Coleção pessoal de Cobz

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Meia noite e cinquenta


Razão...
Um cérebro.
Uma massa encefálica.
Ligações neurais.
Emaranhado de neurônios.
Eletricidade.
Raciocínio.


Como posso eu
Nascer de tal barro?
Ser filho da racionalidade?
E em meio a madrugada
de uma segunda-feira
Não conseguir dormir
Por causa de você


Como posso eu
mesmo sabendo
que terei de acordar cedo,
Que estarei cansado
Escrever um poema
Por causa de você


Mas é claro que eu,
Eu sei a resposta
E me sinto à vontade
de dizer para ti


Não consigo dormir
Por causa do teu xampu de amêndoas
Por causa do teu riso descontraído
Por causa do que vivemos até aqui


Não consigo dormir
Por causa da tua voz que ecoa no quarto
Por causa dos teus olhares que desarmam
Por causa do teu toque que me acende


Não consigo dormir
Por causa da nossa vida
E dessa minha racional memória
Que me lembra que estou sozinho


E é por isso que em meio a madrugada
Meia noite e cinquenta
Me sinto na rua
Mesmo sob macio colchão


E é por isso que perco o sono
Por causa de você
E sei que isso não será explicado
Razão...

Ela


O que me faz apaixonar por ti? Poderia
dizer que é teu rosto, teus traços, o corpo,
o cabelo, o sorriso... teus olhos, tua boca.
E não haveria quem contestasse. Mas
não. Não é isso que me faz apaixonar por
ti a cada novo sol. O desabrochar de uma
flor também lembra-nos de tua finitude.
Portanto, apaixono-me por mais. Por tua
liberdade. Não pelo teu rosto, mas pelas
tuas expressões. Não pelo teu corpo, mas
pela tua graça. Não pelo teu cabelo, mas
pelo carinho com que cuidas de cada
cacho. Não pelo teu sorriso, mas pelo teu
riso. Não pelos teus olhos, mas pela forma
como olhas. Não pela tua boca, mas pelas
tuas palavras. E assim responderia: recuso
me a apaixonar somente por ti. Apaixono
me pelo que transborda.

Pai

Ó pai
Aqui nesta sacada
Olhando para a noite estrelada
Se é que aí está
Preciso que aí de cima me olhe
E me mostre a melhor estrada

Ó pai
Me diga o que faço
Me ajuda a continuar nadando
Mesmo que já não aguento o repuxo
Mesmo que não quero mais
Me manter boiando
De forma que as ondas da vida
Do meu indivíduo estão ganhando

Ó pai
Me faça lembrar
Me faça lembrar do porquê
Do porquê entrei nesse mar
Quais objetivos queria alcançar
E do quanto vale a pena nadar

Ó pai
Me ajude a recuperar o fôlego
Me ajude a reabrir o olho cansado
Me ajude a me livrar das câimbras e dos machucados
A qual a vida me impõe

Ó pai
Me digas o que te fez tão forte
E me faças tão forte quanto tu eras
Me mostre quais foram tuas escolhas
Das mais graciosas às mais medonhas
Mesmo que não sejam de grande honra

Ó pai
Me dê forças para continuar
Me dê vontade para nadar
E uma luz para me guiar
E por fim peço de joelhos
Que me liberte dessas garras
Que me puxam para o alto mar
E me levam para o fundo do mar
O mar da vida

⁠Súplica Muda

Para fora
Para longe
Já foi embora
Em uma falta de firmeza
Permaneceu sem mudança
E perdeu por fraqueza

Chorou
Implorou
Clamou pela volta
Em uma súplica calada
Procurando sem sentido
Em um quarto sem mais nada

Levante-se
Faz alguma coisa
Perde o medo da vida
Perde o medo do pensamento
O pensamento de outras pessoas

Percebe
Que no fim já não importa
Que não deve nada ao outro
E que o sofrimento lhe devora
E que no fim das contas
Necessita colocar tudo pra fora

Se decide
Define a meta da felicidade
Corre atrás do que já foi
Em busca da liberdade
E da sua própria vontade

Entra na luta
Vai contra a sociedade e suas condutas
E argumenta incessantemente
Deixando de lado todo pudor
Rogando para que no fim
Tenha de volta seu grande amor