Carne
Somos animais, mamíferos... apaixonados pelo toque, pelo cheiro, pelo suor, pela carne de outrem. A partir do momento que nos for tirado esse direito, do prazer instintivo, viraremos meros seres decorativos, superficiais e frívolos.
Nós paramos de comer carne há alguns anos atrás. Durante um almoço de domingo no campo, nós olhamos pela janela e vimos nossos carneirinhos correndo felizes pelo campo. Dando uma olhada nos nossos pratos, nós percebemos que estávamos comendo a perna de um animal que até bem pouco tempo também estava correndo pelos campos. Olhamos um para o outro e dissemos - espere um minuto, nós amamos estes carneirinhos, são criaturas tão doces e gentis! Então porque o estamos comendo? - esta foi a última vez que fizemos isto.
Enquanto a casca nos ofuscar, penaremos.
Enquanto a carne nos importar, sofreremos.
Não nos veremos, não viveremos, nem amaremos, apenas seguiremos, procurando o que já foi encontrado.
É com esgar de esfomeado que me ponho a saborear vorazmente o verbo. A carne minha que do escrever depende. Do viver insólito, do morrer mais insólito ainda. O que era não mais é, o que será talvez já seja. Eu não sei. Nunca vi. Se vivo, amo. Se amo, desfaço. Se desfaço, refaço uma vez mais e assim, amo novamente. O ciclo de minha vida é acíclico. Mutante, mutável. Amável, entrementes. Ouço o risco do lápis no papel, dançando ao compasso de minhas mãos gélidas, deixando palavras vulneráveis, passiveis de serem apagadas. Que se apaguem. A mesma fome do verbo que me fustiga agora é a mesma que me fará escrever tudo de novo, viver tudo de novo, e ainda assim, viver tudo diferente.
Mesmo que minha carne deixe o mundo dos vivos, permanecerei existindo em papel e tinta - a essência da minha alma.
A carne cresce, enrijece, envelhece e apodrece, porém os sonhos, os ideais e os pensamentos permanecem.
Quem já sentiu na carne a dor
Quem já sentiu na carne a dor
Sabe o tamanho da sua extensão
Quando vê outro sofrer a mesma dor
Dói em si a aflição deste outro coração.
Torna-se solidário ao sofrimento
Não julga, não faz comentários vãos
Abriga, abraça, oferece acolhimento
Com gestos de amor dá-lhes as mãos.
Às vezes, o silêncio, um simples olhar
Há mais calor humano para oferecer
Do que muito falar e nada dizer.
Perfil no facebook é como carne
exposta no açougue, por mais que se capriche no corte, sempre fica pingando sangue.
A mentira é um espinho que precisa ser extirpado de nossa carne; se isso não ocorrer, pode irradiar, infeccionar a nossa alma; tornando inaptos a comungar com Cristo, a cura da dor pelo bálsamo da verdade.
A carne milita contra o espírito, e não discerne as coisas espirituais; ela só quer sentir, sentir, e nunca saciar...O espírito milita contra a carne, e só quer libertar a carne da prisão que ela mesma é sua carcereira e entregou a chave em mãos alheias, ao usurpador de seu corpo, alma. Antagônicos são os que militam na carne e os que militan no espírito; depende da nossa escolha quem irá prevalecer neste maior desafio, batalha travada, dentro do nosso ser!
Precisa ser mais que ossos e carne,
aquilo que você ama é tudo o que você tem.
(Num país, tem uma cidade
nessa cidade, tem uma casa
e naquela casa tem uma mulher
e naquela mulher tem um coração
que eu amo,
e é isso que eu vou levar comigo
quando eu for).
A carne lateja...
E não encontra outras variáveis...
Rotas sanguíneas em desordem...
A tez empalidece,
As pupilas se contraem e perdem o brilho,
São pistas de que a vida
Esta sendo saqueada pela escuridão eterna.
