Coleção pessoal de demetriosena
Dreno
Demétrio Sena - Magé
O que acho, no fundo, ser essência crível,
pode ser bem daninho para lá da curva,
onde a vista já turva não enxerga o outro
como alguém que já lida com suas verdades...
Não será natural por eu julgar que sim,
minha forma de achar um atalho pra fuga
para fora de mim e dos meus desencontros
ou das próprias amarras existenciais...
Ninguém tem que ser colo da criança interna
que pulou na cisterna das próprias angústias
e no seu narcisismo se distribuiu...
Porque vejo no raso da profundidade
que parou minha idade numa fantasia;
todos têm um avesso; pra virar ou não...
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Respeite autorias. É lei
Considerações amadoras sobre confidência profissional
Demétrio Sena - Magé
Meio mundo, em algum momento, precisa de um psicólogo/psicóloga. Psicologia é um ramo da medicina que se pode chamar de oficina do ser humano. Já precisei, embora tenha explorado "extraoficialmente" uma grande amiga psicóloga. Há casos em que algumas sessões nos ajudam por toda a vida, e casos em que, por toda a vida, precisamos de revisões pontuais, para não voltarmos ao ponto de partida. Ou de fuga. E antes de prosseguir nestas impressões pessoais, é preciso dizer que são impressões pessoais; isto não é uma analogia técnica ou de natureza profissional.
Mas quero falar de uma terapia muito eficaz, que sempre me ajudou em minhas angústias, dúvidas e manias.... em meus temores e segredos em ebulição: a confidência. Confidenciar é um ato libertador, quando acertamos na escolha de com quem fazê-lo. Ter confidentes é algo cada vez mais raro nesta fase de mundo e sociedade, onde a correria rouba todo o nosso tempo de falar e ouvir... especialmente o nosso tempo de identificar criteriosamente em quem poderíamos acreditar para fazer confidências; abrir nosso coração, nossa alma, sem temer julgamentos e censuras do que é justamente a nossa razão de procurarmos um colo.
A confidência é curativo; profilaxia paralela; nebulização... às vezes uma injeção de Voltarém na alma, nas emoções e na psique, pois há momentos em que um bom confidente precisa ser mais incisivo, para depois passar um algodão, aliviar a picada com o carinho que "o depois" requer. E como confidentes estão escassos, aí é que entra a psicanálise, tão popularizada nos últimos anos. A psicanálise à moda Freud, pai da psicanálise. Não a psicanálise/pregação religiosa; nem a psicanálise/aconselhamento pastoral; muito menos a psicanálise/vamos orar, entregar nas mãos de Deus.
Em suma, relembrando a natureza do texto, explicada no primeiro parágrafo, a psicanálise é a confidência profissional. Importantíssima nestes tempos, desde que não tenha a venda casada da proposta religiosa e qualquer dissociação dos princípios freudianos. Ou seria a psicanálise despsicanalizada. Neste contexto, a psicanálise é (com pleno reconhecimento de sua importância) a enfermagem da psicologia. Eu diria que um quarto de mundo precisa de confidente; mesmo em forma de psicanalista.
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Respeite autorias. É lei
Miragem
Demétrio Sena - Magé
Solidão franca e justa pra quem sente
um Saara completo no seu sótão;
dor de dente na boca estomacal
desdentada e desnuda; sem amparo...
Destronei uma espera tão distante;
que a carência inventou ser consistente;
minha estante já tem mais um volume
desta longa e profunda distopia...
Já entendo que sou indivisível,
como sou invisível onde os olhos
não alcançam; nem têm esse dever...
Ter pessoas, mas não a simbiose
ou a dose de alguém que seja enxerto,
será sempre miragem; não oásis...
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Respeite autorias. É lei
Oportunismo gospel de massa
Demétrio Sena - Magé
Faz tempo que a música gospel brasileira deixou de ser sagrada; um ato litúrgico. Tornou-se modão e, diga-se de passagem, modão de mau gosto. Atua lado a lado com a música pop-sertaneja, que de sertão não tem nada; pois, reservadas as exceções, é feita de gritos que exaltam machismo, traição e valentia.
