Cantico dos Canticos do Rei Salomao

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Chamava-se Laura.
Não foi um amor como os outros. Não começou com febre no corpo nem com a vertigem dos impulsos súbitos. Começou com silêncio. Um silêncio atento, desses que antecedem as revelações. Ele a conheceu num curso de literatura, numa sala de paredes altas e ventiladores lentos, enquanto discutiam um conto de Machado de Assis. Ela, ainda insegura, confessou que sentia algo no texto que não sabia explicar. Não era tristeza, não era ironia, não era encanto. Era outra coisa.
Ele sorriu com a delicadeza de quem reconhece um território fértil. Disse que literatura não se explica, se atravessa. Que às vezes a compreensão vem depois da vertigem.
Foi ali que começou.
Não houve anúncio, nem consciência imediata de que algo raro se instalava. Apenas uma sequência de encontros que passaram a acontecer com naturalidade. Ele lhe emprestou A Paixão Segundo G.H., sublinhado nas margens com sua letra inclinada, como se oferecesse não apenas o livro, mas suas próprias interrogações. Deu-lhe um exemplar gasto de O Livro do Desassossego, dizendo que aquele livro não se lê, se suporta. Advertiu que ali não havia respostas, apenas espelhos.
Ela recebia cada obra como quem recebe um rito de passagem. Lia devagar, fazia anotações, voltava com perguntas. Ele a ensinava a ouvir o silêncio entre os versos. Mostrava que um poema não termina no ponto final, mas na respiração de quem o lê. Falava sobre a diferença entre emoção e sentimentalismo, entre lirismo e exagero. Ela o escutava com olhos vivos, mas não submissos. Havia nela uma inteligência em formação que não queria imitar, queria compreender.
Tomavam café no fim da tarde, sempre na mesma mesa junto à janela. A luz entrava oblíqua, pousava nos livros abertos, desenhava sombras sobre as xícaras. Falavam de Carlos Drummond de Andrade como quem fala de um parente distante, às vezes incômodo, às vezes necessário. Riam de versos que pareciam simples e eram abismos.
Ela anotava frases dele num caderno azul. Ele fingia não perceber, mas percebia tudo. Percebia o modo como ela inclinava a cabeça ao discordar. O jeito como ficava em silêncio antes de formular uma ideia. A maturidade que surgia pouco a pouco, como uma construção interna.
Andavam de mãos dadas pelas ruas do centro, não como amantes clandestinos, mas como dois pensadores que haviam encontrado abrigo um no outro. Não havia pressa. Não havia corpo colado. Havia calor, mas era um calor que vinha da palavra, do reconhecimento, da partilha de mundo.
Nunca houve beijo.
Nunca houve quarto fechado.
E, ainda assim, havia algo que doía como se tivesse havido tudo.
Porque havia possibilidade.
E possibilidade é uma das formas mais agudas de sofrimento.
Havia momentos em que ele sentia o impulso de atravessar a linha invisível que os separava do gesto definitivo. Bastaria inclinar o rosto. Bastaria permitir que a mão que já segurava se tornasse abraço. Mas algo o detinha. Talvez a consciência da diferença de tempo entre eles. Talvez o medo de macular aquela pureza intelectual com a concretude do desejo. Talvez a intuição de que certas experiências sobrevivem justamente por não se consumarem.
Ela, por sua vez, nunca pediu mais. Mas havia instantes em que seus olhos demoravam um segundo além do necessário. Instantes em que o silêncio se tornava denso demais. Nenhum dos dois era ingênuo. Sabiam que algo pulsava ali. Escolheram não nomear.
Ela partiu primeiro.
Um convite para estudar fora. Uma bolsa. Um futuro promissor que se abria como estrada. Ele a encorajou com a generosidade dos que sabem que amar também é não prender. Disse que o mundo era maior do que aquela cidade, maior do que os cafés, maior do que a cumplicidade que haviam construído.
No dia da despedida, caminharam longamente sem falar. A cidade parecia suspensa. O tempo, dilatado. No final, ela apertou a mão dele com força, como quem segura a borda de um precipício. Não disseram eu te amo. Talvez porque amor dito exige consequência. E consequência exigiria coragem.
Depois disso, apenas distância.
Os anos passaram com a indiferença própria do tempo. Ele publicou poemas. Dedicou alguns que nunca tiveram destinatário explícito. Quem lia não sabia, mas havia sempre uma interlocutora invisível entre as linhas. Cada metáfora lapidada tinha algo do rigor que aprendera ao dialogar com ela. Cada silêncio poético carregava ecos daqueles cafés.
Às vezes via notícias dela nas redes sociais. Um livro publicado. Uma palestra. Um reconhecimento. Sorria com uma mistura de orgulho e perda. Pensava que fora ele quem abrira aquela porta. E logo depois se envergonhava do pensamento, como se o amor verdadeiro não devesse reivindicar autoria.
À noite, às vezes, relia as mensagens antigas. Não havia promessas ardentes nem declarações dramáticas. Havia debates sobre metáforas. Havia áudios discutindo a diferença entre lirismo e sentimentalismo. Havia risadas espontâneas, comentários sobre o mar, sobre o medo de não ser suficiente para a própria vocação.
E havia aquilo que não aconteceu.
O que dói não é o que foi.
É o que poderia ter sido.
Ele sabe que, se tivessem atravessado aquela linha invisível, talvez tudo tivesse se queimado rápido demais. Talvez o encanto tivesse se tornado cotidiano. Talvez tivessem se ferido na banalidade das expectativas. Talvez o amor concreto não suportasse a altura da idealização.
Mas há noites em que ele deseja ter arriscado.
Deseja ter trocado a lucidez pela vertigem. A elegância pela entrega. A ordem pelo caos.
Porque viver é administrar o caos, e ele, naquela história, escolheu a ordem.
Ela segue outro caminho. Ele também. Não se falam. Não se procuram. Mas às vezes, ao abrir um livro antigo, ele encontra uma dobra numa página que marcou para ela. Passa os dedos sobre o papel como quem toca uma cicatriz. E sente uma melancolia fina, quase elegante.
Não é arrependimento.
É a consciência de que existiu um amor que não precisou de corpo para ser inteiro e, ainda assim, ficou incompleto.

