Coleção pessoal de alvenascer
Notas de um rascunho II
Perdoe-me a falta de tato ou certa insensibilidade, mas em vezes como esta
que estou escrevendo isso, desejo saber um pouco menos, ter um pouco
menos de consciência, menos intelecto, ser alienado, uma marionete,
seguir unicamente uma crença, ser completamente ignorante a opiniões alheias,
e assim quem sabe, sentiria um pouco menos, viveria um pouco melhor.
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
E o síndico do meu tédio
Pedindo pra eu cantar
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...
Só deixarei de ter amar quando
O véu da morte cobrir minha face,
Mesmo assim nascerá em minha sepultura
Uma rosa em cujas pétalas,
De sangue, estará escrito: Amo você!
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa,completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!
Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.
As alegrias juntam-se as tristezas
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério.
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Cansado de chorar pelas estradas,
Exausto de pisar mágoas pisadas,
Hoje eu carrego a cruz das minhas dores.
