Coleção pessoal de cicero_lima_4

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Cuidado com quem divide a calçada com você: às vezes, a pessoa só está seguindo o mesmo caminho, não o mesmo propósito.

O anjo e o demônio dividem o mesmo banquete no nosso peito, a força de cada um é decidida por quem você escolhe servir primeiro.

Guardamos o deserto mais árido e a fonte mais viva dentro de nós, a paisagem que prevalece é aquela que você decide regar todos os dias.

Carregamos o próprio abismo e as próprias asas, o tamanho de cada um depende de qual deles você escolhe dar de comer hoje.

Nem toda escuridão se curva diante de uma prece, exigindo que até a mais pura mansidão empunhe o aço para que a luz tenha o direito de amanhã florescer.

Bendita é a alma que não se demora na queda, mas usa os fragmentos do chão para pavimentar o próprio retorno.

Feliz daquele que faz do próprio abismo o cenário perfeito para aprender a voar.

Sábio é aquele que transforma o peso do obstáculo na matéria-prima do seu próprio alicerce.

A caridade que anula a responsabilidade do outro não cura a sua dor, apenas adoece a sua própria liberdade.

Quem aceita carregar o peso do mundo acaba virando apenas o apoio de quem se recusa a andar.

O peso que hoje te cansa é o mesmo que te constrói. Sentir a fadiga do processo é a prova máxima de que você escolheu ser o arquiteto da sua história, e não apenas uma testemunha do tempo.

Se o saldo da vida parecer negativo, a conta fecha no instante em que olho para você. Você é a prova de que o destino sabe o que faz, mesmo quando parece se perder.

Eis que nosso amor se fazia em imagens quando o vento velejava pelos vales vazios e brisas brandas beijavam os bosques. Tudo era fantasia e brilhavam as retinas sob o silêncio de sinuosas sentenças de alegria. Pois se sabia que a realidade existia em estado de poesia que percorria planícies pálidas e profundas a cegar nossas dores ocultas. Folhas frágeis flutuavam e a vida se fazia como um rio frente ao frio rubor do esquecimento ao furtar palavras alimento na mesa de nossos arrependimentos. Cantavam sabiás negros sobre campos calados e nosso ser fatigado caminhava as motanhas do sagrado. Mansas marés murmuravam melodias marítimas e na praia nossas pegadas se demoravam. Tímidas tardes tigiam de tons tênues a terra vermelha de nossos antepassados, que reviviam rios que riscavam rochedos rugosos. O amor era oneroso, mas se dividia em parcelas a perder de vista. E satisfeitos nossos dentes riam. Douradas dálias dançavam diante do dia. E olhavam nossas retinas no esplendor de uma alegria suspensa que deixa mais amena a melodia, era o que os sons da casa dizia. Borboletas bordavam o bosque e nós bordávamos nossa própria sina. Claras cascatas cantavam cristalinas em nossa face aguerrida e os olhos se fartavam de margaridas nas palmeiras de minha terra antes do exílio, se é que eu não fantasio. E negava no comércio o consumismo a escrever versos plenos de simbolismo. Assonâncias e aliterações falavam o não dito e não se escreviam versos malditos, que eram uma outra tendência da existência. Vastos ventos varriam veredas verdes, e a vida ficava cada vez mais cheia de lembranças e percevejos na constante relatividade em que te vejo e na altura de um beijo grilos grardavam os jardins. De uma espera que nunca chega ao fim. Hei de habitar longínquas luzes que lembram lagos luminescentes. Eu, você e todos os viventes, a beber a crença do amor que se esvai como um retrato passado a perder as cores. Sombras suaves introduziam a noite em prateadas plumas a pousar nos pinhais antigos ancestrais em que místicos monges meditavam entre montanhas e o silêncio era tão grande que doía nos ouvidos do instante de uma prece contida. Eu pensava em você, no seu ser, onde raras rosas resistiam ao rigor do inverno. Rosas do poema que se faz em prosa e beija a língua dos versos na altura do agora, pois há de se observar que doces desejos deslizam dentro da alma. Sinto profunda calma e acalento as palavras que têm sede de serem ouvidas. Serenos sinos soam sobre a terra vermelha. E a poesia se escreve alheia, em um longo romance entre as palavras que no chão se lavra. Eis que da noite densa caiu a aurora, que dourava a nossa estrada e a alma vaga na vasta manhã. O eco do vento percorre o tempo, nosso alimento, e nos fartamos de horas e minutos tênues sobre a névoa leve que desce entre verdes de nossa natureza. Um rio sombrio conduz o destino e rimos pois que há muito se espera em nossa terra esfera. A brisa suspira entre as ilhas antigas que nos convida a unir nossas vidas em um momento de epifania.