Eu já fiz o bem sem olhar a quem. E hoje reconheço: essa frase é bonita demais para ser totalmente verdadeira.
Não existe gesto humano absolutamente puro. Sempre há um traço de expectativa, ainda que mínimo, quase imperceptível. Pode não ser dinheiro, pode não ser vantagem material, mas há um desejo íntimo de retorno. Um reconhecimento. Um agradecimento. Uma sensação de justiça moral. Até mesmo a paz interior é, de certo modo, uma recompensa.
O ingrato não frustra apenas porque é ingrato. Ele frustra porque revela a expectativa que fingíamos não ter. Dizemos que não esperávamos nada, mas a ausência de resposta nos incomoda. Isso já é prova suficiente.
A filosofia do “fazer o bem sem olhar a quem” funciona como ideal, não como descrição fiel da natureza humana. Somos seres conscientes de consequência. Sabemos que nossas ações geram efeitos, e no fundo acreditamos que o bem, de alguma forma, retorna. Nem que seja como equilíbrio espiritual, aprovação divina ou serenidade de consciência.
Há quem afirme que Deus recompensa o bem feito ao necessitado. Pode ser. Mas também pode ser apenas uma tentativa humana de manter coerência moral no mundo. Afinal, se Deus nos dá mais do que merecemos, como distinguir recompensa de graça? Como saber se o que recebemos é pagamento ou simples generosidade divina?
Talvez a lucidez esteja em admitir: fazemos o bem também porque isso sustenta a imagem que temos de nós mesmos. Porque precisamos acreditar que somos justos. Porque queremos viver num mundo onde a bondade tenha algum sentido.
Isso não invalida o bem. Apenas o humaniza.
A pureza absoluta pertence às ideias. A prática pertence aos homens. E os homens são mistos, contraditórios, conscientes e desejantes.
Ser lúcido não é deixar de fazer o bem. É fazê-lo sabendo que não somos santos — e ainda assim escolher agir com dignidade.

