Coleção pessoal de demetriosena

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Crônica Abstrata


Demétrio Sena - Magé


Justa ou injusta, moderada ou extrema, o grau de confiança que temos numa pessoa depende apenas de nós. E diz respeito somente a nós. O que não dá para decidirmis conforme os nossos caprichos, é se haverá confiança, e caso haja, qual deverá ser o grau de confiança dessa pessoa, não em nossa pessoa, mas em nossa confiança. Muitos têm essa consciência, cotidianamente; no entanto, às vezes pecam por se assegurarem de pactos nunca feitos.


Não importa o grau de confidencialidade ou aproximação, mesmo tátil, que por acaso tenhamos com quem não temos relação amorosa. Essa pessoa nunca deverá ter de nós qualquer palavra ou gesto que sinalize para uma tentativa inconveniente. Para uma forçação de qualquer natureza. Ninguém tem como saber das nossas expectativas ou intenções; logo, ninguém pode se sentir cobrado, como se devesse uma reciprocidade que não foi prometida. E ainda que tivesse sido, essas questões não são leis; ninguém é obrigado a "cumprir" com o outro o que é de foro íntimo; envolve suas emoções e particularidades.


Algumas vezes nos tornamos armadilhas para nós mesmos, nessa dependência do que julgamos espelhos ou cavernas cujos reflexos ou ecos não estão sob o nosso controle. O outro deve ser sempre visto como o outro. Como indivíduo dissociado de nós. Qualquer associação, verbalizada ou silenciosa, deve ser uma simbiose desarmada; um encontro natural. Esta crônica é abstrata. Pode ser ou não sobre você. Logo, você decide o contexto, o sentido e a conclusão.
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Respeite autorias. É lei

Pobre contra pobre

Demétrio Sena - Magé

Os políticos e seus assessores têm todos os benefícios imagináveis (ou inimagináveis), para complementarem seus salários indecentemente polpudos. A folha de pagamentos do Congresso Nacional, por exemplo, corresponde a um valor maior do que toda a arrecadação de algumas cidades brasileiras. As folhas de pagamentos de câmaras estaduais e municipais não ficam muito abaixo. Em suma, os politicos e seus pingentes, em um todo, sugam quase toda a economia do país.

Além dos salários indecentes, os ocupantes do poder público têm vale paletó, vale combustível, vale viagem entre outros, correção salarial acelerada e, anteontem, assisti a um noticiário que informava sobre passarem a receber vale peru e vale panetone. Enquanto isso, bolsonaristas pobres atacam pessoas ainda mais pobres, desempregadas e sem o mínimo para sobreviver, porque elas recebem micharias de vale gás, bolsa família, loas, e os estudantes pobres recebem o pé-de-meia, para terem condições de concluir seus estudos sem o impedimento da fome.

Para bolsonaristas, especialmente pobres, os ricos é que precisam de auxílio. Chegam a fazer envios de seus poucos recursos, via Pix, aos políticos, pastores midiáticos e outros poderosos que os comovem nas mídias. Não ajudam familiares nem amigos em situação de vulnerabilidade e chamam os ainda mais pobres de vagabundos. Mal sabem (ou não sabem) que também são chamados de vagabundos pelos vagabundos que eles ajudam a ficar cada vez mais ricos e vagabundos.
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Respeite autorias. É lei

