Coleção pessoal de Bipolar
As Sementes do Submundo
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Ele não lhe ofereceu flores.
Ofereceu-lhe uma romã.
Vermelha como o sangue
que os deuses derramam
e chamam de destino.
“Coma”, ele disse.
Não como uma ordem,
mas como uma promessa.
E ela sabia—
uma única semente
poderia mudar tudo.
Ainda assim,
levou a fruta aos lábios.
Uma.
Duas.
Três.
E a cada semente engolida,
o mundo acima parecia mais distante.
Os campos.
O sol.
Os deuses.
Tudo desaparecia.
Até restar apenas ele.
Hades não precisava acorrentá-la.
Não precisava fechar os portões.
Não precisava obrigá-la a ficar.
Porque o amor dele não dizia:
“Você pertence a mim.
Dizia:
“Se quiser ficar,
eu lhe darei um reino.”
E talvez fosse isso
que tornasse tudo tão perigoso.
Porque ela poderia ter recusado.
Poderia ter cuspido as sementes,
voltado para a luz
e deixado o submundo para trás.
Mas não deixou.
Ela escolheu a escuridão.
Escolheu as mãos dele.
Escolheu o homem
que aprendera a amar em silêncio
num reino onde nada florescia.
E quando o último grão
desceu por sua garganta,
Hades não sorriu por tê-la vencido.
Sorriu porque, pela primeira vez,
alguém havia escolhido ficar.
Então os portões do submundo se fecharam.
Não como uma prisão.
Mas como um lar.
E dizem que o amor
deve ser luz.
Mas talvez alguns amores
sejam feitos para florescer no escuro.
Talvez algumas pessoas
não sejam destinadas ao céu.
Talvez algumas almas
encontrem seu paraíso
justamente onde os mortos descansam.
E talvez—
se alguém me oferecesse uma romã
com seis sementes de eternidade,
eu também escolheria comê-la.
Se no fim do caminho
estivesse você.
O Céu Pode Esperar
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Quando a morte vier me buscar,
não acenderei nenhuma vela,
não rezarei por salvação,
nem implorarei por um lugar entre os santos.
Que os anjos chamem.
Que os portões do paraíso se abram.
Que o infinito me ofereça suas estrelas.
Eu ainda direi não.
Porque o que é o céu
quando seus olhos não estão lá?
Que valor existe na eternidade
se nela eu tiver que esquecer o som da sua voz?
Então, se a morte me levar,
eu atravessarei seus corredores escuros
com seu nome preso entre os dentes,
como uma última oração.
E se Deus me perguntar
por que abandonei o paraíso,
eu responderei:
“Porque ela ficou para trás.”
E voltarei.
Mesmo que seja tarde.
Mesmo que eu tenha que atravessar o inferno.
Mesmo que meus ossos se desfaçam
e minha alma seja condenada a vagar.
Eu voltarei.
Porque há amores
que não pertencem ao céu.
Há amores que nasceram no escuro,
cresceram entre feridas
e aprenderam a chamar a eternidade
de lar.
E se para ficar ao seu lado
eu tiver que morrer mil vezes,
então que a morte tenha paciência.
O céu pode esperar.