Não sou um livro aberto
Não sou uma ilha
Sou terra habitada
Por hábito e mobília.
Sou feito de barro
Que chora e se humilha
Que sofre e tem medo
Da sombra da noite
Que guarda o segredo
Do eterno retorno
Que traz recomeço
Do trágico querer
Me perco no sonho
Do dia futuro
Construindo um muro
Em volta de mim, para permanecer.
A carne se esgaça como roupa velha
A alma se estica pra não se perder

A Canção em Valparaíso




Eu tinha vinte e seis anos e usava um anel que não significava nada.
Nem amor.
Nem compromisso.
Apenas hábito.
Tocava piano em um bar pequeno, escondido nas encostas de Valparaíso — um lugar onde os telhados se inclinavam em direção ao mar e as noites carregavam cheiro de sal, vinho barato e vidas inacabadas. O piano era meu altar. A noite, minha cúmplice.
Já havia estado ali antes, visitando um amigo — músico, livre de um jeito que eu não era. Ele morava com o irmão numa casa que sempre cheirava a pão quente e conversas silenciosas.
Foi ali que a vi.
Helena.
Cabelos escuros. Olhos que não olhavam — atravessavam. Tinha dezoito anos, mas nada nela era inacabado. Havia um fogo contido em seus gestos, como se soubesse exatamente o que podia causar — e escolhesse quando.
Já tínhamos nos cruzado antes.
Um almoço.
Um olhar sustentado um segundo a mais.
Nada além disso.
Mas naquela noite, dividíamos o mesmo espaço. O mesmo silêncio.
Então toquei.
Uma canção que raramente me permitia — uma das poucas que eu podia executar sem me esconder. Não toquei para o ambiente. Toquei porque algo em mim precisava ser ouvido.
As pessoas falavam. Copos se moviam. A noite seguia.
Ela não.
Deu um passo à frente.
Não o suficiente para chamar atenção.
Apenas o bastante para escutar.
Quando a música terminou, não houve aplausos.
Apenas um sorriso pequeno — inteiro, definitivo.
E aquilo bastou.


A casa foi se esvaziando devagar, como todas as noites fazem.
Corpos desapareceram em colchões e cobertores improvisados. As conversas se dissolveram em respiração. As luzes se apagaram sem cerimônia.
Ficamos.
Uma televisão acesa ao fundo mostrava algo que nenhum de nós via.
No começo, nada.
Um ombro tocando o outro.
Uma pausa longa demais.
Então ela virou o rosto.
Sem perguntar.
Sem hesitar.
Permitindo.
O beijo veio sem negociação.
Não havia inocência ali —
mas também não havia culpa.
Apenas reconhecimento.


Não fomos para um quarto.
Não houve necessidade de distância, preparo ou significado.
Ficamos ali mesmo — entre almofadas, entre horas — dentro desse território frágil onde o desejo se torna imediato e a linguagem deixa de ser necessária.
Foi intenso.
Não por ser selvagem.
Mas por ser certo.
Há noites que acontecem.
E há noites que decidem algo.
Essa decidiu.


De manhã, não havia nada a dizer.
Nenhuma promessa. Nenhuma pergunta. Nenhuma ilusão de continuidade.
Ela se vestiu em silêncio.
Eu não pedi que ficasse.
Ela não fingiu que ficaria.
E talvez essa tenha sido a única verdade que fomos capazes de oferecer um ao outro.


Para ela, pode ter sido curiosidade.
Um instante.
Um desvio.
Para mim, foi outra coisa.
Não amor.
Nem memória.
Reconhecimento.
O momento em que entendi que aquilo que eu carregava — nas mãos, na voz — podia alcançar alguém além da superfície.
Que, por um breve instante, eu não estava apenas tocando.
Eu estava sendo sentido.


