Coleção pessoal de anna_flavia_schmitt

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As palavras que deixam o aroma
da tua alma nesta distância oceânica
convidam a imaginar o que o silêncio
pode fazer conosco, dia e noite,
além de encantar o coração
para o rito íntimo de iniciação.


O que há em mim não tem parado
de clamar para o momento chegar.
Observando um par de tapicurus
na Baía de Babitonga,
fiquei sonhando de olhos abertos
como será quando a gente se encontrar.


Se é amor ou paixão, quero que nos dê
céu e asas, para não temermos voar,
para ignorar previsões do fim do mundo
ou quando disserem que o romance
já não terá mais tempo ou chance de durar:
que a gente tenha a coragem de dobrar a aposta.


Porque desde o dia em que te conheci
não acho mais graça em ninguém
para conversar, e algo tem me dito
que a recíproca é a mesma.
Ora tenho sido o papel e você a caneta,
sem pensar muito a gente sempre inventa.


Quando a hora certa nos brindar,
que venha a certeza lado a lado,
que o aconchego de sossegar
acompanhados venha se celebrar,
e de tudo a gente se permita desligar
sem se importar com o que irão pensar.

Romance


Sem forçar e aos poucos
o tesouro do peito entregar.


Com carinho as bombas
internas desarmar,
e o território liberado ocupar.


O ciclo natural da vida,
um lindo romance para contar,
e o mundo inteiro encontrar
numa só pessoa para amar.

Diante do oceano que és,
como ave e livre poema,
sobrevoo com asas intensas
nas tuas regiões costeiras,
sem permitir que me vejas,
para abrigar-me nos manguezais
do teu consciente e inconsciente,
e ousar ser o pulmão e a respiração.


Súdita dos teus ensinamentos corajosos
que permanecem mesmo em fase
de maré bravia que a presença me priva,
a mente vira árvore e rochedo
onde o savacu-de-coroa se abriga.


Não apenas feita de algum sinal,
mas da raiz até a alma sambaquiana,
sob a proteção do Hemisfério Austral,
nas correntes da Baía da Babitonga,
pronta para com amor te tomar sem conta.


Porque reinar sob a glória do teu amor
a mim me destina com toda a honra
e pompa que sei que serei digna,
sob o teu olhar feito de fidalguia:
o desejo sedento, a adorável malícia,
e constelação que n'amplidão te ilumina.

Não tem nada a ver com clichê,
não existe ninguém como você,
e não preciso sequer reiterar.


Tens a capacidade de capturar
o voo dos meus sentidos
que, como falcões-peregrinos,
te aceitam como o mais
distinto de todos os ninhos,
e não reagem mais
a outros novos destinos.


Seja no sobrevoo ou fincada
nas terras das três Américas,
levo o código de reconhecimento
inabalável, com o fogo eterno
no coração e no pensamento.


Tal qual a dança das alvoradas
na Baía de Babitonga,
reconheço sem conta
que existe gente que conversa
a vida toda e não alcança
o que uma única mensagem tua
é capaz de comigo fazer:


Tu tens potencial completo
para inteiramente me render,
e tu às minhas mãos pertencer.


Mesmo quando se afasta
por qualquer motivo em silêncio,
não me aflito porque dentro
o porvir está sendo construído.

Dá para coexistir com a Inteligência Artificial e a Inteligência Social. A Inteligência Social precisa ser resgatada para o futuro termos uma Humanidade com o futuro mais pacífico. Educação, Cultura, Religião e a Mídia de Massa têm o dever moral de resgatar a Inteligência Social.

Fincar-se na terra, semear-se,
permitir-se crescer, florescer
e frutificar-se como o pomar
de frutas doces entre rochedos
e os ventos, para alimentar
o pavão em todas as estações,
é o meu mais ambicioso plano,
literal, secreto e paradisíaco,
para a celebração romântica
da revelação do seu colorido
entre as minhas montanhas.


Obedientes ao rito da primavera
e à maturidade que exige
de ambos os dois pés na terra,
embora estejamos flutuando
e o tempo esteja passando
como o rio entre as pedras,
nossas mentes e corações
todos os dias se encontram,
desde o primeiro dia em que nos
conhecemos, estamos namorando.


São inatos nas nossas veias
a dedicação, a consciência e o sacrifício,
à altura dos desafios, em nome
das conquistas grandiosas
que incluem a honra e a liberdade.