Multidões de cristãos e não cristãos são arrastadas aos grandes shows de artistas que não fariam, não fizeram ou deixaram de fazer sucesso na música secular. Hoje o gospel faz sucesso, não como forma de adoração religiosa, e sim, de culto aos próprios cantores e cantoras. Esses artistas pulam, gritam e/ou fazem caretas como qualquer ídolo pop ou sertanejo, ao som de supostos hinos que imitam ritmos seculares da moda e acrescentam lamúrias e desespero, para temperar os shows de uma emoção cavada, exigida e de efeitos neurológicos. Não há imitações gospéis da MPB, pois o bom gosto musical pode significar o fracasso sumário desses cantores, em razão das preferências do seu público.
A esperança está na certeza de que os modões passam. A boa música, secular ou religiosa, permanece. Com o tempo, as músicas de natureza duradoura se sobressaem à futilidade das que chegam para saturar, faturar ao máximo e sugar os artistas meteóricos, que logo serão esquecidos. Da mesma forma, esse cristianismo bufão, cabo eleitoral de políticos extremistas, negociador de rebarbas do poder público passará. Não sei quando, mas passará. Ficarão os cristãos e outros religiosos cujos objetivos são os assuntos relacionados à fé sincera e genuína e à espiritualidade serena, humilde, centrada na busca do aperfeiçoamento das virtudes reais e plenas.
O caminho do cristianismo se tornou muito largo. A religião virou força terrena e já não cultua o sagrado, mas a si mesma e aos poderes terrenos que lhe dão vantagem e força intimidatória contra as minorias. Em suma, esse cristianismo tem o sinal da besta, que facilita seus caminhos e dá poder de "carteirada".
E a música gospel, ao melhor estilo "poltergeist adaptado" é a grande parceira nessa hipnose, abdução ou convulsão coletiva.
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Respeite autorias. É lei
Ciclos
Demétrio Sena - Magé
É difícil fecharmos os nossos ciclos... eles nos envolvem; são senhorios; não inquilinos de nossos caprichos. Ciclos são como círculos que delimitam as nossas fases. Não podemos despejar com facilidade o que nos abriga, e não o contrário. São necessárias algumas resistências e viradas, e há ciclos imensos, que nós passamos muito tempo tentando superar.
A questão é vencermos a nós mesmos, antes de partirmos para o enfrentamento contra o que nos rodeia, cerca, enclausura, "embarrica". E tudo fica mais difícil, se algum de nossos ciclos está confortável para nós... queremos mantê-lo, mas precisamos fechá-lo por pessoas muito queridas, que a nossa visão de comum, despojado e natural enreda ou elege, unilateralmente. Precisamos renunciar ao porto seguro, para que essas pessoas possam fluir pela bolha rompida e se livrar do que jamais pediram para viver a reboque dos nossos eus.
Em suma, fechar ciclos não é uma decisão caprichosa que resolvemos tomar como um truque de mágica. Decidirmos as nossas questões, não raramente envolve desatar os nós que tais questões ataram em outras vidas. Precisamos fazê-lo com muito critério e respeito por quem, de alguma forma, está em nossos ciclos... e não temos ideia de como será impactado.
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Respeite autorias. É lei
POEMA TEDIOSO
Demétrio Sena - Magé
Amanheço e repito meu dia de sempre,
ao chegar de uma noite que se repetiu,
cujo sono caiu na sistema de sonhos
processados em lenta rotatividade...
Mais um dia moroso pra levar nos pés,
arrastar junto às horas que fazem mistério,
pra contar até dez e depois repetir,
sem levar muito a sério viver ou morrer...
Tedioso poema que agora se faz,
numa paz conflitante que pesa fingir,
no frigir dos miúdos do meu organismo...