Às vezes, quando toco aquela mesma canção — com o mesmo cuidado, a mesma precisão silenciosa — não lembro do rosto dela.
Nem do corpo.
Nem da voz.
Lembro de outra coisa.
Do exato instante em que me tornei inesquecível
na vida de alguém que nunca ficou.

Letícia, Literatura e o Mar


Chegamos ao Rio numa tarde que parecia prometer eternidade.
A cidade tinha essa qualidade enganosa — como se tudo ali fosse durar mais do que realmente dura.
Era a semana mais aguardada da turnê. Três eventos. Três palcos. Três oportunidades de repetir o mesmo ritual: tocar, seduzir, partir.
A carreta estacionou perto da Urca, com o mar logo ali, como se observasse.
Foi no segundo evento que a vi.
Letícia.
Nada nela chamava atenção de imediato — e talvez fosse isso. Enquanto o resto gritava presença, ela permanecia. Morena clara, cabelos soltos, um livro aberto nas mãos como se fosse uma extensão do corpo.
Clarice Lispector.
Aproximei-me sem estratégia. Apenas curiosidade.
— Você lê no meio disso tudo?
Ela levantou os olhos, demorou um segundo antes de responder.
— É o único jeito de não desaparecer.
Sorri.
— E funciona?
— Às vezes. E você? Toca para aparecer ou para sumir?
Não respondi. Pela primeira vez em dias, não havia resposta pronta.


Naquela noite, o show aconteceu como sempre.
Luzes. Som. Gente. Movimento.
Mas algo havia mudado.
Eu tocava — e sabia exatamente onde ela estava.
Na lateral do palco.
Olhando sem pressa.
Não como quem admira.
Mas como quem analisa.


Depois, ela me esperava.
Sempre com um livro diferente.
Bukowski.
Pessoa.
Florbela.
Não me oferecia o corpo primeiro.
Oferecia linguagem.
— Leia isso — dizia, abrindo uma página ao acaso.
Eu lia.
Às vezes entendia. Às vezes não.
Mas entendia ela.


Caminhávamos pela orla como se não houvesse destino.
Falávamos de coisas que não cabem em conversas rápidas:
amor que não se sustenta
verdades que chegam tarde
gente que finge sentir
Ela já tinha amado um poeta.
— Ele escrevia bem — disse —, mas mentia melhor.
— E você sabe a diferença?
Ela me olhou como quem já decidiu.
— Sei quando alguém usa palavras para esconder. E quando usa para sobreviver.


O beijo não veio por impulso.
Veio por acúmulo.
Lento. Contido. Preciso.
Como se ambos soubéssemos que aquilo não era começo —
era intervalo.


Na segunda noite, me levou ao apartamento.
Ladeira do Leme.
Um quarto simples, mas habitado. Livros espalhados. Discos antigos. Um silêncio confortável.
Fizemos amor.
Sem pressa.
Sem espetáculo.
Havia desejo, claro. Mas havia outra coisa — uma tentativa de tradução.
Ela dizia coisas durante o ato.
Frases soltas, quase literárias.
Como se estivesse escrevendo enquanto sentia.
E eu respondia do único jeito que sabia: ficando.


No dia seguinte, escrevi algo no livro dela.
“A Hora da Estrela”.
Não foi um gesto pensado.
Foi necessidade.
“Você carrega o mundo como quem não percebe que ele já é seu.”
Ela leu.
Não reagiu.
Apenas guardou.
Como quem entende mais do que diz.


Na última noite, toquei diferente.
Menos intensidade.
Mais precisão.
Quando comecei “Tocando em Frente”, nossos olhos se encontraram.
E ali ficou claro.
Não havia continuidade possível.
E, pela primeira vez, isso não doeu.