Por isso, tornarmo-nos o grande amor
um do outro é inevitável,
porque está escrito no Universo
que, em breve, despejados dos egos,
reuniremos nossos hemisférios
como águias que não temem
cruzar céus e montanhas.
Seremos espada e escudo —
vitoriosos diante das batalhas.

Penetrei na tua alma
sem sequer roçar a pele,
com rebeldia indomável
na tua carne venerável.


Causei a mais rara insurreição,
íntima, profunda e perene,
ao invejar o próprio Sol
que ousa aquecer a tua pele.


Ninguém arranca o regresso.
Não há guerra nem distância:
nós moramos dentro
com sublime juramento.


Nem que o Hemisfério Austral
se levante contra nós,
é tempo de apreciar
o silencioso e raro florescer
em paz da Flor-de-Maio.


Chegará o momento
de rasgar todos os protocolos,
de dar de ombros
aos falsos escudos
das nossas Américas.

Pensamento matutino


que me agarra pela cintura,


que me faz resistir nunca,


nem por ausência de ternura


me tornar um arquivo na tua vida.






Mas sim elevar o jogo à altura,


para te derreter e te levar à loucura.

Ninguém ou qualquer
situação rompe a paz
de quem assumiu a paz
como filosofia de vida,
sem precisar performar
para ninguém no dia a dia,
o que fascina ou não;
busca só o que faz bem
ao redor e ao coração.


A real autopreservação
feminina não é nenhum
pouco da boca para fora,
não tem nada a ver
com abrir trincheiras,
e nem carregar desespero
por qualquer validação:
é manter para si a direção.


Como a haste de uma
íris-da-praia em maio,
em alguma restinga
em Santa Catarina,
se dobra diante da força
das correntes, tal qual
reconhece quem é
ou não capaz de a deixar
de joelhos, e se tornou
o habitante dos secretos
e fascinantes devaneios.

A brutalidade do cotidiano
o instruiu para manter
o estado de alerta constante,
e sobretudo, para responder
sempre com um novo ataque;
o desastre interno foi desfeito.


Ele se desaprendeu que viver
pode ser sereno e belo,
de perto e por dentro
viu que pode ser intenso,
doce, sublime e terno.


Ao redor tudo não tem
mais o mesmo sentido,
desde que me fiz o destino;
não é mais endereço
pensar em viver sozinho.


O hábito de viver em estado
de sítio foi pouco a pouco
dissolvido porque não
consegue mais viver sem
estar conectado comigo,
por estar viciado na minha brandura,
desejando em ser a favorita loucura.

Nos jogos entre caçador
e a sua caça perfeita não
tenho o formidável encaixe,
porque sou na verdade
no deserto da existência
e n'amplidão o autêntico oásis.


Foram e sempre serão postas
demonstrações de seda,
como um banquete na mesa.
isso não significa acesso fácil,
sou poeta, não se esqueça.


Tudo vira algum tipo de poema,
para quem quer tudo no mundo,
e só não quer ter razão;
para não se perder no labirinto
do tédio e perder a emoção.


Porque algo de Amu Darya
também corre nas veias,
e para lidar comigo é preciso
prestar atenção no curso,
para não ser levado pelo turbilhão,
e perder o rumo do seu coração.

Disseste que amas
caminhar sob a chuva,
Para afinar a escuta
do seu raro coração;
sob o testemunho fiel
das luzes da cidade:
nos queremos com
toda a intensidade.


O prelúdio que nós
nos encontraremos
em profunda verdade,
nos ouvidos tem susurrado,
a surpresa inocente
do primeiro amor ardente.


Que está predestinado
que de mãos dadas,
nós bailaremos na chuva
e ao destino agradeceremos
com todos os doces beijos.

A noite não somente
no sentido subjetivo
no Hemisfério Austral,
agora parece destino.


Tudo em nós é indígena,
e absolutamente latino,
têm rumo e atravessa.
Os olhos não esquecem
nunca de olhar para o alto.


Meus olhos são teus olhos,
e os sonhos são os mesmos,
De pé e jamais de joelhos,
nós sabemos da onde viemos.


A tua alma é a alma da minha,
e a minh’alma é a tu’alma.
Seja em paz ou quando aflita,
o que é sobrenatural nos alia.


Sem olhar para cartilha,
sem fingir que nada afeta
e para deixar o alerta:
que as raízes doem com real motivo
onde e porque o povo sofrido
está sendo reprimido pelo despotismo.


