Carne
Olhando-me no espelho, surpreendi-me com o que pulsa em carne viva, lindamente entre glóbulos rubros, explodindo em momentos tão meus... Fecho as portas para que as damas não se sintam constrangidas... Certa feita, joguei os copos nas paredes para ouvir o titilar dos cacos ao chão, piso-os, amaldiçoando em mim, a passionalidade...
Somos animais, mamíferos... apaixonados pelo toque, pelo cheiro, pelo suor, pela carne de outrem. A partir do momento que nos for tirado esse direito, do prazer instintivo, viraremos meros seres decorativos, superficiais e frívolos.
Nós paramos de comer carne há alguns anos atrás. Durante um almoço de domingo no campo, nós olhamos pela janela e vimos nossos carneirinhos correndo felizes pelo campo. Dando uma olhada nos nossos pratos, nós percebemos que estávamos comendo a perna de um animal que até bem pouco tempo também estava correndo pelos campos. Olhamos um para o outro e dissemos - espere um minuto, nós amamos estes carneirinhos, são criaturas tão doces e gentis! Então porque o estamos comendo? - esta foi a última vez que fizemos isto.
Enquanto a casca nos ofuscar, penaremos.
Enquanto a carne nos importar, sofreremos.
Não nos veremos, não viveremos, nem amaremos, apenas seguiremos, procurando o que já foi encontrado.
É com esgar de esfomeado que me ponho a saborear vorazmente o verbo. A carne minha que do escrever depende. Do viver insólito, do morrer mais insólito ainda. O que era não mais é, o que será talvez já seja. Eu não sei. Nunca vi. Se vivo, amo. Se amo, desfaço. Se desfaço, refaço uma vez mais e assim, amo novamente. O ciclo de minha vida é acíclico. Mutante, mutável. Amável, entrementes. Ouço o risco do lápis no papel, dançando ao compasso de minhas mãos gélidas, deixando palavras vulneráveis, passiveis de serem apagadas. Que se apaguem. A mesma fome do verbo que me fustiga agora é a mesma que me fará escrever tudo de novo, viver tudo de novo, e ainda assim, viver tudo diferente.
Mesmo que minha carne deixe o mundo dos vivos, permanecerei existindo em papel e tinta - a essência da minha alma.
A carne cresce, enrijece, envelhece e apodrece, porém os sonhos, os ideais e os pensamentos permanecem.
Quem já sentiu na carne a dor
Quem já sentiu na carne a dor
Sabe o tamanho da sua extensão
Quando vê outro sofrer a mesma dor
Dói em si a aflição deste outro coração.
Torna-se solidário ao sofrimento
Não julga, não faz comentários vãos
Abriga, abraça, oferece acolhimento
Com gestos de amor dá-lhes as mãos.
Às vezes, o silêncio, um simples olhar
Há mais calor humano para oferecer
Do que muito falar e nada dizer.
Perfil no facebook é como carne
exposta no açougue, por mais que se capriche no corte, sempre fica pingando sangue.
A mentira é um espinho que precisa ser extirpado de nossa carne; se isso não ocorrer, pode irradiar, infeccionar a nossa alma; tornando inaptos a comungar com Cristo, a cura da dor pelo bálsamo da verdade.
A carne milita contra o espírito, e não discerne as coisas espirituais; ela só quer sentir, sentir, e nunca saciar...O espírito milita contra a carne, e só quer libertar a carne da prisão que ela mesma é sua carcereira e entregou a chave em mãos alheias, ao usurpador de seu corpo, alma. Antagônicos são os que militam na carne e os que militan no espírito; depende da nossa escolha quem irá prevalecer neste maior desafio, batalha travada, dentro do nosso ser!
Precisa ser mais que ossos e carne,
aquilo que você ama é tudo o que você tem.
(Num país, tem uma cidade
nessa cidade, tem uma casa
e naquela casa tem uma mulher
e naquela mulher tem um coração
que eu amo,
e é isso que eu vou levar comigo
quando eu for).