PARA LAURA CARDOSO

Demétrio Sena - Magé

(Minha tietagem à Dona Laura tem motivo específico: sua personagem no remake da novela Irmãos Coragem, anos atrás, lembrou muito minha mãe, nas expressões, na maneira de falar e principalmente nos olhos. Foi daí que passei a prestar atenção no talento genuíno dessa atriz e no caráter da pessoa, pelas entrevistas que assisto, quando posso. O texto abaixo não é recente; já o publiquei, pouco depois da novela, e hoje senti o desejo de republicar, tocado por saudades de minha mãe)
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Já te odiei muitas vezes. Tantas outras te amei. Senti raiva, ternura, nojo, piedade, simpatia e desprezo. Mescla indizível de sentimentos, e todos eles bem acompanhados de um, em particular: emoção. Sempre muita emoção.
Tive (e tenho) tudo isso por ti, porque teu talento me fez ter. Continua fazendo, à guisa das damas e indigentes, heroínas e vilãs, peruas e matriarcas, camponesas e outras personagens simples que tiveram a honra de ser vividas (e continuam sendo) pela tua excelência e magnitude artísticas.
Quando assumes tuas personagens, não apenas atuas. Tu és as próprias, interinamente, no espaço em que as câmeras te focalizam fazendo recordar que nós, expectadores, aguardamos convictos de que nos farás viver intensamente as tramas fantásticas do faz-de-conta. Tramas tristes e alegres, hilárias e sérias, profundas e superficiais, todas muito bem assumidas pela tua genialidade.
Não sou teu fã, porque fã é "nático" e quer pedaços do ídolo, pontas da estrela, cascalhos do astro. Sou admirador silente... e dispenso autógrafos, abraços, conhecer pessoalmente, roubar casquinha do teu brilho de primeira grandeza.
Esta crônica só quer desatar o nó; só deseja eclodir a manifestação, fazer modesta justiça. Juntar-te nestas pautas, a outros veteranos que estão no teu patamar, mas que são mais alardeados, embora eu imagine que nem busques alarde, badalação, grandeza.
Quero, enfim, manifestar meu ódio, amor, desprezo, ternura, nojo e raiva de ti... sempre amando a maestria com que me fazes sentir tudo isso.
E te amando em cada personagem.

Em menos de dois anos, dona Laura completará cem anos de vida... e de muitas emoções divididas com todos nós.
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Dormência


Demétrio Sena - Magé


Um desejo de nada e de ninguém
toma todos os cantos do meu ser,
quando vem esta carga de lembranças
pra dizer que passei do próprio tempo...
Chove todo vazio deste mundo;
todo estoque de sombra e solidão,
e me sinto profundo igual cisterna
em um chão de aridez absoluta...
Não encontro ninguém em tanta gente;
frente fria empanada por presenças
carregadas de ausências infinitas...
É difícil saber por que não sinto
meu instinto arvorar sobrevivência
nessas horas dormentes e sombrias...
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Dois Mundos

Demétrio Sena - Magé

Em qualquer circunstância ou contexto ficaremos bem, se não dependermos de fatores externos para isto. Ou quando formos livres o suficiente para separarmos o que acontece ao nosso redor, inclusive conosco, da nossa estrutura psíquica; emocional. Há dois mundos distintos, para vivermos. Vejo como perfeitamente justo e necessário que o mundo interno seja o nosso refúgio, sem resquícios do externo, quando a "barra" está pesada. Quem sabe fazer isso vive melhor, porque tem onde se refazer; se remontar e redefinir para mais um dia inevitável. Pelo menos enquanto for inevitável mais um dia.

E, surpreendentemente, se soubermos manter a contento esse refúgio dentro de nós, e usá-lo com a sabedoria necessária, como já exposto, a superfície (o mundo externo) será beneficamente atingida. Ficaremos melhores, mais equilibrados, organizados, fortes e otimistas, no cotidiano. Para tanto, será sempre fundamental não dependermos de que ou quem nos rodeia, para nossa plena manutenção. Se não delegarmos a ninguém, o peso de ser nosso arrimo afetivo nem mental. Precisamos conviver com pessoas; interagir, aprender, ensinar e confidenciar. Mas não podemos viver das energias delas.
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Quando não sabemos de que lado estamos

Demétrio Sena - Magé

Preocupa, em alguns partidos que se denominam de esquerda, não exatamente o fazer críticas às falhas do atual governo, também de esquerda, e sim, uma campanha sistemática contra ele. Dessas campanhas abertas e imprudentes, ininteligíveis, que oferecem munição à direita em um momento bem delicado e de polarização talvez maior do que na última eleição presidencial. Enquanto isso, os partidos da direita/extrema direita, que não são bobos, unem-se cada vez mais e se fortalecem para suas campanhas.