Anoiteço e nem vi a passagem do dia,
uma vida vadia se guarda nos panos
dos "desplanos" que faço pra nova manhã.
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Respeite autorias. É lei
Sem saber por que
Demétrio Sena - Magé
Jamais fiz uma festa por sair ileso,
quando algum infortúnio colheu outras vidas;
nem sorri entre os ferros do meu egoísmo
sem olhar pras feridas em ferros torcidos...
Não me presto a louvores ou ações de graças
com estrondos e gestos de felicidade,
se restaram desgraças da sorte que tive;
alguém chora saudade precoce de alguém...
Gratidão egoísta se tem em segredo;
um enredo em que outros amargaram fim
dói até nesse alívio por isso incompleto...
Nunca pus minhas mãos pareadas pro céu,
por alguém que se foi onde fui sorteado
pra ficar mais um pouco sem saber por que...
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Respeite autorias. É lei
Transbordando
Demétrio Sena - Magé
A saudade que levo é de algum tempo
muito antes da bolsa que habitei,
vem de quando não sei nem rebuscar
nas memórias em sobreposição...
Ela dói com pungência que aprecio,
pois me dá fundamento; identidade;
tece um fio que aponta pro sentido
que não vejo nos dias por aqui...
Peço a volta no tempo inexcrutável,
já não acho saudável tanta marcha
neste rumo que aponta pro vazio...
Quero ir, os meus passos estão leves
e preciso entender a própria rota
ou a gota que avança minha margem...
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Respeite autorias. É lei
"Sombriedade"
Demétrio Sena - Magé
Tenho por hábito introspectivo me sentir julgado. Permanentemente julgado. Por palavras atravessadas, palavras não ditas entre as que se apresentam, e também por silêncios, distâncias, recolhimentos específicos e olhares. Diretos ou oblíquos. Inclusive de pessoas que deveriam me conhecer muito bem.
Habituei-me a ser visto como alguém sombrio, neste país de tantas religiões das quais nenhuma é a minha. E sendo visto como alguém sombrio, por mais espontâneo, leve, sem mistério que eu seja - e sei que sou -, já enfrentei suspeitas de que tenha feito algo sombrio, não poucas vezes. Do nada. Simples e absolutamente do nada. Algumas vezes, sem nem ter havido algo sombrio para se atribuir a alguém. Com a única motivação externa, da minha não religiosidade... ou do que classificam como falta de Deus no coração.
O que me assusta é ver tanta gente "com Deus no coração" fazer tantas coisas sombrias e se julgar iluminada, simplesmente por carregar a marca de uma religião; majoritariamente, cristã. Ou os preconceitos não são sombrios? Julgamentos, machismo, idolatria política, violências verbais e até físicas contra quem pensa, crê, vota diferente... exclusão, separarismo, ódio religioso... tudo isso é sombrio e me dá medo. Meu coração não sossega, não porque me julgam sombrio, mas porque vejo tanta sombra nisso.
Ninguém se arme. Nem se alarme ou se auto flagre com estas ponderações. Não estou pensando especificamente em você. Nem tenho como saber o que abarrota o seu coração. São apenas observações introspectivas, que ora "extrospecto" para suportar a sociedade que me cerca. A sociedade que sou.
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Respeite autorias. É lei
Recônditos de mim
Demétrio Sena - Magé
Meu olhar sobre o mundo me apreende,
porque tudo caminha rumo ao nada;
quase prende o meu ar onde não sei,
pois é fundo; em recônditos de mim...
Levo a vida com peso de cimento,
minha entranha se arrasta sem destino,
levo meu pensamento em labirintos
e me sinto menino em um deserto...
É que o mundo me liquidificou
em estados opostos e confusos;
parafusos mentais; farpas rasantes...
Minhas asas estão em desalinho;
só há ninho possível pros meus sonhos,
onde o mundo não pode me alcançar...
