Citações
A noite guarda segredos que o dia não entende. Ela tem diplomacia de quem aceita contradições. Sento-me à sua mesa e aceito seu cardápio. Alguns pratos são amargos, outros, surpreendentemente doces. E eu como tudo com fome de entender.
Quando a saudade alcança, não nos dá esperança, só dá pancada, vem sem aviso, acerta o peito, desorganiza o fôlego e nos lembra, com brutal delicadeza, que houve amor onde hoje só mora o vazio.
A saudade não chega devagar,
ela atravessa a porta como quem tem direito. Não traz esperança, não oferece consolo, só deixa o impacto seco de quem já perdeu. É memória sem afeto, é amor sobrevivendo em forma de dor.
Há noites em que o céu me pede silêncio. Ele me julga sem palavras, apenas com vastidão.
Sinto minha pequena história diante do infinito. E a sensação é de humildade e alívio. Aceito o lugar que me deram no cosmos.
A esperança madura não exige certezas absolutas. Ela cresce em terreno de perguntas bem feitas. Satisfeita com pouco, ela floresce mesmo na escassez. Cultivá-la é trabalho de jardinagem diária. E os frutos, quando vêm, têm sabor de testemunho.
Sou confidente da madrugada, ela é a única que aceita minhas versões sem filtros, meus colapsos e minhas confissões inconfessáveis.
Minha mente é um território hostil após a meia-noite, lembranças andam armadas e a esperança raramente faz o turno da noite.
Minha esperança é uma sobrevivente teimosa, mesmo ferida e sem fôlego, ela insiste em se manifestar nos escombros.
Sigo. Não por coragem heróica, mas por uma teimosia visceral que me impede de aceitar o ponto final antes da hora.
Meu coração não conhece a economia do afeto, ele quer o inteiro, a verdade absoluta, e quase sempre recebe o troco em ausência.
A folha de papel é o único tribunal onde sou inocente, onde posso desabar sem julgamentos e ser fraco sem ser corrigido.
A esperança é uma visita inesperada, ela senta em silêncio, não promete nada, mas sua presença torna o ar menos pesado.
Sou o adulto que tenta ser o abrigo para o menino que ainda chora em mim, esperando por uma justiça que o tempo não traz.
Meu coração ignora a lógica das despedidas, ele insiste na espera mesmo quando a ausência já virou poeira.
Sou o somatório de insônias, esperanças remendadas e a vontade absurda de continuar, apesar de todos os prognósticos.
A fé, para mim, é o suspiro de quem, no escuro absoluto, ainda estende a mão esperando tocar a orla de algo sagrado. É saber que Deus me vê mesmo quando eu mesmo me tornei invisível para o espelho.
Cicatrizes são medalhas da alma, não se espera emoção por ter elas, essas marcas de batalhas, insígnias de coragem invisível que um dia, foi a única moradia conhecida.
Já caminhei por desertos de silêncio,
onde a esperança se escondeu nas sombras. A vida, em sua frieza, não me ofertou razões para permanecer. O amanhã parece distante, um horizonte que não chama pelo meu nome. E ainda assim, respiro, como quem desafia o vazio. Talvez não haja sentido, talvez nunca tenha havido. Mas sigo, porque até o desespero carrega uma semente de quem insiste em existir.
Plantei raízes no silêncio ansiando pelo sol da esperança, mas mãos alheias cobriram a terra, impedindo-me de florescer.Meu caule se ergueu trêmulo, buscando o céu em vão, pois a sombra de terceiros pesava mais que minha vontade. E assim sigo, metade semente, metade lembrança do que poderia ser; um destino podado antes do tempo, um sonho que ainda respira sob a terra.
