Coleção pessoal de demetriosena

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Dos Meus Olhos Pros Seus

Demétrio Sena - Magé

Fotografar uma palha, um parafuso, um nó na madeira e uma gaveta velha, por exemplo, justifica um tratamento para que a palha, o parafuso, o nó e a gaveta ganhem contornos de arte além da fotografia, que já é uma arte. Refiro-me às edições manuais que acentuam, clareiam, escurecem e intensificam, sem descaracterizar o objeto ou o cenário. Sem distorcer ou subtrair em nada, sua originalidade.

Nada de inteligência artificial, porque inteligência artificial é simplesmente um plágio multi-fragmentado. Deixar que a IA faça por você o que seria um exercício a mais de criatividade, é fraude. A edição de fotos existe na própria câmera, desde os tempos analógicos, ou em aplicativos simples de edição, que oferecem as ferramentas; não a "mão-de-obra". A mão-de-obra é sua. O trabalho é todo seu, e se você não fizer bem, com olho clínico e talento, nada vai valer a pena.

Revisamos nossos textos, quando sentimos que falta algo. O pintor e o escultor dão retoques em suas obras, depois delas prontas. O pedreiro também. O cientista refaz experimentos em seu projeto, e seremos eternos, caso sigamos exemplificando. O fotógrafo também é assim, embora não seja obrigatório. Só não suporto que olhem para uma criação minha, crendo haver um só toque de IA.

Inteligência artificial não é inteligência. É o truque da preguiça de quem não quer usar o próprio cérebro. Nem as próprias mãos. Mas quer assinar o que não fez. Sempre me esmero para que os olhos gostem do que meus olhos olham... veem. E minhas mãos tratam com carinho, ética e critério.
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Respeite autorias. É lei.

Grito


Demétrio Sena - Magé


Haverá sempre um grito
pro que não sabe ser dito;
pro que não passa de mito
do saber.
Haverá sempre um mito
pro que só sabe ser grito;
pro que não passa do dito
por dizer:
mato ou morro?
Haverá sempre um dito
pro que só sabe ser mito;
pro que não passa de grito
de socorro.
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Respeite autorias. É lei

Sobre o Pastor de "Três Graças"

Demétrio Sena - Magé

Fiquei frustrado ao ler que o pastor Albérico, da novela Três Graças é, na verdade, o chefão da bandidagem na comunidade fictícia da Chacrinha. Desejei que a fantasia salvasse a realidade. Que a licença poética nos desse um horizonte favorável à crença no cristianismo do século XXI. Estava mesmo feliz por imaginar que, na ficção, a exceção venceria a regra, em desagravo ao mundo real, onde a regra estrangula a exceção. O pastor Albérico tinha tudo para ser a exceção na qual precisamos acreditar, fora do estrangulamento que nos deixa sem esperanças.

Ainda espero, caso isto seja verdade, que autor e colaborador decidam pela mudança de rumo do personagem. Precisamos dessa fantasia. Dessa poesia que nos faça intuir a existência de uma exceção menos invisível; menos intocável; mais possível, na vida real. Entendo o realismo que denuncia o óbvio, mas gostaria de ver, na ficção, a exceção vencer a regra. Tornar-se a regra no folhetim, representada pelo único pastor do enredo. Precisamos sonhar que ainda existem líderes cristãos a contento, representantes legítimos do real cristianismo. Sem envolvimento com poderes paralelos (tráficos, milícias e política partidária extremista).

No fundo, nem é de religiosos (fiéis e líderes) que trato nesta reflexão. É de seres humanos, convertidos ou não a crenças (quaisquer crenças), dogmas, filosofias e até medos, capazes de transformações viáveis para um mundo melhor. Se a transformação doentia do "Jorginho Ninja" não convenceu, pois ele se converteu fragilizado pela doença e o medo do suposto inferno, valeu o efeito. Foi um opressor a menos, no universo da novela. Por ora, resta-me a frustração de não vivenciar a poesia de um líder religioso na contramão da realidade que me cerca.
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Trumprojeto


Demétrio Sena - Magé


O teu projeto é matar;
provaste o quanto és capaz;
mereces mesmo ganhar
o prêmio Nobel "das pás".
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Das Relações Institucionais

Demétrio Sena - Magé

Sei que você não sabe... no entanto sei que você sabe, muito embora pense que penso que não sabe. O que tento dizer é que o que sei é que você sabe, sem saber que sei, muito menos que sei que você sabe que sei.