O que esses partidos farão na próxima eleição? Serão aquelas oposições disfarçadas de "nem Bolsonaro nem Lula", sendo ele a única pessoa, neste momento, capaz de afastar de uma vez a sombra do extremismo da direita? Depois disso, tudo poderia se recompor e assim surgiriam vários nomes fortes de uma esquerda reorganizada e unida. Vejo nesse "cabo de guerra" interno, muitas formas de ser bolsonarista. Uma delas é com o discurso de nem um nem outro, que pode restituir o poder máximo da nação, com Câmara, Senado e tudo, aos ratos da direita, que acabaram de sair de lá. Não é hora desse extremismo (nem estrelismo) que pode pôr tudo a perder. A direita sempre foi forte, por entender que a união de todas as mentes alinhadas nas horas extremas é fundamental.

O governo está cada vez mais pressionado a tomar atitudes questionáveis, exatamente por essa desunião; esse cada um por si. O arroubo de certas militâncias, que se julgam mais esquerda que outras. Se o Lula, único nome capaz de protagonizar nas próximas eleições, conseguir mais um mandato, em quatro anos as eleições voltarão a ser como já foram: muitos nomes fortes, capazes de vencer, fazer o congresso, reunir os outros em possíveis segundos turnos e formar governos imunes a chantagens externas.

Pode ser fatal, darmos de presente à direita o discurso de que nem a esquerda está com a esquerda, e cá para nós, eles manipulam isso muito bem. Já demos muita munição aos verdadeiros inimigos, nessa brincadeira sem graça de velados inimigos internos. E não nos esqueçamos: não é só do Planalto que precisamos, para termos um governo equilibrado e forte. Precisamos também de maioria no Congresso. Essa maioria pode muito bem ser formada pelos que visam sem nenhuma condição, pelo menos por enquanto, a Presidência da República. Será que não vale a pena pensarmos nisso?
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Infelizmente, só pode ser...

Demétrio Sena - Magé

Se a pessoa maltrata - e mata - animais. Se espanca os filhos ou põe panos quentes em suas atrocidades. Quando a pessoa é capaz de um feminicídio, ainda por cima na presença de uma criança, geralmente filha ou filho... é capaz de um homicídio por motivo fútil; de uma bravata violenta em lugar público, e de um ataque maciço, com expressão de completa normalidade.
E se esse indivíduo truculento, machista, racista, homofóbico, sanguinário e fanfarrão se esconde numa igreja... no porte ostensivo de uma Bíblia... em trajes típicos de "cidadão/cidadã de bem" - olhe bem as aspas - ... se não sabe conversar, só impor no grito; se não suporta ideias opostas nem modos diferentes de pensar e ser... ataca os fiéis de outras crenças, procura incansavelmente na web notícias falsas sobre sociedade, política, pessoas públicas, cultura, literatura e seus fazedores, para republicar como reais... e detesta universidades, professores em geral, cabeças pensantes, personalidades próprias e livres...
Por fim, se a pessoa se põe acima do bem e do mal; tem O Possível Deus como seu Capanga; torce contra o próprio país, chegando a desejar - e pedir - que outro país lhe atire bombas... se acredita em um político moleque e vagabundo (que vaga, enquanto sua vaga ou cargo fica sem utilidade) ... e vê como benção, ser atingida por um raio, no meio de uma manifestação ensandecida e sem sentido... acha lindo cair no ridículo, quebrar patrimônio público, fazer cocô em cadeia nacional, pedir o retorno da ditadura, sem ter ideia do que isso representa.
Salvaguardadas as exceções, a criatura que é assim... que admira e apoia quem é assim... ou explora quem é, sendo mais esperta, porém maquiavélica, só pode ser bolsonarista. E se você disser que é bolsonarista, mas não tem nem uma dessas características, o que me resta é crer na sua palavra e dizer o que penso a seu respeito: você só não está do lado certo.
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Solitário