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Respeite autorias. É lei
Enquanto amamos ou odiamos sandálias
Demétrio Sena - Magé
Cenários graves vão se desenhando, enquanto criam cortinas de fumaça, como a polêmica fútil sobre amar ou odiar as Sandálias Havaianas. Leis do poder público em diferentes instâncias contra o cidadão brasileiro, notícias importantes sobre decisões sociais que podem mudar nossas vidas, agendas culturais relevantes e avanços científicos globais passam por nós, enquanto estamos ocupados com futilidades. O ataque dos Estados Unidos à Venezuela, por exemplo, foi um processo não percebido a contento, em razão do excesso de memes vazios que abarrotam a internet, mundo ao qual dedicamos boa parte de nossas vidas, mas não de modo adequado. Aceitamos notícias sem procedência, provocações que não merecem atenção e bolsonarismos comportamentais que já devíamos ter enterrado, enquanto passam "boiadas" decisórias dos poderes, quase sempre danosas para o cidadão comum.
A internet é rica em informação, arte, literatura e outros assuntos relevantes (entre preocupantes e prazerosos) que perdemos, porque estamos quase sempre concentrados em trocas de farpas improdutivas (existem farpas produtivas?), memes e brincadeiras que camuflam assuntos, informações e novidades que podem ser essenciais para nós. É ruim nos divertirmos na internet? Não. Claro que não. A diversão, o entretenimento e até as trocas de gozaçoes fazem parte da vida, dentro e fora do mundo cibernético, mas... não podem servir para nos alienar e deixar de fora dos acontecimentos e até das decisões internas e mundiais que têm o poder de mudar as nossas vidas. Para melhor ou pior. Temos uma ferramenta fantástica de avanço pessoal e corporativo, porém, usamos essa ferramenta contra nós mesmos.
Sem abraçar alarme, sensacionalismo e terror, cada cidadão deve dividir seu tempo entre os prazeres pessoais e as atenções que nossa cidade, nosso estado, o país e o mundo exigem. O avanço tecnológico cibernético deve significar nosso avanço como ser social; não o nosso retorno à idade média. De que nos vale uma conexão que nos desconecta com a realidade, transformando em mundinho pessoal o nosso acesso ao "mundão" em constantes transformações políticas, sociais, culturais e civilizatórias?
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Respeite autorias. É lei
ABENÇOADO
Demétrio Sena - Magé
São muitos os esforços diários de pessoas queridas, para que eu "aceite Jesus" e passe a frequentar um templo. Fazem isso de longe, porque essas pessoas queridas "não se misturam" mais com um homem "perdido". Um ateu. Esperam pela minha conversão, para que não seja perigoso se reaproximarem de mim. Trata-se de uma orientação de seus tutores espirituais. Dizem que, uma vez convertido, serei uma pessoa muito abençoada. Não convertido, além de não ser abençoado, meu destino após a morte já é o inferno, "com o Diabo e seus anjos" e tudo mais.
Aceito essas pessoas queridas como elas são. Podem ser cristãs, budistas, judaicas, membros de religiões de matriz africana, de outras mais, ou céticas como eu, no que tange o sobrenatural disponível. São meus próximos, não importa no que acreditem, e tenho sincero sentimento. Se não estão mais ao meu alcance no dia a dia, é porque sou pessoa não grata, não bem-vinda, em razão do que penso da vida, do mundo e do além. Não importa para tais pessoas, se eu sou honesto, pacífico, boa gente; o problema é que não sou "convertido". Mais grave ainda, porque não concebo esse Deus que as religiões apresentam, das formas como apresentam, e minha visão da figura de Jesus Cristo não é no contexto sobrenatural. Admiro-o, tenho como modelo de como eu gostaria de ser, e foi ao ler sobre ele, sem as fantasias da própria leitura e de alguém baforando em meu "cangote" que despertei para o amor ao próximo, seja o próximo quem for, sem desejar que ele fique distante até que seja igual a mim.