A vida pode não ter sido um caminho fácil, mas foi o único caminho que me trouxe até você. E isso justifica tudo.

Deixe de ser plateia do destino dos outros e assuma o papel principal da única história que realmente te pertence, a sua.

Seja seletivo com quem divide sua mesa, remédio e veneno costumam vir no mesmo frasco.

Gastei oxigênio tentando puxar para o topo quem torcia para que a minha corda arrebentasse.

Eu queria nunca ter cruzado o teu caminho.
Não porque você tenha sido uma pessoa ruim, mas porque você me fez enxergar um futuro que só existia na minha cabeça.
Você chegou justamente quando eu estava tentando me reconstruir, e, sem que eu percebesse, acabou se tornando o meu norte. Eu mergulhei de cabeça de um jeito que hoje até me assusta. Dediquei a você o meu melhor sorriso, o meu tempo mais precioso, o meu cuidado e toda a minha entrega.
E o que sobrou para mim? Apenas o eco do seu silêncio, a frieza da sua distância e o vazio da sua ausência.
O que mais machuca não é ver você ir embora. É olhar para trás e perceber que, para você, tanto faz se eu estou aqui ou não. Dói ver que a minha presença nunca fez diferença real na sua vida.
Quantas vezes eu deixei os avisos de lado, engoli o meu orgulho, quebrei a cara e insisti... tudo isso para, no final, abrir os olhos e notar que eu era o único lutando por nós dois. Eu estava sustentando sozinho uma ponte que você já tinha abandonado.
Quem sabe o tempo cure e um dia tudo isso faça algum sentido. Até lá, sigo recolhendo os meus pedaços, tentando me refazer e reaprendendo que o amor de verdade não deveria machucar tanto.

Você me olhava com uma promessa imensa no sorriso, mas suas atitudes nunca saíam do papel. E eu, mergulhado na vontade de dar certo, confundi a sua falta de opção com reciprocidade. Dei palco para as suas desculpas porque queria acreditar que o problema era o tempo, e não a sua falta de querer.
Você usou a minha calmaria para abafar o caos da sua bagunça interna. Validou o seu ego com o meu cuidado, colhendo o melhor de mim enquanto me deixava apenas com as suas sobras. Fez com que eu me sentisse especial na mesma proporção em que me descartava quando a conveniência mudava de direção.
Você dizia que o nosso encaixe era raro, mas preferiu a pressa dos desapegos. Dizia que adorava a minha companhia, mas sumia sempre que a rotina exigia presença. Dizia que tinha medo de me machucar, mas usou justamente esse medo como escudo para não se comprometer.
E sabe o que deixa um nó na garganta?
É dar-se conta de que eu estava construindo bases sólidas para nós dois, enquanto você só queria um abrigo passageiro para os dias de chuva. Eu apostava no que a gente poderia ser, e você só se ocupava em ter certeza de que poderia ir embora a qualquer minuto.
Hoje, eu decido fechar essa porta.
Escolho resgatar a intensidade que gastei com quem era raso.
Escolho a certeza que você nunca soube me dar e a dignidade de não caber mais em espaços tão pequenos. Eu não aceito mais ser o rascunho de alguém que nem sabe o que quer escrever.

Quem persegue o que nunca viu, quando finalmente alcança, não sabe o que fazer.