Demétrio Sena - Magé


Acredito não ter te soletrado
como pedem as notas da razão,
porque dei a momentos singulares
uma frágil versão de sintonia...
Jamais quis estender a confidência;
te levar ou trazer além das linhas
da regência e da própria sensatez;
o bom senso das minhas emoções...
Nunca tive um arroubo destoante,
um instante propício à decolagem
ou ao roubo da minha sanidade...
Mesmo assim era tudo solitário;
um ovário sem vaga para gêmeo;
horizonte com linha de cerol...
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Das procuras perdidas


Demétrio Sena - Magé


A confiança irrestrita e recíproca, em situações absolutamente impensáveis, de tão inusitadas, é algo extremamente compensador. Não tem preço. É quando a forma de respeitar e se sentir respeitado quebra todos os protocolos sociais de respeito... o contexto de se sentir seguro com alguém surpreende a todas as sensações interpessoais de segurança. Em especial, pela existência de um justificado "pé atrás" com o próximo, cada dia mais distante nas nossas expectativas.


O ser humano é incompleto porque, reservados os fenômenos, não confia nem desfruta dessa confiança. Não respeita nem é respeitado dessa forma solta e desastrelada dos critérios estabelecidos. Não sente nem passa uma segurança dentro desse contexto desarmado, entregue feito salto no abismo. Tudo é muito específico, pontual, pessoal, e demanda observações muito íntimas, unilaterais, com vista para grandes equívocos. O pior em tudo, é que de fato existem muitas e multiplicadas razões para tanta casca, tanto escudo e reserva, porque a regra da maldade humana comum transformou a confiança e a entrega desarmadas em exceção absoluta.


Qualquer "destransformação" pontual dessa realidade configura uma evolução revolucionária. Quem sabe, uma revolução evolucionária. Ou simplesmente uma reevolução... se é que algum dia fomos, de fato, evoluídos a tal ponto. Algumas procuras (como desse contexto de relação interpessoal) costumam ser para sempre. A procura, por si só, é uma tábua de salvação contínua e imperceptível. O problema não está em achar ou não. Está na desistência total da procura.
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Dreno


Demétrio Sena - Magé


O que acho, no fundo, ser essência crível,
pode ser bem daninho para lá da curva,
onde a vista já turva não enxerga o outro
como alguém que já lida com suas verdades...
Não será natural por eu julgar que sim,
minha forma de achar um atalho pra fuga
para fora de mim e dos meus desencontros
ou das próprias amarras existenciais...
Ninguém tem que ser colo da criança interna
que pulou na cisterna das próprias angústias
e no seu narcisismo se distribuiu...
Porque vejo no raso da profundidade
que parou minha idade numa fantasia;
todos têm um avesso; pra virar ou não...
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Considerações amadoras sobre confidência profissional

Demétrio Sena - Magé

Meio mundo, em algum momento, precisa de um psicólogo/psicóloga. Psicologia é um ramo da medicina que se pode chamar de oficina do ser humano. Já precisei, embora tenha explorado "extraoficialmente" uma grande amiga psicóloga. Há casos em que algumas sessões nos ajudam por toda a vida, e casos em que, por toda a vida, precisamos de revisões pontuais, para não voltarmos ao ponto de partida. Ou de fuga. E antes de prosseguir nestas impressões pessoais, é preciso dizer que são impressões pessoais; isto não é uma analogia técnica ou de natureza profissional.

Mas quero falar de uma terapia muito eficaz, que sempre me ajudou em minhas angústias, dúvidas e manias.... em meus temores e segredos em ebulição: a confidência. Confidenciar é um ato libertador, quando acertamos na escolha de com quem fazê-lo. Ter confidentes é algo cada vez mais raro nesta fase de mundo e sociedade, onde a correria rouba todo o nosso tempo de falar e ouvir... especialmente o nosso tempo de identificar criteriosamente em quem poderíamos acreditar para fazer confidências; abrir nosso coração, nossa alma, sem temer julgamentos e censuras do que é justamente a nossa razão de procurarmos um colo.