É assim que minto para sua mentira: mentindo para mim mesmo, que você acredita na mentira que sei que você sabe que é mentira, mas na verdade, faz de conta que não faz de conta... e que acredita mesmo que a mentira é verdade, enquanto faço de conta que você não faz de conta que sabe, sabendo que você sabe; só não sabe que sei que sabe... e que não sabe que sei que não sabe que sabe.

No fim das contas, o que sei que você não sabe e nunca saberá que sei, é que tudo isso nos torna sabedores de que merecemos um ao outro. Não sei como sei. Só sei que sei; não pergunte como não sei como sei.
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Timidez

Demétrio Sena - Magé

Só não sei conviver com muitos dedos;
minhas teclas ariscas fogem logo,
meus enredos misturam trajetórias,
pegam fogo e se perdem entre a cinza...
Sou a plena expressão da timidez,
apesar das ausências de pudor;
não existe até dez na minha conta,
porque fujo da dor, mal vejo a sombra...
Nunca soube apostar no malmequer,
tentar ler os garranchos do silêncio
sobre falas medidas; pontuais...
Pois não sei habitar esses mistérios;
cais desertos de minhas convivências
inseguras do quanto sou viável...
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Solitude


Demétrio Sena - Magé


Deixarei você livre pra voar de mim
e sair dos meus olhos, em qualquer sentido,
ser o fim do meu sonho de alguém como eu,
que será desmentido em minha solitude...
É preciso acordar destes anos a fio
da mais longa ilusão que se pode nutrir;
será meu desafio acordar pra viver
de fingir que não tive um sono tão profundo...
Soltarei seu olhar para novas paisagens
ou viagens mais amplas do que meus limites,
aventuras que a vida resolver abrir...
Você tem outras águas nas quais desaguar,
apagar esta poça de suas lembranças;
ser luar; oceano; reflexo; espelho...
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Corações Verbais


Demétrio Sena - Magé


É muito comum, a frase "não vou me queimar por ninguém". Acreditem ou não, eu "me queimo". Se for por uma pessoa querida, fico tostado e feliz. Minha frustração só seria não conseguir ajudar essa pessoa com a minha "queimação". Perder oportunidades pessoais não significa nada, se as letras miúdas desse "contrato" significam eu ter que dar uma ombrada, rasteira ou "chega pra lá" em quem sempre tive como alguém importante na minha vida. A quem sempre declarei afeto, admiração, coleguismo ou qualquer outra forma de sentimento positivo.


Imaginem a queimação no estômago de quem acredita em minhas declarações de sentimentos bons, ao receber de repente o meu jato de água fria, quando eu resolver me afastar para não perder oportunidades! Quando tudo mudar no meu "coração verbal", por causa de uma "boca" ou um privilégio que desejo conquistar ou não perder. Muitas vezes, algo tão passageiro, que a pessoa passará muitos anos (os anos que aquele laço duraria) lamentando a troca injusta e cruel. Aí descobrimos o que é de fato nos queimarmos de consciência pesada e remorso.


Evidentemente, refiro-me a quem tenha dentro de si essa consciência, para despertar em algum momento. A quem ainda esconda essa capacidade humana, embora tardia: de sentir o peso da consciência e do remorso... de haver substituído pessoas queridas por coisas (concretas ou abstratas) ambicionadas.
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Justiça Injusta


Demétrio Sena - Magé


Quando monstros detém os tribunais,
outros monstros terão impunidade;
quanto mais injustiças na justiça,
mais verdades pra dentro dos bueiros...
Se nos fóruns estão os mentirosos,
a mentira não perde pra ninguém,
porque são enganosos os processos,
todo bem é vencido pelos maus...
Há juízes de mais com mau juízo;
muito guizo indicando quem dá mais
pra colar inocência em sua culpa...
Magistrados gulosos e tiranos
tiram anos de vida do inocente;
dão mais vida e direitos aos culpados...
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Sem Porto nem Colo

Demétrio Sena - Magé

Falta quem me atravesse com olhar fluente,
um silêncio cargueiro de boa palavra,
com a mente arejada; o coração sem nó;
uma lavra de sonhos e bons sentimentos...
Quem acolha o segredo insondável que trago,
saiba ver a minh'alma das fendas dos poros
ou no lago dos olhos castanhos e fundos,
onde ponho meu tempo de vida já gasta...
Pois perdi cada porto seguro em alguém,
cada colo que havia para me levar
muito além do cenário; do próprio momento...
E me falta sentir o sentido que faço
num abraço que tenha como ter meu mundo
como rio que segue pro seu oceano...
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Sob Todas as Lendas