Quanto a ser muito abençoado, a vida já me abençoa faz tempo. Deus? Pode ser, porque não acredito no Deus das religiões, mas não duvido que algo (sempre acreditei que, se Deus Existe, Ele não é Alguém, é Algo) reja ou administre o todo. As poucas pessoas que me aceitam não fazem exigências. Dentro de minhas preocupações diárias, e apesar delas, que são muitas, há em mim uma paz que não carece de complementos litúrgicos. Não sei quantas vezes escapei de situações extremas, inclusive relacionadas à saúde (sem orações, rituais, penitências e "trabalhos"). Conquistei o emprego dos meus sonhos, mesmo sem "ganhar bem". E me sinto extremamente feliz, porque lanço livros, poemas, minhas fotografias, plantei muitas árvores e tenho duas filhas, esposa (com as quais vivo bem) oito irmãos e nenhuma forma de depressão, mesmo tendo meus problemas e minhas tristezas.
Não sei como será o meu futuro; que mágoas e alegrias, quais venturas e desventuras terei pela frente, mas tudo será como sempre foi: Como será. Exatamente como seria, independente da minha fé ou não fé em que ou quem. O destino cabe a si mesmo e o que chamam de paz de espírito, eu tenho, entre as agonias naturais de viver. Quer saber? Ame o próximo. O que pensa e crê como você e o que não. O próximo próximo e o distante. O habitante do mesmo planeta que você. E se você crê em Deus, está muito bom assim; não precisa trocá-lo por outro mito qualquer.
Que o ano de 2026 seja de muitas felicidades, descobertas, desafios, reflexões relevantes e sinceras, e mudanças necessárias para melhorarmos como seres humanos. Melhorarmos, visando a nossa e a felicidade alheia palpáveis, sem dependermos das ordens de ninguém, de como devemos ser felizes. A felicidade pessoal não é algo tangível por alguém que se dê o direito e a prerrogativa de arrebanhá-la para um triste e questionável coletivo obrigatório.
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Fábricas de Crer
Demétrio Sena - Magé
Quem abraça mundinhos abstratos
de milagres, visões e profecias,
crê nos ratos do esgoto surreal
ou em dons e magias de portais...
Logo afunda no próprio fanatismo
e ninguém o fará voltar pra si,
se não for o mesmismo em seu cansaço
a razão de rever a realidade...
Todo mundo quer crer que pode mais
do que sua visão possibilita,
do que agita seu corpo perecível...
É aí que os abutres voam fundo,
pois o mundo é negócio lucrativo
pra quem vive do sobrenatural...
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Anzol Mágico
Demétrio Sena - Magé
Um poema revira o poço fundo
e descobre os desvãos mais escondidos,
vai ao forro do mundo e traz à tona
os mistérios que ocultam corações...
O poder do poema surpreende
quem afunda seus sonhos no vazio;
as malícias, também as inocências;
esse lado sombrio em cada um...
Anzol mágico e bom mergulhador,
vai à dor e descobre as emoções
que se trancam em suas agonias...
Quem escreve um poema expõe aos ares
nossas farsas e nossas realidades,
os lugares mais dentro de quem somos...
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O Poder Da Mídia em Nossas Mãos
Demétrio Sena - Magé
Nem adianta você tentar me dizer para deixar de me expressar na web, especialmente nas redes sociais. Não vou deixar; é nos espaços de respostas a informações e debates e nos meus perfis em redes sociais que tenho voz. E a minha voz vai ao encontro de milhões de outras, resultando mudanças políticas e sociais que não seriam possíveis com o silêncio.
Muitas decisões perniciosas do poder público em todos os patamares têm caído por terra, graças aos protestos de milhões de pessoas, incluindo os meus. E muitas decisões favoráveis à sociedade, aos trabalhadores e cidadãos modestos como eu estão sendo tomadas graças às pressões maciças de quem vive, respira, se diverte, cuida da família, mas não deixa de se posicionar. Na web. Onde mais atuaríamos com tanta eficiência? Gritaríamos dia e noite nas ruas? Remeteríamos bilhetes aos poderes ou entraríamos na justiça contra a própria justiça e suas injustiças? Juntos, somos a mídia; somos os algoritmos que levantam e derrubam, quase sempre com muitas dificuldades, bons e maus representantes do povo.
