor que prometeste, sem norte,
tão longe de mim, tão longe!

Hoje o dia é mais nocturno
meu lamento mais diurno, ser forte,
tão longe de mim, tão longe!

Hoje o Fado está cansado
nosso Amor abismo errado e a morte,
tão longe de mim, tão longe!


(Ao despertar das matinas assombradas ...)

⁠O que Nunca te Direi -

Minha vida, sete dores,
à deriva pelo peito,
sete esperanças, sete flores,
que lhes tomam o jeito.

Se eu te pudesse contar
o que nunca te direi
tu ficavas a falar
deste amor a que me dei.

A tristeza ao cantar
vem da saudade sentida
nunca quis saber rezar
nesta ângustia desmedida.

E por este sentimento
que me consome no leito
tenho pena e lamento
trago estas dores no peito.

⁠Maria Triste -

Essa gota que caia
tão serena como a tarde
olhos doces de Maria
num calvário de saudade.

Fonte aguada d'olhar triste
gota breve que jorrava
da tristeza que persiste
toda a gente se afastava.

Se alguém a procurava
dessa água não bebia
gota humilde que passava
gota leve que corria.

Velha lenda, olhar triste
num desgosto que sentia
gota fria que não viste
no olhar triste de Maria.

⁠Toada -

Tenho em mim uma ilusão
no raiar da madrugada
vou salvar meu coração
ao cantar esta toada.

É um fado que me eleva
numa esperança que se ergue
dessa dor que tudo leva
já mais nada me persegue.

Desse Amor perdi o jeito
já nem lembro o seu olhar,
não o quero, não aceito
que me torne a enganar.

Vem a sorte e vem a vida
em seguida outro amor
nunca mais estarei perdida
por quem não veja o meu valor.

Outro amor há-de chegar
é a minha confiança
corre a vida sem parar
e com ela a minha esperança.

⁠Doce Madrugada -

Numa noite, madrugada,
minha triste solidão
que me vive além do tempo,
numa cama já cansada
de esperar teu coração
enlaçou meu pensamento.

Eu dormi no teu silêncio
e acordei este lamento
minha doce madrugada,
meu amor, triste silêncio
meu amor este tormento
não me deixa ver mais nada.

Tua falta, meu amor,
arrefece a confiança
torna grande o meu cansaço,
ai da vida a minha dor
que me deixa sem esperança
na esperança de um abraço.

A minh’Alma tão cansada
já não pode mais fingir
que não está de si perdida,
adeus, triste madrugada,
vou-me embora, vou partir,
p’ro outro lado da vida.

⁠Queixas de um Espirito Revoltado -

Viver o tempo que passa
pregando a dor ao chão
é loucura, é desgraça,
é mastigar o coração.

Apodrecer as raizes
d'um internado que é louco
é lamber as cicatrizes
de quem vai morrendo aos poucos.

Cão vadio porque me ladras
se só quero a tua festa,
já que somos desta raça,
ser vádio é o que nos resta.

E o que dizer da ilusão?!
Que não há corpo nem memória,
não há Espirito, oração,
que lhe possa ter vitória.

Nas veias do pensamento
corre o sangue da solidão
num pensar quase tormento
que nos tolda a razão.

À sombra dos nossos corpos,
projectada na parede,
passa o sonho de estar mortos
de que temos tanta sede.

Somos filhos, rejeitados,
de uma mãe que nos gerou,
somos mortos, condenados,
por um pai que nos matou.

Somos corpos mutilados
pelo tempo que passou,
do rosto que nos foi dado
nem o lastro lhe ficou.

Dão-nos um lamento sem fim
no crispar da persistência,
mas porquê de sermos assim
numa longa inocência?!

Não há verdade nem glória
numa vida sem enredo
não há clareza na memória
de não vivermos com o medo.

Em espartilhos de ferro
num destino que é constante
condenados ao enterro
estamos todos lá à frente.

Como os troncos que são tortos
é pesado amar os vivos,
vou-me embora com os mortos
em velórios proibidos.

P'ró pensar que me desgraça
talvez não tenha solução,
que por mim a vida passa
pregando a dor ao chão.

⁠O Partir da Alma ... dialogo -

ALMA:

- No enlouquecer da tarde fugidia
quem me dera morrer no dia,
ir além, à bravura dos horizontes,
cortar a vida, atravessar as pontes.
Estou só na escuridão dos dias!
Tão só à Luz da noite.
Só há vazio e nada!
Tudo é turvo em meu redor.
É negra a hora ...
Vou-me embora ...
Vou-me embora ...