Demétrio Sena - Magé

Quando achares possível, somente confia;
não me vejas no mundo que provoca mágoa;
qualquer dia me leias como livro aberto
sob todas as lendas em torno de mim...
Sou do bem entre linhas de minha estranheza
e não tenho entrelinhas para como sou,
porque amo a beleza que os olhos não veem
nos mistérios de todas as formas de gente...
É que sempre te vi como alguém que me vê
como quem ninguém mais saberia intuir;
um ET bem humano escondido em si mesmo...
Ao achares possível, saberás entrar
no meu rio pro mar e na minha verdade
de verdade; sem risco de monstros marinhos...
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Sobre Covardes

Demétrio Sena - Magé

Compreendo as mensagens de cancelamento
em silêncios, distâncias e medo profundo;
é difícil passar pelo meu pensamento
e manter confortáveis os olhos pro mundo...

Só não posso romper as verdades do assunto,
quando vestem os panos do nosso momento;
não me deixo calar; quem não quer pensar junto,
não precisa fugir; aspirar outro vento...

Mas entendo covardes; deve ser medonho
esse medo da vida e da busca do sonho
desse mundo de todos e não de alguns donos...

Imagino entre os panos a borra contida
dos que têm que temer a minh'alma perdida,
como mandam dos púlpitos, grupos e tronos...
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Vertigem Crônica

Demétrio Sena - Magé

Algumas conversas jamais ocorrerão. São muito necessárias, seriam salutares, elucidativas e até salvívicas, mas prosseguirão evitadas a vida inteira, por faltar a certeza do que é certo. Por tropeçarmos nessa redundância, em cada quase que nos puxa para trás, quando quase deixa de ser quase. Na hora que já não é hora de ninguém dar tempo ao tempo.

Reinarão para sempre as palavras não ditas, os olhares fugidios. O não falado pelo não dito, porque "diz o ditado", que, tanta coisa, que acabamos não acabando o que jamais começou. É uma eterna "terminativa" desencontrada, em razão de uma iniciativa que morre antes do próprio início.

São muitas as decisões não tomadas exatamente quando as tomamos dentro de nós. Alívios nunca vividos, porque nos angustiamos ante a sua perspectiva. Só tomamos coragem na boca da covadia, que nos engole com a sua coragem de manter tudo na zona do mais desconfortável dos confortos. O de ficarmos no lugar-comum que sempre foi nosso não-lugar.

Algumas conversas sempre serão desconversadas (ou fiadas, pois nunca serão cumpridas). Exatamente como esta crônica, que se revela mais crônica, no sentido patológico de grave, do que propriamente crônica, no sentido literário de crônica. Ninguém me leve ao pé-da-letra.
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Água Fria


Demétrio Sena - Magé


Teu silêncio me diz para manter distância;
parachoque nos passos esquivos e lentos;
a criança perdida numa feira-livre
passa dentro de mim como ventos do mar...
Meu carinho se fere sem soltar gemido,
serpenteio meus olhos enquanto prossegues,
depois fico espremido no velho abandono
de saber novamente; não foi desta vez...
Nada tenho a cobrar, não me deves um eco,
bebo a seco a cachaça desta solidão
que ninguém suprirá neste meu Alabama...
Tua calma gelada e teu olhar de rocha
tornam tudo sombrio, fazem se apagar
minha tocha de sonhos e de fé em gente...
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O Que me Completa


Demétrio Sena - Magé


Eu não sei não viver de sobressaltos;
das angústias de não vê-las imunes
aos assaltos do tempo, a vida, o mundo
que nos ferem alheios a castigos...
E não sei não querer ser Super-homem,
abrigá-las na capa dos meus sonhos,
das verdades que chegam de surpresa,
sem a minha ilusão nem dar por si...
Nem consigo não ter por que chorar
ou sorrir por bobagens, por consolos
enganosos e tolos, de momentos...
O amor não tem como não moer
nossas carnes, os ossos, as entranhas,
em estranhas versões de completude...
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Escala Humana


