Coleção pessoal de DanielAvancini
Cativeiro das Palavras
Nunca sei o que escrever.
As palavras chegam sem aviso,
como pássaros desorientados
que pousam no peito
e logo se lançam ao vazio,
deixando o silêncio
como única companhia.
Sempre há dúvida.
Onde estão as inspirações?
Onde se esconderam os sorrisos
que um dia iluminaram o caos?
Talvez seja apenas questão de tempo,
tempo que não há,
tempo que se dissipa
como névoa em manhãs febris.
Mostre-me as lágrimas
que tais sorrisos trouxeram consigo,
como marcas discretas
nas dobras da memória.
Entre tantos sentimentos vazios,
confusos e desgastados,
é difícil encontrar algo verdadeiro,
algo que não se dissolva
na vastidão dos dias incertos.
Considerando o mutável, cada ser em uso de suas transformações realiza suas subjetivas potencialidades, essas, advindas de sua essência, por conseguinte uma não aceitação do estático; mas não de forma contraditória ao que antecede, apenas uma de suas faces.
As vezes, assim penso, vivo
Um monólogo diário
Atravessando as vielas
Sem atalhos
Em frente ao mar
Dedico-lhes meus devaneios
Discorro sobre tudo
Sem, ao menos, um pingo de receio
O mar atento
Se comunica através de suas ondas
Mergulhante, deslizante e ascendente
Cabe a interpretação daqueles que mantém os olhos bem abertos
Danço em suas curvas
Devaneio em seu sorriso
Doce são teus lábios
Divirto-me em teus braços
Durmo em teu colo
Dou-me por completo
Duma vez, me afasto
De você, nada quero
Dose amarga de fel
Deu-me para beber
Dope-me mais uma vez
Dissipe minha alma
Desejo insaciável
Deslumbrante
Dói e nada sinto
Divergente
Dignidade já não há
De novo e de novo
Despido
Depois que o sol se põe eu tropeço
É tão estranho
Eu continuo seguindo em frente
Sozinho
Agora sou eu mesmo
Vivendo um monólogo
Ou qualquer outra coisa
Vai ficar tudo bem
Alguns dias são tão bons, outros, nem tanto
Então hoje, eu abro mão
Andando nas nuvens todo dia
Com os pés sangrando
Isso vai e volta, por que eu continuo voltando?
Como um farol na água, você me atinge
Reflete o melhor de mim
É a luz que guia
Não importa a tempestade
Você estará lá
É o alvo e eu a flecha
Somos feitos um para o outro
É o destino natural.
E ele estava ali
Doce garoto
Sentado em seu balanço
Olhando seu jardim
Refletindo o irrelevante
Pois é assim
Sente o vento em seu rosto
Indo e voltando
Impulsionando o corpo, a vida
Solta gargalhadas cativantes
E sem medo de cair
Salta do balanço
Seus pés tocam o chão como lanças afiadas
Seu sorriso se desfaz
Ensanguentam todo o belo jardim
Manchando de vermelho todo o verde
Pouco a pouco chega a dor
Já não há mais vento suave
Pois é assim
Que somos ensinados
A viver
Não digo o que penso
Digo o que sinto
E além disso, digo mais
Tudo bem não sentir
Tudo bem e só
No fim, tudo é só o começo
No fim, temos as respostas ou não
Respostas de perguntas que nem fizemos
Não fizemos por medo ou não
Medo do novo?
Do inevitável?
Ou do simples fato de estar vivo
Sem controle
Numa falsa liberdade que nos mantem vivos
Alimentando na nossa alma
Um mito da caverna
Cada um com o seu
Criando expectativas de um futuro que nem existe
Aliás, o que seria existir?
O que é viver?
É ser um repetidor de sinais?
Na verdade, nada é real
Nada é bom e nem ruim
Basta olhar de um novo angulo
Sobreviver é mais facil do que imagina-se
Aquela cadeira de balanço
Pra frente e para trás
Esse é seu destino
Sua finalidade
E sempre fará seu papel
Dar conforto aqueles que já se cansaram
Cansaram talvez do que nada fazem
Cansados de nada serem
Buscando o que não existe
Vivendo o inevitável
Uma vida de balanço
Balanço este que não enjoa
E nem para
E nem deve
Pois é sua função
Dar movimento aqueles que mesmo parados
Querem se mover
Movem-se no vazio
Na ilusão do simples ser
Contentam-se nisso
Numa vida de balanço
O mundo gira
E nada muda
A indiferença preenche
Lacunas que nem existem
As vezes lembro
O que era pra ser
E nada cooperou
Até que se torna claro
Que nada precisaria acontecer
Para que algo mudasse
Pois não ia
Por falta ou excesso de forças
Nao dá pra saber, sempre assim
A certeza da incerteza
O grito da criança muda
E olhar do cego
Resplandece
Sou a alma que emana a chama
Sou o corpo que ecoa o grito
De um ser que não suporta
O sentimento absorvido
Rasgo a alma, corto o laço
Pouco a pouco, me refaço
Extravaso de repente
O que de mim já não faz parte
Plantei uma flor que não pode florescer
Construí na minha mente
Terra fértil pra plantio
Impossível suportar a tempestade dentro do meu peito
A água e os ventos
Tudo destroem
Já está difícil segurar as raízes
Absorver o que é bom
Eu estou com medo
No jardim já tudo se desfez
O dia escurece a cada segundo
E com mais força
Tudo se repete
Vamos conseguir superar?
Essa catástrofe é natural
O sol tímido logo vai aparecer
Queimando as memórias remanescentes
E tudo
Quando você disse seu último adeus
Logo o sol parou de brilhar
Você pegou minha alma e a desprezou
Cansado de seus falsos alarmes
O meu mundo parou de girar
Você não é mais a mesma
Eu também não sou
Porque você me deixou?
E disse seu ultimo adeus
Você pode dizer o que quiser
Mas não é tão fácil assim
Quando tudo chega ao fim
Vemos o que realmente era
E tudo é muito frio
O sol parou de esquentar
E eu pensava
Que eu nunca ia te deixar
Te deixar escapar
Mas não somos mais os mesmos
Eu lembro de você e eu
Mas você tomou seu caminho
E meu caminho não é mais o seu
E então, você disse seu ultimo adeus
No calendário vejo
O dia está próximo
Eu digo aos céus
Obrigado
O cafune do destino
Me acalenta
Me encanta
Canta a alma
O desejo grita
Ínfimo raciocínio
Recupero a sensatez
E só
Em vidro, guardo tudo
Transparente são os limites
Quebro e corto-me sem receio
Deixando por onde passo
Com viscoso sangue carmim
Manchas do que eu sou
Este é novo
O mais completo
Vem de dentro
Pensamento
Rasga a carne
Em versos
Deixando claro
O dizer da alma.
Num vil pensamento
O olhar é perdido
Descartando explicações
Construindo muralhas
Passos são desnecessários
E os caminhos são incertos