Na despedida, ela não chorou.
Me abraçou com calma.
— Você é como os livros que não terminam bem — disse.
— Eu gosto desses.
Assenti.
Porque também gostava.
---
Voltei para o caminhão em silêncio.
Boca me olhou, sem perguntar.
— Foi diferente?
— Foi mais.
Ele riu, como quem já sabia.


Seguimos estrada.
Mas o que ficou não foi o corpo dela.
Nem a voz.
Foi outra coisa.
A sensação rara de ter sido lido
antes mesmo de tentar me explicar.

Entre dois amigos


— Há uma coisa que me inquieta — disse Augusto, **Entre dois amigos**


— Há uma coisa que me inquieta — disse Augusto, olhando a noite pela janela. — A sensação de que nascemos para uma única forma de existência… e passamos a vida inteira tentando negá-la.


Miguel não respondeu de imediato. Girava o copo entre os dedos, como quem mede o peso de uma ideia antes de pronunciá-la.


— Você fala da arte — disse, por fim.


— Falo do que somos quando não estamos tentando ser outra coisa.


Um silêncio breve, quase respeitoso, se instalou.


— Talvez o problema — continuou Augusto — seja esse desvio constante. Nascemos artistas… no sentido mais profundo. Não no ofício apenas, mas na forma de perceber o mundo. E, no entanto, nos forçamos a ser marido, cidadão, homem comum, figura socialmente aceitável.


Miguel ergueu os olhos.


— E você acha que isso é erro?


— Acho que é incompatibilidade.


— Incompatibilidade com o quê?


— Com a essência.


Miguel encostou-se na cadeira.


— Mas ninguém vive fora do mundo, Augusto.


— Vive, sim. Apenas paga o preço.


— Que preço?


— A inadequação.


Miguel sorriu levemente.


— Isso parece mais orgulho do que filosofia.


— Não — respondeu Augusto, sem alterar o tom. — Orgulho seria acreditar que somos superiores. Não é isso. É apenas reconhecer que não nos encaixamos. E que, quando tentamos, algo em nós se rompe.


— E você nunca tentou viver como os outros?


Augusto soltou um riso curto.


— Tentei. Com disciplina, até. Acreditei que bastava insistir, repetir gestos, cumprir funções… como quem aprende um papel.


— E?


— E percebi que a vida, quando não é verdadeira, torna-se uma espécie de teatro sem plateia.


Miguel ficou em silêncio por alguns segundos.


— Talvez todos estejam representando — disse. — Uns com mais consciência, outros com menos.


— A diferença — respondeu Augusto — é que alguns sabem que não podem sair do palco.


— E você?


Augusto desviou o olhar para a rua vazia.


— Eu sei que não posso viver fora daquilo que me constitui. Posso até tentar. Posso assumir compromissos, ocupar funções, simular normalidade… mas, em algum momento, tudo perde sentido.


— Então a arte é uma prisão?


— Não. É a única forma de liberdade que conheço. Mas cobra tudo.


Miguel assentiu lentamente.


— E não há conciliação?


— Há tentativas.


— E fracassos?


— Quase sempre.


O silêncio voltou, mais denso agora.


— Curioso — disse Miguel. — O mundo espera que sejamos muitas coisas. E talvez sejamos, de fato. Mas você insiste que há uma que nos define.


— Não insisto — respondeu Augusto. — Apenas reconheço.


— E quem não reconhece?


— Vive melhor, talvez.


— E você prefere?


Augusto demorou a responder.


— Prefiro a verdade, mesmo que ela me exclua.


Miguel pousou o copo.


— Então não se trata de escolha.


— Nunca se tratou.


— Trata-se de condição?


— Exatamente.


Miguel respirou fundo.


— Nesse caso… não somos artistas.


Augusto voltou-se para ele, com um olhar mais claro.


— Somos aquilo que não conseguimos deixar de ser.