Demétrio Sena - Magé


O amor à família faz querer descanso;
trabalhar feito gente; não burro de carga;
quem amarga jornadas de morrer em vida
quer avanço nos campos da dignidade...
Mas alguns temem atos da fúria dos ricos,
outros acham melhor continuar escravos,
ficam bravos com outros que ficam felizes
pelo tempo maior que terão com os seus...
Os patrões ameaçam quem aprove a ideia
e políticos porcos constroem notícias
pra plateias que nunca souberam pensar...
Ser humano trabalha, mas cultiva o sonho
do programa e do sono sem despertador,
pra sentir o sabor de ser alguém no mundo...
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Sobre Não Ser Só sobre Nós


Demétrio Sena - Magé


Faz pouco tempo que meti meus pés pelas mãos, ao tentar fazer uma homenagem a uma pessoa muito querida, e com isso, relembrar uma juventude de parceria literária e musical. Como desejei em princípio, que fosse uma surpresa, cometi uma invasão: selecionei seus trabalhos em rede social, com critérios unilaterais, para uma publicação não combinada. Eu nem sabia se no seu íntimo, e naquele momento, aquilo era um desejo seu, em alguma escala.


Depois que o ato se tornou público, tudo se agravou: ficou parecido, em entrelinhas, que eu quis ostentar; talvez engrandecer minha intenção ou simplesmente fazer marketing pessoal utilizando outra pessoa. Pareceu quase tudo; menos que eu quis homenagear alguém, nestes tempos em que as intenções globais quase sempre apontam para os próprios umbigos. A pessoa em questão é muito ética; tem uma postura tanto pessoal quanto pública, de gentileza sem fim; de uma tranquilidade admirável; jamais faria tal acusação a quem afirmasse lhe fazer uma homenagem. Em nenhum momento me constrangeu com afirmativas.


Mas houve um distanciamento. Não físico, e sim, de conversas, que se tornaram menos frequentes; de olhares, que ficaram mais desbotados e dispersos... e de gestos, agora mais contidos. Isto não é uma queixa, pois fiz por merecer, com a minha imprudência. O texto presente não é para me auto perdoar em público; é só mais um texto, como sempre faço, do que transborda em mim, mesmo quando não é sobre mim. Ainda creio no pouco tempo de vida pela frente (já não somos jovens), para que passe o desconforto e o afeto recupere a intensidade.


Vivemos tempos difíceis, em que toda desconfiança se justifica; todo pé atrás tem o seu porquê. Realmente há muito narcisismo com capa de homenagem. Muita homenagem a si mesmo como se fosse a outros. Muito marketing pessoal com a utilização de terceiros. Não foi o meu caso. Mesmo assim, é bom refletirmos antecipadamente sobre como podem soar ao nosso redor, até os atos mais bem intencionados que pensamos em cometer.


Peço que ninguém me defenda nem condene alguém nesta publicação. Reconheço a minha imprudência, com toda a sinceridade. Compartilhar é uma necessidade mais autoral do que pessoal. É aproveitar uma chance de transformar angústia em literatura e convidar leitoras/leitores a uma reflexão que pode valer a pena, sobre alguém decidir, sozinho, algo tão aberto ou exposto, relacionado a outra pessoa. Mesmo que seja uma surpresa ou homenagem sincera.
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Tudo Por Um Pintinho


Demétrio Sena - Magé


Lá vou eu, mundo afora, em busca de um pintinho para fotografar. A solicitação estranha foi do Isac Machado de Moura, para mais uma capa de um livro seu. De pronto, parecia um pedido muito simples, mas aí percebi que no meu arquivo de milhares de fotos havia só uma, de um pintinho. Estava nas costas da mãe, quando cliquei. Então fui às ruas, e logo dei por mim que os aviários não vendem mais galinhas, frangos, pintos, patos nem outras aves de consumo alimentar vivas.


Para resumir, acabei conseguindo, mas muito às escondidas. Quem vende bichos nas ruas e nas feiras-livres está sempre muito desconfiado. Não usei minha máquina fotográfica, por atrair atenção, e o meu aparelho de celular não é dos bons. Tive que fotografar sem qualidade, para depois editar manualmente (jamais utilizo inteligência artificial). Foram várias fotos, diversificadas de seis originais. O Isac teve a sua encomenda e eu sobrevivi.