CORPO:

- E aonde vais ó Alma minha?!


ALMA:

- Não importa! Não importa!
Vou-me embora! Vou-me embora!


CORPO:

- E porque vais? Porque vais?
É mal da vida? É mal d'amar?


ALMA:

- Qu'importa? Qu'importa?
Vou-me embora! Vou-me embora!


Corpo:

- E onde está a esperança?
E onde está a vida?


ALMA:

- Está morta! Está morta!
Vou-me embora! Vou-me embora!


CORPO:

- E Deus? Que lhe fizeste?!


ALMA:

- Morreu! Morreu!
Vou-me embora! Vou-me embora!


CORPO:

- Nada há que te apegue à vida,
nada mais t'importa!
Então Alma, parte, é hora ...
... vai embora ... vai embora!


ALMA:

- Nada me deu a Vida!
Irei ... sem pena ... sem demora ...


DEUS:

- E eis que a Alma, nessa hora, partiu,
JAZ MORTA, JAZ MORTA ...

⁠Meu Estar ... agora -

Agora só num mundo que me apavora ...
Agora só numa ângustia que me bebe ...
Agora só no pulsar da Vida ...
Agora só! Tão só! Que dó!
Dois lamentos, dois destinos,
dois corpos que se entrechocam
no passar das coisas vãs ...
Um é meu! Outro da vida!
Agóra só! Tão só! Que dó!
Nada é longo! Tudo é breve!
Como a morte que sucede
ou a vida que arrefece.
Agora só! Que dó!
À chegada e à partida - sou nó!
Tão só! Tão só!
E alembro os olhos verdes,
espelhados, sem fim,
de uma aurora que me criou!
De uma "velha" que me amou
numa infância JAZ morta.
Minha Avó! Minha Avó!
Que é morta - também!
Estou só! Tão só! Que dó!
Partiu! Não volta!
Minha Avó! Minha Avó! ...

⁠Brevidade do Tempo -

A vida é breve ...
A vida é curta ...
E não há tempo suficiente
para perceber a ligação
entre todos os acontecimentos
que vivemos!
Há que decidir! Caminhar!
Ir em frente! Avançar!
Estar inteiros em cada instante
e em cada momento de vida
por onde passamos.
É só isso que nos resta.
Cada momento como sendo unico
e ultimo ...

⁠Destino sem Rumo -

A minha voz ao cantar
traz um lamento desfeito
é como as ondas do mar
que se enrolam no meu peito.

Canto um fado e outro fado
numa saudade sentida
trago o destino marcado
e a minha vida perdida.

Cantar é saber da vida
o que a vida sabe do mar
quando a vida está perdida
outra vida há que esperar.

À deriva p’la cidade,
procurando outro caminho,
não me deixo ter saudade,
quem se vai, segue o destino.

⁠Raiva e Solidão -

Trago em mim a solidão de um dia triste
trago a raiva de uma noite que não chega
trago a ânsia que me escorre, que persiste,
minha taça de veneno e incerteza.

Meu cálice de piedade e solidão
são as horas que te espero e tu não chegas,
a raiva que me aperta, amarga o coração,
derrama no meu peito flores secas.

É raiva, é loucura, é tormento,
desde aquela hora triste em que te vi,
um cavalo que me sulca o pensamento,
num galope, num passar, longe de ti.

Trago as dores de um poeta que se cala
trago em mim um sofrimento sem perdão
na distância dos teus olhos, que me embala,
agonia é silêncio, raiva é solidão.

⁠A Sós com o Mar -

Nas descalças areias deste mar
recordo o mar que nunca tive ...
... meu sonho feito ao mar!

O destino que sonhei é longe do que sou!
P'ra outro destino não vou!
Dor, espuma, espanto na solidão das ondas
que esbatem nestas rochas!

Eu e Ele a sós! O mar! O mar! ...

É de pedra a minha dor,
é d'água o meu sonho,
meu corpo feito de pó,
minhas lágrimas sem cor ...

E há um pássaro que voa,
um Sol que se esmurece,
eis que passa uma pessoa,
viver assim, ninguém merece!

⁠Tristeza Amparada (ser Poeta) -

Não sei se quero ser poeta!

Amparado ao ombro da solidão,
não sei se quero estar só,
nos braços dos meus versos,
nas rimas do meu fado,
num pensar sem coração ...

Não sei se quero este sentir d'água,
este estar só, acompanhado,
em dias angulares, de amargas culpas,
tão frias como o mar!

Que ser poeta é morte anunciada,
é saudade, turva saudade,
num peito a palpitar,
num corpo a bombear ...

