Cheiro Saudade
Saudade
Singularidade do teu olhar
Nossos encontros e desencontro
Ausência caótica do meu amar
Demasiado das sensações
Ecoa instantes do amor a distância.
*Galho*
No móvel do quarto
só tua imagem em uma foto 3X4 cabe inteira de saudade
ocupando o cômodo todo.
Na última página do caderno,
escondido como quem pede socorro,
um rabisco insiste:
"... de um galho nasce o bem querer,
e eu te quis como um louco."
Do galho torto da lembrança
brotou essa febre mansa.
Não escolhi. Nasceu.
E quis. Como quem não tem escolha.
(Saul Beleza,)
Saudade do que foi vivido
Sinto saudade não do que faltou,
mas do que existiu inteiro,
do riso que aconteceu sem esforço,
do tempo em que o corpo não doía por lembrar.
É uma saudade estranha,
porque não pede volta,
só reconhecimento.
Ela diz: isso foi real, isso me atravessou.
Tenho saudade do jeito que eu era
quando aquilo cabia em mim,
quando o mundo não pesava tanto
e amar não exigia sobrevivência.
Não é ausência.
É memória viva.
Algo que passou, mas não morreu.
Algo que vivi, e por isso, deixou marca.
Saudade é isso:
não um buraco,
mas uma cicatriz quente
provando que houve vida ali.
San Telmo
Tenho saudade de San Telmo
não como lembrança bonita,
mas como falta física.
Daquelas que apertam o peito sem pedir licença.
Saudade das ruas gastas,
do chão que já ouviu passos demais
e ainda assim sustenta quem passa.
Ali, o tempo não corre. Ele observa.
Sinto falta do cheiro antigo das casas,
do tango escapando pelas esquinas
como quem não quer ser esquecido.
Em San Telmo, até o silêncio tem memória.
Ali eu era parte do cenário,
não visita.
O bairro me reconhecia
antes mesmo de eu dizer meu nome.
Hoje carrego San Telmo dentro,
feito ferida que não infecciona,
mas também não fecha.
É casa que virou ausência.
Não dói por ser passado.
Dói porque ainda é meu.
Há quem olhe de longe
não por saudade,
mas por inquietação.
Curiosidade não é cuidado.
É a pergunta que se faz
sem coragem de escutar a resposta.
Quem observa em silêncio
costuma carregar dúvidas
que não sustenta em voz alta.
Espia para confirmar
se a escolha feita
ainda se justifica.
Mas olhar não é presença.
E visitar não é permanecer.
Há histórias que não aceitam plateia
de quem escolheu não ficar.
Algumas portas seguem visíveis
não por convite,
mas por transparência.
Outras jamais se reabrem,
mesmo quando vistas.
E se alguém entende ao ler,
entende porque sabe.
Curiosidade reconhece
aquilo que não foi resolvido.
Nem toda saudade significa que a pessoa precisa voltar. Às vezes ela só marcou território dentro da memória.
Desejo não invalida amor. Saudade não invalida distância. E lembrar de alguém não significa traição emocional com outra pessoa.
"Ainda que, por breves instantes, a saudade se distraia,
ela volta, silenciosa, e se instala de novo.
As horas passam, mas não levam consigo
a dor que aperta o peito
nem a imensa falta que ela faz,
como se parte de mim tivesse ficado
no lugar onde você está."
Saudade que arde,
consciência amargada,
troca de alma
mal interpretada,
mas no peito derrete,
doce e late,
feito dor misturada
com calda de chocolate.
"O gosto da minha saudade
tem sabor de chocolate,
doce que invade,
aquece e não se abate,
derrete na boca,
na mente se espalha,
amor que retorna,
memória que não falha."
No fundo, a única ponte que existe na distância é o celular..📲 É por ali que a gente mata a saudade, que a gente sente o "tô aqui". Quando alguém resolve “dar um tempo” sem explicar, o silêncio vira abismo. Fica aquela sensação de abandono, como se o laço nunca tivesse sido tão importante pra ela quanto foi pra gente.
A carência veste a saudade de amor. A esperança veste a ausência de interesse de paciência. E o coração, teimoso como só ele sabe ser, completa sozinho as partes da história que nunca aconteceram.
A lembrança é a vida dos mortos.
A saudade é o abraço dos queridos.
Lembre-se, lembre-se sempre.
Pois, ninguém morre nas lembranças de quem ama.
*Algo estranho acontece lá fora, e eu aqui dentro não consigo dormir, não sei se é saudade o desamor, mas ambos me fazem pensar, e assim vou trocando de travesseiros e revirando na cama sem ter ao menos como sonhar.*
(Saul Beleza)