Na verdade, quase não sobrevivo, em razão de uma imprudência imperdoável, no meio do processo: Em dado momento, eu já bem cansado e desiludido, vi uma "Kombi de ovos". Daquelas onde vendem trinta ovos quase pelo mesmo preço de uma dúzia, no aviário, sendo que, tirados os ovos podres, resta realmente uma dúzia ou pouco mais. Pois bem; meio sem graça chego mais perto e, com um fio de voz pergunto, inadvertidamente: "Por favor; o senhor tem também pinto, ou só tem os ovos?".
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Crônica Abstrata


Demétrio Sena - Magé


Justa ou injusta, moderada ou extrema, o grau de confiança que temos numa pessoa depende apenas de nós. E diz respeito somente a nós. O que não dá para decidirmis conforme os nossos caprichos, é se haverá confiança, e caso haja, qual deverá ser o grau de confiança dessa pessoa, não em nossa pessoa, mas em nossa confiança. Muitos têm essa consciência, cotidianamente; no entanto, às vezes pecam por se assegurarem de pactos nunca feitos.


Não importa o grau de confidencialidade ou aproximação, mesmo tátil, que por acaso tenhamos com quem não temos relação amorosa. Essa pessoa nunca deverá ter de nós qualquer palavra ou gesto que sinalize para uma tentativa inconveniente. Para uma forçação de qualquer natureza. Ninguém tem como saber das nossas expectativas ou intenções; logo, ninguém pode se sentir cobrado, como se devesse uma reciprocidade que não foi prometida. E ainda que tivesse sido, essas questões não são leis; ninguém é obrigado a "cumprir" com o outro o que é de foro íntimo; envolve suas emoções e particularidades.


Algumas vezes nos tornamos armadilhas para nós mesmos, nessa dependência do que julgamos espelhos ou cavernas cujos reflexos ou ecos não estão sob o nosso controle. O outro deve ser sempre visto como o outro. Como indivíduo dissociado de nós. Qualquer associação, verbalizada ou silenciosa, deve ser uma simbiose desarmada; um encontro natural. Esta crônica é abstrata. Pode ser ou não sobre você. Logo, você decide o contexto, o sentido e a conclusão.
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PARA LAURA CARDOSO

Demétrio Sena - Magé

(Minha tietagem à Dona Laura tem motivo específico: sua personagem no remake da novela Irmãos Coragem, anos atrás, lembrou muito minha mãe, nas expressões, na maneira de falar e principalmente nos olhos. Foi daí que passei a prestar atenção no talento genuíno dessa atriz e no caráter da pessoa, pelas entrevistas que assisto, quando posso. O texto abaixo não é recente; já o publiquei, pouco depois da novela, e hoje senti o desejo de republicar, tocado por saudades de minha mãe)
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Já te odiei muitas vezes. Tantas outras te amei. Senti raiva, ternura, nojo, piedade, simpatia e desprezo. Mescla indizível de sentimentos, e todos eles bem acompanhados de um, em particular: emoção. Sempre muita emoção.
Tive (e tenho) tudo isso por ti, porque teu talento me fez ter. Continua fazendo, à guisa das damas e indigentes, heroínas e vilãs, peruas e matriarcas, camponesas e outras personagens simples que tiveram a honra de ser vividas (e continuam sendo) pela tua excelência e magnitude artísticas.
Quando assumes tuas personagens, não apenas atuas. Tu és as próprias, interinamente, no espaço em que as câmeras te focalizam fazendo recordar que nós, expectadores, aguardamos convictos de que nos farás viver intensamente as tramas fantásticas do faz-de-conta. Tramas tristes e alegres, hilárias e sérias, profundas e superficiais, todas muito bem assumidas pela tua genialidade.
Não sou teu fã, porque fã é "nático" e quer pedaços do ídolo, pontas da estrela, cascalhos do astro. Sou admirador silente... e dispenso autógrafos, abraços, conhecer pessoalmente, roubar casquinha do teu brilho de primeira grandeza.
Esta crônica só quer desatar o nó; só deseja eclodir a manifestação, fazer modesta justiça. Juntar-te nestas pautas, a outros veteranos que estão no teu patamar, mas que são mais alardeados, embora eu imagine que nem busques alarde, badalação, grandeza.
Quero, enfim, manifestar meu ódio, amor, desprezo, ternura, nojo e raiva de ti... sempre amando a maestria com que me fazes sentir tudo isso.
E te amando em cada personagem.

Em menos de dois anos, dona Laura completará cem anos de vida... e de muitas emoções divididas com todos nós.
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