A confidência é curativo; profilaxia paralela; nebulização... às vezes uma injeção de Voltarém na alma, nas emoções e na psique, pois há momentos em que um bom confidente precisa ser mais incisivo, para depois passar um algodão, aliviar a picada com o carinho que "o depois" requer. E como confidentes estão escassos, aí é que entra a psicanálise, tão popularizada nos últimos anos. A psicanálise à moda Freud, pai da psicanálise. Não a psicanálise/pregação religiosa; nem a psicanálise/aconselhamento pastoral; muito menos a psicanálise/vamos orar, entregar nas mãos de Deus.

Em suma, relembrando a natureza do texto, explicada no primeiro parágrafo, a psicanálise é a confidência profissional. Importantíssima nestes tempos, desde que não tenha a venda casada da proposta religiosa e qualquer dissociação dos princípios freudianos. Ou seria a psicanálise despsicanalizada. Neste contexto, a psicanálise é (com pleno reconhecimento de sua importância) a enfermagem da psicologia. Eu diria que um quarto de mundo precisa de confidente; mesmo em forma de psicanalista.
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Miragem


Demétrio Sena - Magé


Solidão franca e justa pra quem sente
um Saara completo no seu sótão;
dor de dente na boca estomacal
desdentada e desnuda; sem amparo...
Destronei uma espera tão distante;
que a carência inventou ser consistente;
minha estante já tem mais um volume
desta longa e profunda distopia...
Já entendo que sou indivisível,
como sou invisível onde os olhos
não alcançam; nem têm esse dever...
Ter pessoas, mas não a simbiose
ou a dose de alguém que seja enxerto,
será sempre miragem; não oásis...
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Oportunismo gospel de massa

Demétrio Sena - Magé

Faz tempo que a música gospel brasileira deixou de ser sagrada; um ato litúrgico. Tornou-se modão e, diga-se de passagem, modão de mau gosto. Atua lado a lado com a música pop-sertaneja, que de sertão não tem nada; pois, reservadas as exceções, é feita de gritos que exaltam machismo, traição e valentia.

Multidões de cristãos e não cristãos são arrastadas aos grandes shows de artistas que não fariam, não fizeram ou deixaram de fazer sucesso na música secular. Hoje o gospel faz sucesso, não como forma de adoração religiosa, e sim, de culto aos próprios cantores e cantoras. Esses artistas pulam, gritam e/ou fazem caretas como qualquer ídolo pop ou sertanejo, ao som de supostos hinos que imitam ritmos seculares da moda e acrescentam lamúrias e desespero, para temperar os shows de uma emoção cavada, exigida e de efeitos neurológicos. Não há imitações gospéis da MPB, pois o bom gosto musical pode significar o fracasso sumário desses cantores, em razão das preferências do seu público.

A esperança está na certeza de que os modões passam. A boa música, secular ou religiosa, permanece. Com o tempo, as músicas de natureza duradoura se sobressaem à futilidade das que chegam para saturar, faturar ao máximo e sugar os artistas meteóricos, que logo serão esquecidos. Da mesma forma, esse cristianismo bufão, cabo eleitoral de políticos extremistas, negociador de rebarbas do poder público passará. Não sei quando, mas passará. Ficarão os cristãos e outros religiosos cujos objetivos são os assuntos relacionados à fé sincera e genuína e à espiritualidade serena, humilde, centrada na busca do aperfeiçoamento das virtudes reais e plenas.

O caminho do cristianismo se tornou muito largo. A religião virou força terrena e já não cultua o sagrado, mas a si mesma e aos poderes terrenos que lhe dão vantagem e força intimidatória contra as minorias. Em suma, esse cristianismo tem o sinal da besta, que facilita seus caminhos e dá poder de "carteirada".