E afinal a que me dei?! ...

Ser poeta é tristeza amparada!
Se a quero, não sei ... não sei ...

⁠Guitarra -

Uma guitarra gemia
a um canto da saudade
se cantava ou se sofria
ninguém via na verdade.

Numa viela sombria
há um canto peregrino
uma guitarra perdia
o pisar do seu destino.

E num cantar de solidão
há uma voz que se levanta
recostada ao coração
é uma guitarra que canta.

Traz uma glória perdida
nos braços tristes de ninguém
há uma guitarra sofrida
chorando triste por alguém.

⁠Da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo -

⁠Era cedo … madrugada …
Pelo ar tua mística Presença, Senhor...
Era cedo, tão cedo … havia névoa!

Mas depois daquela triste noite de vigília
em que o vazio e a solidão
fizeram eco em todos os olhares,
vieste Tu, Senhor, Renascido!

E a névoa dissipou …

A Morte, esse negro cortejo de sombras
p'ra sempre desvaneceu, p'ra sempre se consumiu,
surgindo eleita como a outra face da Vida!

Ressuscitou! Aleluia … Aleluia … Aleluia …

Teu Rosto, Senhor, era Luz,
teu corpo de silêncio, Paz.
E do silêncio dessa Paz
ecoava a Voz-de-Deus,
Sagrada, Divina, Intemporal …

“Eu não morri! Eu não morri! Eu não morri!”

E havia espanto …

Novamente o Véu do Templo se rasgou, desta vez nos corações …
Nada mais nos pode agora separar, Senhor, nada mais …

Porque Tu te revelaste por inteiro,
além de todas as palavras,
além de toda a saudade,
além do silêncio da Morte
na serenidade da Vida.

E a Vida, Senhor, p'ra sempre triunfou!
Aleluia! Aleluia! Aleluia!
Porque Deus Ressuscitou!

⁠Infidelidades -

Dão-lhes uma vida
num mundo tão belo
mas deixam-na esquecida
numa arca de gelo.

Fazem covas na Alma
p'ra não serem si mesmos
mentem, dizem que amam
parecendo cordeiros.

Depois travam o Espírito
que se ergue na vontade
numa Pátria de Proscritos
num viver que é maldade.

Alegram-se de não saberem
o destino a seguir
vão vivendo sem quererem
fugindo sem pedir.

Penteiam na saudade
as Histórias do Passado
numa falsa Virgindade
de um Credo rezado.

Nossos crânios de vidro
estão prestes a quebrar
por sentimentos partidos
de tanto pensar.

E porquê viver a vida
entre gentes tão frias
minha morte é mais querida
minhas noites são dias.

Que só a morte me leva
à verdade e à vida
deste mundo de treva
desta gente fingida ...

⁠Há Noites -

Há noites esquecidas nos teus braços
embalando a solidão dos dias puros
suspirando de silêncio em meu regaço
nascem goivos dos meus passos prematuros.

Há noites que guardamos num só grito
à hora das mentiras de um amor
há palavras que nos deixam sem sentido
caminhando pela vida numa dor.

Há noites que nos deixam para trás
tropeçando no que a vida tem de duro
esquece-las quem me dera p'ra ter paz
pudesse eu apagar teu olhar puro.

Há noites, tantas noites sobre o dia,
e do dia, nada resta, só a noite,
um dia amei alguém que não me via,
e vivi, dias e dias sobre a noite.

⁠Por trás de uma Moldura -

É longa a hora onde
começa a noite escura
e toda a gente se esquece
que o tempo nos adormece
num retrato que se esconde
por trás de uma moldura.

Passa o vento devagar
hora breve de ninguém
hora turva onde somos
lembrados, que já fomos,
quem o tempo nos quis dar
esperando por alguém.

Dança a Lua em dia claro
brilha o Sol em noite escura
num sopro que a Vida esconde,
nessa longa hora onde
fica o tempo que é tão raro
por trás de uma moldura.

⁠Esperando por Alguém -

Vontade que me escalda!
Sentir teu corpo no meu corpo,
olhar teus olhos,
entre frémitos e espasmos.
Ai loucura dos teus dedos
percorrendo as teias longinquas
do meu medo ... eu desejo ...
ser noite, madrugada,
auroras floridas, radiantes,
de petalas no leito, secas,
perfumadas, debruçadas sobre o nada
que somos um do outro ...
... hora amarga, hora doce,
hora de espuma e de espanto!
Onde as linguas, humidas,
tecidas de loucura,
se erguem, tacteando a lucidez
do pensamento sem pensar ...