Coleção pessoal de demetriosena
SEM PÉ NEM CABEÇA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Minha vida parece um poema concreto;
tem os baques incertos; os caminhos tortos;
vai do teto ao porão sem cadência medida,
volta, vai e revolta, se congela e quebra...
Meu enredo é partido em pedaços miúdos
e refeito em mosaico a cada vez que ocorre,
morre tanto que vive de morrer de susto
pra tornar a fazer o percurso ao seu alvo...
Sou sem pé nem cabeça da cabeça aos pés,
um revés que se acerta nos erros em série,
Hiroshima implodida e refeita sem fim...
Porém olhe pra mim; você verá que sou
algo mais do que show pra mostrar personagem
ou miragem de alguém que não há como ser...
ALMAS EQUIVOCADAS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Muito irritado com a visão pessoal de Amâncio, naturalmente oposta à sua, sobre os atuais acontecimentos políticos envolvendo corrupção e impunidade no Brasil, o professor de sociologia, Pedro Amado, disse aos berros: "Deixe de ser burro, idiota e retardado, cara! Mete a cara nos livros! Leia! Só assim você conhecerá um pouco de história, para entender o que acontece de fato, neste país!".
Sem entender bem o enunciado, Amâncio passou a ler. Leu muito, mesmo: Drummond, Bandeira, Cora, Cecília, Quintana, Exupéry... Continuou burro, idiota e retardado para o mestre Pedro, que sabe tudo, mas não tem o dom da concisão. Mesmo assim valeu a pena, pois Amâncio passou a conhecer mais fundo, compreender e se apiedar de pobres almas como a do seu destemperado amigo.
APRENDIZADO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Aprende-se muito com o sofrimento...
mas nunca sofra por não sofrer.
Aprenda outras formas de aprender.
O AMOR COMO PROTESTO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Hoje posso entender, perfeitamente, os que só falam de amor. Cantam, versam, conversam, decantam e vivem toda a entrega dos que amam em forma de arte. Rendo minhas homenagens ao essencialmente romântico, ao brega e ao derretido que parecem não ver o mundo em todas as suas vertentes vivenciais... e ainda se dão ao luxo de serem livres da repressão econômica.
Eles rompem com tudo, se alienam, e mora nisto a não alienação. É assim que fazem o grande protesto sociopolítico. Não há nos poderes constituídos quem os governe ou represente. Mais ainda, eles matam de raiva os intelectuais, os militantes fanáticos ou neuróticos, amantes ou desafetos do governo. Ninguém consegue mentir para suas esperanças em verdades além das emoções.
Os que vivem de amor têm seus castelos, e não apenas de sonhos, ilusões e sentimentos. Também são de alvenaria, luxo e ostentação. Eles têm o poder, porque arrastam corações e perdem noção da própria força. São amados mesmo sem pedir votos, enriquecem sem roubar e não mentem pro povo, pois não precisam; sua verdade casa com a mais profunda verdade que nos habita.
Politicamente corretos em tempos de rebeldia enganosa, distorcida, os artistas do amor são a direita honesta e transparente, além de representar a todos... até os que fingem detestar o derretimento em versos, notas musicais, cores e outras formas de arte. O poder público e seus pingentes nunca entenderão o amor que seduz sem fazer promessa enganosa nem pagar propina.
PRIVACIDADE
Que o cônjuge saiba
em linhas gerais,
o que você faz,
é transparência...
Se o cônjuge sabe
a cada vez,
o que você fez,
é imprudência...
EM TEU PRELO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O que lhe peço todos os dias, em minhas idas e vindas, é que você decida o que pensa e quer de mim. Resolva em seu coração se me permite ou proíbe; foge ou se torna próxima. Quero ver em seus atos o começo de uma relação consistente ou a declaração do fim. O que não posso mais aceitar é o meio termo que vejo entre os parêntesis de seus olhos e atitudes, e nas palavras medidas; comedidas; repletas de silêncio e zelo.
Nunca me considerei um exemplo de comportamento e virtude, mas posso me vangloriar de jamais ter sido mais ou menos. Sempre fui bem torto, e com isto, não confundi meus afetos, o que faria se fosse meio certo; nem certo nem errado; meio lá, meio cá. Não vejo qualquer sentido em ser meio alguém. E como sempre me abri totalmente, com todos os aleijões de minh´alma, de minha forma sem fôrma de ser, peço que você tranque ou abra de uma vez o seu coração para mim. Que me admire ou despreze. Convide ou expulse.
Quando sua velha gangorra finalmente cessar, triste ou alegre terei paz. Saberei se retorno deste ponto... se devo ir em frente. Verei se a distância tem algum horizonte, no que tange a você. Para tanto, você tem que ser quem é para quem sou. Aconteça o que acontecer, só me tire desse prelo. Seja flor ou espinho e me deixe optar, sem temor nem dúvida, entre querer ou rejeitar definitivamente o que sua sinceridade me ofereça.
BICHO BELEZA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sei que bichos mais livres estão por aí;
o calango, a serpente, o gavião e o lobo;
será bobo quem julgue ter mais céu ou chão
pra chegar e sair quantas vezes quiser...
Depois deles sou eu quem tem mais liberdade
de sonhar e querer, de sentir e pensar,
ter a própria verdade, criar sua lei,
ser caçado e caçar ao sabor dos instintos...
Não há bicho tão livre para ser quem é;
ser ateu e ter fé; cair fundo e voltar;
conquistar e perder, sem se perder de si...
Revirando meu lixo concluo e confesso;
muitos bichos mais soltos estão neste plano,
mas dos bichos humanos ninguém é mais bicho...