E a música gospel, ao melhor estilo "poltergeist adaptado" é a grande parceira nessa hipnose, abdução ou convulsão coletiva.
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Ciclos

Demétrio Sena - Magé

É difícil fecharmos os nossos ciclos... eles nos envolvem; são senhorios; não inquilinos de nossos caprichos. Ciclos são como círculos que delimitam as nossas fases. Não podemos despejar com facilidade o que nos abriga, e não o contrário. São necessárias algumas resistências e viradas, e há ciclos imensos, que nós passamos muito tempo tentando superar.

A questão é vencermos a nós mesmos, antes de partirmos para o enfrentamento contra o que nos rodeia, cerca, enclausura, "embarrica". E tudo fica mais difícil, se algum de nossos ciclos está confortável para nós... queremos mantê-lo, mas precisamos fechá-lo por pessoas muito queridas, que a nossa visão de comum, despojado e natural enreda ou elege, unilateralmente. Precisamos renunciar ao porto seguro, para que essas pessoas possam fluir pela bolha rompida e se livrar do que jamais pediram para viver a reboque dos nossos eus.

Em suma, fechar ciclos não é uma decisão caprichosa que resolvemos tomar como um truque de mágica. Decidirmos as nossas questões, não raramente envolve desatar os nós que tais questões ataram em outras vidas. Precisamos fazê-lo com muito critério e respeito por quem, de alguma forma, está em nossos ciclos... e não temos ideia de como será impactado.
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POEMA TEDIOSO


Demétrio Sena - Magé


Amanheço e repito meu dia de sempre,
ao chegar de uma noite que se repetiu,
cujo sono caiu na sistema de sonhos
processados em lenta rotatividade...
Mais um dia moroso pra levar nos pés,
arrastar junto às horas que fazem mistério,
pra contar até dez e depois repetir,
sem levar muito a sério viver ou morrer...
Tedioso poema que agora se faz,
numa paz conflitante que pesa fingir,
no frigir dos miúdos do meu organismo...
Anoiteço e nem vi a passagem do dia,
uma vida vadia se guarda nos panos
dos "desplanos" que faço pra nova manhã.
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Sem saber por que


Demétrio Sena - Magé


Jamais fiz uma festa por sair ileso,
quando algum infortúnio colheu outras vidas;
nem sorri entre os ferros do meu egoísmo
sem olhar pras feridas em ferros torcidos...
Não me presto a louvores ou ações de graças
com estrondos e gestos de felicidade,
se restaram desgraças da sorte que tive;
alguém chora saudade precoce de alguém...
Gratidão egoísta se tem em segredo;
um enredo em que outros amargaram fim
dói até nesse alívio por isso incompleto...
Nunca pus minhas mãos pareadas pro céu,
por alguém que se foi onde fui sorteado
pra ficar mais um pouco sem saber por que...
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Transbordando

Demétrio Sena - Magé

A saudade que levo é de algum tempo
muito antes da bolsa que habitei,
vem de quando não sei nem rebuscar
nas memórias em sobreposição...
Ela dói com pungência que aprecio,
pois me dá fundamento; identidade;
tece um fio que aponta pro sentido
que não vejo nos dias por aqui...
Peço a volta no tempo inexcrutável,
já não acho saudável tanta marcha
neste rumo que aponta pro vazio...
Quero ir, os meus passos estão leves
e preciso entender a própria rota
ou a gota que avança minha margem...
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"Sombriedade"

Demétrio Sena - Magé

Tenho por hábito introspectivo me sentir julgado. Permanentemente julgado. Por palavras atravessadas, palavras não ditas entre as que se apresentam, e também por silêncios, distâncias, recolhimentos específicos e olhares. Diretos ou oblíquos. Inclusive de pessoas que deveriam me conhecer muito bem.