Se você, cidadão "canhoto" como eu, não quer mais saber "da internet", será mais uma voz que deixará de ter vez no dia a dia de uma sociedade sempre na iminência de sofrer com leis arbitrárias. Leis criadas nas caladas da noite pelo congresso nacional, por exemplo. Será menos um ativista contra injustiças sociais, racismo, lgbbtfobia, feminicídio, corrupção política e tantos outros assuntos. Uma voz que se cala e permite à extrema direita, cada dia mais barulhenta, ocupar todos os espaços de manifestação pública e de luta por suas causas danosas, em benefício das eleites; dos poderosos... contra os direitos humanos, de cidadania, e contra um povo que segue invisível, muitas vezes crendo que a web "não é pro seu bico".
Portanto, não adianta "sibilar" que "as trincheiras da Internet" são fúteis. A depender de quem as ocupe, são espaços de ativismo político, social, artístico e literário por uma sociedade mais justa, igualitária, democrática e bem informada. É o que tento ajudar a manter, em meio a tantas desinformações e atuações que visam minar o que há de bom. Não me permitirei o discurso do sossego pela desistência. Esse discurso tem como alvo, que deixemos o caminho livre para os que pretendem, há muito tempo, bloquear de uma vez por todas a efetivação de um país livre, democrático, laico, de pleno acesso a toda forma de cidadania. Um país para todos é tudo o que as eleites não querem e por isso manipulam seu rebanho para nos cansar.
Sim, temos um mundo físico, e nele, os nossos afazeres presenciais, nossos afetos a cuidar... uma vida prática e dinâmica que não pode ser diluída pelo vício cibernético. Mas, deixarmos esse poderoso espaço corporativo de atuação completamente nas mãos do extremismo político, do fanatismo religioso e inquisitorial a serviço dessa política e do imenso rebanho que a utiliza de modo a nos banir pela desistência, isto sim, é futilidade. Temos pela frente um ano eleitoral. A Internet será decisiva para nos unirmos e não deixarmos o Brasil voltar aos tempos sombrios da ditadura e para tirarmos do congresso os políticos que trabalham por essa volta.
Foi na internet que os vândalos do "oito de janeiro" se organizaram. Também foi na internet que nós, os ativistas civilizados, pressionamos os poderes perversos e organizamos movimentos presenciais corporativos - e pacíficos - pelos quais conseguimos grandes vitórias contra o #congressoinimigodopovo, que só trabalha em benefício próprio.
Não. Não sou estúpido: não comprarei o embrulho vendido pelas elites do poder e revendido pelos escravos populares dos que trabalham para essas elites nas trincheiras das religiões, por exemplo, que usam com tão eficiente má fé as formidáveis trincheiras da web. É uma pena ver tanta gente boa e necessária desistir... justamente agora.
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Pra vocês também
Demétrio Sena - Magé
Se alguém me "deseja feliz Natal", não me sinto ofendido. A data não tem sentido para mim, embora eu tenha grande admiração pela figura humana que uns divinizam, outros fingem, mas não me ofendo. Algumas vezes, consigo até devolver aquele "pra você também", que faz uma ou outra pessoa sorrir, maliciosamente, como se houvesse ali um triunfo contra o cara "que se diz ateu". Sempre dizem que me digo ateu; temem dizer que sou. Às vezes entendo como afronta velada. Outras vezes, considero que seja uma superstição: temem admitir que acreditam que alguém não acredite.