EMPREENDIMENTO E APREENSÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Que nenhum empreeendedor seja ganancioso ao ponto extremo de se tornar um apreendedor da oportunidade alheia.
POBREZA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenho preconceito de pobres. Acho que todos podem ser ricos. Até mesmo os ricos. Pobreza de espírito é para pessoas intimamente acomodadas.
NOVA ESPERANÇA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O caminho é pra frente, há seus atalhos,
os recuos que o mundo nos impõe,
atos falhos de saudades vencidas
entre pausas marcadas; pontuais...
Mas as nossas verdades nos despertam,
nos convocam pro tempo que não dorme,
pois manhãs preguiçosas viram tardes
e depois aceleram rumo às noites...
Uma vida requer algumas mortes,
marcas, cortes e muito sangramento,
nem por isso incentiva desistências...
Reticências apontam pro futuro;
só existe passado pra lembrança;
ponha nova esperança em sua grama...
AMOR E MEDO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Meço a voz, a palavra, os olhares que fluo,
tenho todo o cuidado pra não te afastar,
meio vou mas recuo de minha investida,
volto e volto a voltar, é meu quase constante...
Sonho tanto acordado quanto quando sonho,
depois durmo pro sono que tento dormir,
pois não sei se me ponho, me tiro do ar
que respiras e prendes em minha presença...
Caio em mim onde sobro na tua verdade,
logo tenho saudade, me chamo e respondo
para dar o que tenho aos temores de sempre...
Sei que sabes que sei que sabes o que sinto,
mas exponho e desminto, porque sinto muito
por mostrares tão pouco do que sou pra ti...
CRONIQUINHA SEM VERGONHA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Entre o safado e o sem vergonha existe uma diferença considerável. O safado é um sem vergonha com intenções ocultas ou escusas. A sua sem-vergonhice tem alvo externo; quer sempre algo de alguém.
Já o sem vergonha é um safado sem malícia. Ele apenas não tem vergonha; sua safadeza é natural. Não estabelece alvo, resposta nem projeto externos, quando a exterioriza.
É meio louco escrever isto. Quem leu esta insanidade poderá desler, para se despir do risco de já ter gostado. Quanto ao mais, perdoe este sem vergonha pela safadeza de ocupar seu tempo com esta croniquinha.
AMOR VERBAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Prestar favores que não demandam sacrifício... fazer gentilezas que não pesam... oferecer solidariedade ativa que não traz prejuízo, são atitudes básicas... o mínimo que devemos fazer por quem podemos alcançar. Mesmo assim, classificamos tudo isso como dar moleza e falamos cada vez mais em amor ao próximo.
VIDA IRREAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A vida real se revela
tão assombrosa e desumana
ou tresloucada e descabida,
que a mais absurda novela,
quanto mais nos pareça insana
mais se parece com a vida.
PASTO AFETIVO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Traio todas as notas do silêncio em mim,
pois me rendo aos teus olhos cravados nos meus;
é assim que me perco do velho equilíbrio
com que acho saber o que faço aqui dentro...
Há um eu movediço no abismo que trago,
quando a tua presença me faz recuar,
tem um vago sentido que paira na treva
do meu ar preguiçoso; meu cosmo secreto...
Eu me abro no quanto me fecho pra ti,
sou exposto à medida que tento não ser
e vencer o que vence a razão embotada...
Sabes como arrancar a confissão retida,
minha vida se torna o teu filme já gasto,
se me perco nos pastos da tua expressão...
QUASES
Demétrio Sena, Magé - RJ.
É assim que acontece; caio e voo;
vou de novo; depois, torno a voltar;
deixo estar, logo deixo de abandono,
quando volto a me ver ao ver teus olhos...
Faço festa e desfaço meu roteiro,
pois desmontas, remontas o cenário;
sou inteiro, porém me despedaço
e me torno lendário pro meu mundo...
Venço e perco pra minha fantasia;
cada dia me pega de surpresa
com a outra versão do teu humor...
Não consigo encontrar as tuas fases;
olho, enxergo, não leio tanta lua;
chego aos quases e o pé retoma o chão...
MINHA FUGA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Trago medos na mala e desejo trocá-los
por motivos reais de não sentir mais medo,
tenho calos no espírito e muitas lembranças
que preciso vencer pra me tornar seguro...
Guardo sonhos antigos, acumulo novos
lá no fundo insondável de minhas verdades,
massageio saudades que me causam dores
e às vezes nem sei em que momento estou...
Quero apenas fluir e vencer tanto nada
sobre tudo que a vida pode ser pra mim,
mas no fim do meu ser se desintegra e some...
Só preciso encontrar a coragem profunda
que se tranca e me pune por todo silêncio
com que fujo do mundo e não vejo ao redor...
DESPERDÍCIO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Você me acende; não fuma;
também me adoça; não bebe;
me faz cair numa rede,
mas não me salga nem come...
Meu sonho nunca se apruma;
o corpo então não concebe
a falta de fome da sêde;
a falta de sêde da fome...
TURISMO VISUAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Meu olhar desconhece um prazer mais fiel
que tomar os caminhos notórios em ti,
resvalar no teu céu entre nuvens de rendas
e sonhar que cheguei, como nunca será...
Faço ebó ao delírio dessa encruzilhada,
quando cruzas os rumos que levam à fonte;
como quem não quer nada, nada quero além
do que as águas discretas que brotam ali...
De repente os teus montes me chamam curvados;
quero todos os lados; não paro em nenhum
e me perco tentando encontrar equilíbrio...
É apenas turismo dos olhos vencidos
pela breve paisagem de todos os dias;
umas vãs utopias que brotam da pele...
TALVEZ
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O talvez é sinônimo de não...
mas não tem alicerce; fundamento...
é um não com direito ao arrependimento.