Habituei-me a ser visto como alguém sombrio, neste país de tantas religiões das quais nenhuma é a minha. E sendo visto como alguém sombrio, por mais espontâneo, leve, sem mistério que eu seja - e sei que sou -, já enfrentei suspeitas de que tenha feito algo sombrio, não poucas vezes. Do nada. Simples e absolutamente do nada. Algumas vezes, sem nem ter havido algo sombrio para se atribuir a alguém. Com a única motivação externa, da minha não religiosidade... ou do que classificam como falta de Deus no coração.

O que me assusta é ver tanta gente "com Deus no coração" fazer tantas coisas sombrias e se julgar iluminada, simplesmente por carregar a marca de uma religião; majoritariamente, cristã. Ou os preconceitos não são sombrios? Julgamentos, machismo, idolatria política, violências verbais e até físicas contra quem pensa, crê, vota diferente... exclusão, separarismo, ódio religioso... tudo isso é sombrio e me dá medo. Meu coração não sossega, não porque me julgam sombrio, mas porque vejo tanta sombra nisso.

Ninguém se arme. Nem se alarme ou se auto flagre com estas ponderações. Não estou pensando especificamente em você. Nem tenho como saber o que abarrota o seu coração. São apenas observações introspectivas, que ora "extrospecto" para suportar a sociedade que me cerca. A sociedade que sou.
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Recônditos de mim


Demétrio Sena - Magé


Meu olhar sobre o mundo me apreende,
porque tudo caminha rumo ao nada;
quase prende o meu ar onde não sei,
pois é fundo; em recônditos de mim...
Levo a vida com peso de cimento,
minha entranha se arrasta sem destino,
levo meu pensamento em labirintos
e me sinto menino em um deserto...
É que o mundo me liquidificou
em estados opostos e confusos;
parafusos mentais; farpas rasantes...
Minhas asas estão em desalinho;
só há ninho possível pros meus sonhos,
onde o mundo não pode me alcançar...
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Enquanto amamos ou odiamos sandálias


Demétrio Sena - Magé


Cenários graves vão se desenhando, enquanto criam cortinas de fumaça, como a polêmica fútil sobre amar ou odiar as Sandálias Havaianas. Leis do poder público em diferentes instâncias contra o cidadão brasileiro, notícias importantes sobre decisões sociais que podem mudar nossas vidas, agendas culturais relevantes e avanços científicos globais passam por nós, enquanto estamos ocupados com futilidades. O ataque dos Estados Unidos à Venezuela, por exemplo, foi um processo não percebido a contento, em razão do excesso de memes vazios que abarrotam a internet, mundo ao qual dedicamos boa parte de nossas vidas, mas não de modo adequado. Aceitamos notícias sem procedência, provocações que não merecem atenção e bolsonarismos comportamentais que já devíamos ter enterrado, enquanto passam "boiadas" decisórias dos poderes, quase sempre danosas para o cidadão comum.


A internet é rica em informação, arte, literatura e outros assuntos relevantes (entre preocupantes e prazerosos) que perdemos, porque estamos quase sempre concentrados em trocas de farpas improdutivas (existem farpas produtivas?), memes e brincadeiras que camuflam assuntos, informações e novidades que podem ser essenciais para nós. É ruim nos divertirmos na internet? Não. Claro que não. A diversão, o entretenimento e até as trocas de gozaçoes fazem parte da vida, dentro e fora do mundo cibernético, mas... não podem servir para nos alienar e deixar de fora dos acontecimentos e até das decisões internas e mundiais que têm o poder de mudar as nossas vidas. Para melhor ou pior. Temos uma ferramenta fantástica de avanço pessoal e corporativo, porém, usamos essa ferramenta contra nós mesmos.


Sem abraçar alarme, sensacionalismo e terror, cada cidadão deve dividir seu tempo entre os prazeres pessoais e as atenções que nossa cidade, nosso estado, o país e o mundo exigem. O avanço tecnológico cibernético deve significar nosso avanço como ser social; não o nosso retorno à idade média. De que nos vale uma conexão que nos desconecta com a realidade, transformando em mundinho pessoal o nosso acesso ao "mundão" em constantes transformações políticas, sociais, culturais e civilizatórias?
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