Coleção pessoal de antonio_evangelista_1
Esse contorno material não me diz até onde eu sou...Bom... Aprendi que se eu quiser mudar você, tenho que antes me dispor a ser mudado. Isso é inevitável. E pertenço a todos os lugares que me fizeram nascer de novo. Eu sou eu e minhas circunstâncias. Se não as salvo, não me salvo eu.
É imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente, simplesmente porque a desejamos. Só é moral o desejo acompanhado da severa vontade de prover os meios da sua execução.
O que distingue um grande poeta é o fato dele nos dizer algo que ninguém ainda disse, mas que não é novo para nós.
Em épocas de grande agitação, o dever do intelectual é manter-se calado, pois nessas ocasiões é preciso mentir e o intelectual não tem esse direito.
Nas agitações provocadas pela escassez, as massas populares costumam procurar pão, e o meio que empregam costuma ser o de destruir padarias.
Cabe formular esta lei que a paleontologia e a biogeografia confirmam: a vida humana surgiu e progrediu só quando os meios com que contava estavam equilibrados pelos problemas que sentia. Isto é verdade, tanto na ordem espiritual como na física.
(Livro "A Rebelião das Massas")
"[...] conforme nossos sentimentos atingem mais a espiritualidade, mais perdem a violência e a força mecânica. Sempre será mais violenta a sensação de fome no esfomeado que o apetite de justiça no justo."
“A pessoa inclinada ao mecanismo da obsessão, ou de estrutura muito simples e rude, converterá em “paixão”, quer dizer, em mania todo o gérmen de sentimento que nela cair.”
O aristocrata herda, quer dizer, encontra atribuídas a sua pessoa umas condições de vida que ele não criou, portanto, que não se produzem organicamente unidas a sua vida pessoal e própria. Acha-se ao nascer instalado, de repente e sem saber como, em meio de sua riqueza e de suas prerrogativas.
Ele não tem, intimamente, nada que ver com elas, porque não vêm dele. São a carapaça gigantesca de outra pessoa, de outro ser vivente, seu antepassado. E tem de viver como herdeiro, isto é, tem de usar a carapaça de outra vida. Em que ficamos? Que vida vai viver o "aristocrata" de herança, a sua ou a do prócer inicial? Nem uma nem outra.
Está condenado a representar o outro, portanto, a não ser nem o outro nem ele mesmo. Sua vida perde inexoravelmente autenticidade, e converte-se em pura representação ou ficção de outra vida. A abundância de meios que está obrigado a manejar não o deixa viver seu próprio e pessoal destino, atrofia sua vida.
Toda vida é luta, esforço por ser ela mesma. As dificuldades com que tropeço para realizar minha vida são, precisamente, o que desperta e mobiliza minhas atividades, minhas capacidades. Se meu corpo não me pesasse eu não poderia andar. Se a atmosfera não me oprimisse, sentiria meu corpo como uma coisa vaga, fofa, fantasmática.
Assim, no "aristocrata" herdeiro toda a sua pessoa vai se desvanecendo, por falta de uso e esforço vital. O resultado é essa específica parvoíce das velhas nobrezas, que não se assemelha a nada e que, a rigor, ninguém descreveu ainda em seu interno e trágico mecanismo — o interno e trágico mecanismo que conduz toda a aristocracia hereditária à sua irremediável degeneração.
(Livro "A Rebelião das Massas")
O livro, pois, ao conservar apenas as palavras, conserva somente as cinzas do pensamento efetivo. Para que este reviva e sobreviva não basta o livro. É preciso que outro homem reproduza em sua pessoa a situação vital à qual aquele pensamento respondia. Somente então poder-se-á afirmar que as frases do livro foram entendidas e que o dizer pretérito foi salvo.
"A cultura ou saber não se apresenta a nós como uma chave que nos permite dominar o caos e a confusão da vida, mas, ao contrário, devido a seu próprio crescimento fabuloso, converteu-se, por sua vez, na selva onde o homem se perde."
"A cabeça do homem comum está abarrotada de idéias recebidas por inércia, compreendidas pela metade, desvirtualizadas, abarrotada, portanto, de pseudo-ideias."
"Surpreender-se, estranhar-se é começar a entender. É o esporte e o luxo específico do intelectual. Daí a necessidade de vermos e de olhar o mundo com olhos dilatados pela surpresa. Tudo no mundo é estranho e maravilhoso para umas pupilas bem abertas."