Discreta lágrima sutil que desce
com o sabor do Salar de Uyuni.
Continental evidente tem
sido o tamanho do desajuste.


Não te vejo, sei que me vês,
sentimos muito por dentro.
E sem dizer uma palavra
plantamos um jardim inteiro
e em silêncio de maio,
em tempo de re(viver)
o legado de Roque Dalton.

Espírito de festa de tribo a tribo
que não permite ser apagado
por ninguém no nosso destino.


Somos acangataras presentados
para alegrar todos os convidados.


A música que ecoa, a cortesia
nos passos e nos espaços,
e tudo os que mantém animados.

És o meu mistério favorito
todo cheio de magnetismo.
Com Acaçá nas mãos,
bem servido e envolvido
em folha de bananeira,
Você haverá de ser meu,
queira ou não queira,
Na tua imaginação tenho
todo o dia sido o poema.

No Rio São Francisco
pode ser encontrada
a Cachorrinha d'água,
que tem o pelo branco
e uma estrela dourada
na testa destacada,
Muita gente de vez
em quando nada no rio,
sem querer esbarra,
Não te preocupe,
ela não faz mal, não morde,
é apenas bem levada.

Com flora e fauna em comum partilhada,
ergueu-se Abya Yala, nosso continente,
a nossa América do Sul amada.


Muito antes da Pátria Brasileira
ser imaginada ou criada,
pelas mãos indígenas abençoadas,
há milênios a Mandioca foi cultivada,
ela é raiz ancestral da nossa Pátria.


Do Chuí ao Caburaí, em terra antiga,
nasceu e cresceu enraizada,
a Mandioca histórica,
generosa, raiz forte e poderosa.


Dela os tupis extraíram a farinha de Tapioca —
herança ancestral, pura e sagrada,
que ganhou os corações de outras gentes.


Pelos mares, os portugueses a carregaram
para Goa, Damão, Diu e Nagar Haveli,
onde a planta se fez abençoada,
acolhida e por muita gente cativada.


Em Kochi, Kannur, Kozhikode e Mumbai,
mesmo sem colônia celebrada,
a tapioca encontrou acolhida, celebrada
e passou a fazer parte da mesa farta.


Assim viajou a raiz sul-americana,
que uniu dois continentes
através dos navegadores portugueses,
entrelaçando as nossas gentes.


A Nação Brasileira, orgulhosamente,
reconhece a herança indígena profunda
que escreveu no coração para sempre
a sua linda história heroicamente.

Há anos ninguém aprendeu
e nem mais ensinou
nesta porção continental
a olhar para o alto
do nosso Hemisfério Austral.


Onde a posição, a voz
e a memória indígena
são todos os dias cortados
até em meio aos Andes,
Das lágrimas do povo
aguayos têm sido tecidos,
Nenhum dos capítulos
serão por mim esquecidos.


Por audácia e pretensão
continuo por herança
se a tal que incomoda,
A guerra sempre é
a dileta filha da fofoca,
Por isso quero ser sempre
que a minha língua
seja a espada que a corta.


Olhos e mente de Condor
sem pausa diante da vista,
ainda seja por pura poesia;
Porque a América do Sul
não merece virar nostalgia.

A guerra é filha
da fofoca,
A minha língua
é a espada
que a corta.

Lembro da época em que ler jornais
e revistas de fofocas de artistas
expostos pelo jornaleiro
era motivo de encontro social.
Ir apreciar a beleza feminina, para uns,
era combustível fundamental.


A infância e a adolescência
de muita gente passou pela banca de jornal,
que vendia revistinhas,
brinquedos, álbuns de figurinhas,
doces, selos e até
clássicos da literatura mundial.
Ir ao jornaleiro era parte
da nossa rotina sócio-cultural.


Revistas de carros, revistas de receitas,
revistas de viagens, revistas de beleza,
revistas de religião e até revistas de arte,
também se encontravam nas bancas de jornal;
e conversar com o jornaleiro
fazia parte da ida à banca como ritual.


Hoje, em tempos em que alguns
desqualificam a nossa cultura
para pavimentar a reescrita por forças alheias,
mal se encontra nas esquinas das cidades
uma simples banca de jornal.


Depois de tudo, afastados desse detalhe,
tudo indica que fomos lançados
ao desastre intelectual como projeto
de braços do oculto, fadados
a um futuro anormal.
Sem me retratar, não consigo pensar
num acaso de maneira natural.