É o mesmo caso, no dia a dia, de quando alguém me diz vá com Deus, Deus te abençoe (ou te guarde), entre outros Deus isso, Deus aquilo. O meu "pra você também" é como se eu tivesse caído em uma armadilha, não de todas as pessoas, pois algumas são sinceras, mas de muitas que vivem tentando arrancar de mim o que possam cravar como algo próximo de uma contradição. Como posso me ofender com a citação de quem não creio existir? Alguém que não tenho como amar, também não tenho como odiar. Da mesma forma, por que me ofender quando alguém manifesta o desejo de que o meu dia, seja ele qual for, tenha paz, harmonia e risos?
O que tento ver, quando me cumprimentam com saudações natalinas, são pessoas me desejando algo de bom em uma data separada no calendário cristão, para isso. Aceito, como o faço a qualquer dia do ano, se alguém declara me querer bem. O vá com Deus, Deus te abençoe ou guarde, recebo da mesma forma, se reconheço a sinceridade, a transparência de quem me cumprimenta, seja presencialmente ou por mensagem eletrônica pessoal; não os disparos maciços e apressados de quem quer "lacrar" com o alcance de milhões de pessoas. Quer ganhar ou manter seus seguidores.
Repito: não há como odiar Quem acho que não Existe. As iniciais maísculas mostram meu respeito a quem acredita. Realmente não posso me ofender com os cumprimentos de quem festeja o aniversário de um ser humano tão especial, que admiro tanto, e creio ter existido, embora não creia que seja o filho legítimo dAquele no Qual não acredito. A data não me representa, com sua aura de sobrenaturalidade misturada com fé mercantil e aumento brutal das desigualdades sociais. Mesmo assim, para todos que me desejam algo de bom, deixo meu bom e velho "pra vocês também".
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EM CIMA DO MURO
Demétrio Sena - Magé
Já me canso dessa gente
"nem esquerda nem direita";
"nem Lula nem camarão";
que não é gente nem bicho...
Não é sussurro nem grito;
a verdade nem o mito...
Também nem luxo nem lixo,
não está nem lá nem cá,
e não está "nem aí",
pois não prossegue nem fica...
não é lenta nem afoita...
não caga nem sai da moita;
tanto faz ou tanto fez;
não quer a voz nem a vez.
Tô com asco dessa gente
que não é fria nem quente,
sequer pretende ser morna...
Já não estudo esse povo
que nem quer ou sai de cima",
porque nem tem para onde.
Não é galinha nem ovo,
nem verso livre nem rima;
terror nem conto de fada...
Eu me canso disso tudo.
Dispenso espada ou escudo...
essa gente não é nada.
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Das liberdades que prendem
Demétrio Sena - Magé
O excesso de liberdade sem sabedoria pode nos tornar escravos de um futuro incerto, quando não desastroso. Passados mal resolvidos por falta de acabamentos costumam aviar boletos vivenciais que não temos como pagar. Os códigos de cobranças da vida são implacáveis com quem não sabe viver.
Saber viver é algo muito conceitual e rotativo. Quem acha que pode fazer tudo e tem todas as liberdades, deve ter um projeto sóbrio, maduro e consistente, para não cair nas armadilhas de um engano sombrio. Armadilhas postas pelos próprios atos e por pessoas que sabem se aproveitar das fragilidades dos que acham, equivocadamente, que "estão com tudo".
Todo ser humano precisa desse equilíbrio, para sobreviver a si mesmo. Para jamais perder o rumo e ficar sem teto, chão e paredes, pelo quanto pensa que se livrou de todos... até de si mesmo, crendo não precisar de um limite, uma base, um apoio existencial. Nossa essência carece de um invólucro; o espírito tem que ter corpo. Não há recheio sem casca.
Se queremos voar, é essencial termos de onde para onde. Ou não será um voo; será um salto no escuro; no precipício de nossa inconsequência. Sejamos livres o suficiente para repensarmos, quando for necessário, nossos conceitos intermináveis de liberdade. Cuidado; ela pode nos algemar em pleno salto.
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O poço do fanatismo
Demétrio Sena - Magé
Pouco importa se o que você frequenta é uma célula, uma seita, religião, filosofia, grupo. Se não faz de você uma pessoa melhor, não vale nada. Se lhe faz afrontar o mundo e se julgar melhor do que o próximo, qualquer próximo, você perde o seu tempo. Se põe a sua auto estima no chão e se também a põe lá no alto, em um patamar ilusório, não passa de uma fraude. Fanatismo, extremismo, excesso litúrgico em qualquer fé professada levam para o fundo do poço. Se pela fé que professa, você percebe que já não é você, e sim, um fantoche que mãos habilidosas, hipócritas, interesseiras, maliciosas e mercadológicas manipulam, a sua fé não lhe merece. Muito menos os seus lideres merecem a sua fé.
Mire-se no espelho de sua realidade atual. Compare essa realidade com os tempos de paz e lucidez que você já teve algum dia, sem precisar de guru, mestre, pastor, pai religioso, guia, padre, qualquer orientação pretensamente espiritual. Você vai perceber que o seu estado de espírito não vem do alto, do baixo nem das laterais. Vem do seu íntimo; da sua disposição para ser feliz. Do seu equilíbrio pessoal, perfeitamente possível; completamente capaz de conduzir os seus passos por caminhos seguros. Sua alma só será salva pelo caráter, seu amor ao próximo, a si mesmo(a) e sua observação de quem lhe rodeia e quer, na verdade, como aquela ovelha da qual sempre terá leite, lã e obediência.
O medo do diabo, do Próprio Deus - Terrivel, como religiões fundamentalistas apresentam - e outros seres invisíveis que a psique manipulada manifesta, nada pode lhe oferecer além de momentos hipnóticos ou surtos neurológicos em ambientes escolhidos. Na realidade crua oramos, rezamos e ritualizamos cada vez mais, enquanto nos curamos ou morremos, na mesma proporção da fé ou não fé. Alcançamos ou não, as "graças" providenciadas por coincidência ou ação persistente bem sucedida (que sobrenaturalizamos quando e como convém). E a célula, seita, religião, filosofia ou grupo não ajuda ninguém a entender com alguma serenidade, os valores humanos que realmente nos salvam.
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BOCÓ HONORÁRIO
Demétrio Sena - Magé
Ocorre muito comigo: rever uma pessoa com quem convivi por algum tempo, mesmo sem ter me tornado um grande amigo, e me apressar para cumprimentá-la efusivamente, sendo recebido com um olhar de "eu, hein..."; quando muito, com aquele "oi" mascado como um restinho de fumo. Então retorno ao meu canto, se ambos estivermos no mesmo ambiente, ou sigo meu caminho xingando a mim mesmo, em pensamento.
Mas não tomo emenda: quando, pouco tempo depois, vejo outra pessoa com quem tive uma convivência semelhante (quem sabe, na realização de um trabalho, um projeto em comum), corro logo para o quase abraço, como se fôssemos velhos amigos de infância que se perderam e acabam de se reencontrar. Aí dou de cara com o mesmo "eu, hein" silencioso... os mesmos lábios dormentes. Razão pela qual nunca passo muito tempo sem me xingar em pensamento.
Sou desses bobões que dão muita importância para pessoas. Que veem amizades em relacionamentos breves e até superficiais. Acho marcante uma boa conversa de rua com um desconhecido, que para mim, a partir daquele momento já não é um desconhecido. Se participo de algo por alguns dias, com esse desconhecido, ele praticamente se torna um amigo de vida inteira... desses com quem me preocupo e chego até a pedir notícias a um conhecido em comum.
Pensando bem, não penso mesmo em tomar emenda. Não ser assim me deixa vazio. Ser de outro jeito é como não ser quem sou. Passar por esses constrangimentos de me sentir situado por alguém é menos pior do que sentir o vazio de não sentir nada por uma pessoa com quem tive pelo menos um momento agradável. Pessoas, para mim, são pessoas. Nunca soube tratá-las como algarismos em equações vivenciais.
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Respeite autorias. É lei