E, pela primeira vez na conversa, nenhum dos dois sentiu necessidade de acrescentar mais nada.
olhando a noite pela janela. — A sensação de que nascemos para uma única forma de existência… e passamos a vida inteira tentando negá-la.
Miguel não respondeu de imediato. Girava o copo entre os dedos, como quem mede o peso de uma ideia antes de pronunciá-la.
— Você fala da arte — disse, por fim.
— Falo do que somos quando não estamos tentando ser outra coisa.
Um silêncio breve, quase respeitoso, se instalou.
— Talvez o problema — continuou Augusto — seja esse desvio constante. Nascemos artistas… no sentido mais profundo. Não no ofício apenas, mas na forma de perceber o mundo. E, no entanto, nos forçamos a ser marido, cidadão, homem comum, figura socialmente aceitável.
Miguel ergueu os olhos.
— E você acha que isso é erro?
— Acho que é incompatibilidade.
— Incompatibilidade com o quê?
— Com a essência.
Miguel encostou-se na cadeira.
— Mas ninguém vive fora do mundo, Augusto.
— Vive, sim. Apenas paga o preço.
— Que preço?
— A inadequação.
Miguel sorriu levemente.
— Isso parece mais orgulho do que filosofia.
— Não — respondeu Augusto, sem alterar o tom. — Orgulho seria acreditar que somos superiores. Não é isso. É apenas reconhecer que não nos encaixamos. E que, quando tentamos, algo em nós se rompe.
— E você nunca tentou viver como os outros?
Augusto soltou um riso curto.
— Tentei. Com disciplina, até. Acreditei que bastava insistir, repetir gestos, cumprir funções… como quem aprende um papel.
— E?
— E percebi que a vida, quando não é verdadeira, torna-se uma espécie de teatro sem plateia.
Miguel ficou em silêncio por alguns segundos.
— Talvez todos estejam representando — disse. — Uns com mais consciência, outros com menos.
— A diferença — respondeu Augusto — é que alguns sabem que não podem sair do palco.
— E você?
Augusto desviou o olhar para a rua vazia.
— Eu sei que não posso viver fora daquilo que me constitui. Posso até tentar. Posso assumir compromissos, ocupar funções, simular normalidade… mas, em algum momento, tudo perde sentido.
— Então a arte é uma prisão?
— Não. É a única forma de liberdade que conheço. Mas cobra tudo.
Miguel assentiu lentamente.
— E não há conciliação?
— Há tentativas.
— E fracassos?
— Quase sempre.
O silêncio voltou, mais denso agora.
— Curioso — disse Miguel. — O mundo espera que sejamos muitas coisas. E talvez sejamos, de fato. Mas você insiste que há uma que nos define.
— Não insisto — respondeu Augusto. — Apenas reconheço.
— E quem não reconhece?
— Vive melhor, talvez.
— E você prefere?
Augusto demorou a responder.
— Prefiro a verdade, mesmo que ela me exclua.
Miguel pousou o copo.
— Então não se trata de escolha.
— Nunca se tratou.
— Trata-se de condição?
— Exatamente.
Miguel respirou fundo.
— Nesse caso… não somos artistas.
Augusto voltou-se para ele, com um olhar mais claro.
— Somos aquilo que não conseguimos deixar de ser.
E, pela primeira vez na conversa, nenhum dos dois sentiu necessidade de acrescentar mais nada.

- Sabe o que é bom nos corações partidos? - perguntou a bibliotecária.
Neguei.
− É que só podem se partir de verdade uma vez. O resto são apenas arranhões.

Inserida por gtrevisol

Como podemos ser covardes conosco mesmos
e nos ater a uma subserviente ignorância
onde há uma obrigatoriedade que acorrenta,
que machuca e só oprime nossa capacidade,
como se fosse os enganos uma prioridade,
que o universo divino sempre conspira afavor,
porque um "deus" irreal e alucinante inferiu,
em palavras escritas no códice de um tempo,
que devemos nos afundar e depois nos afogar,
como um sérvido e pacato pescador de ilusões,
no fosso negro de uma fé legada em absurdos,
que nos cega e nos conduz em vias dolorosas,
rumo a um surreal e sutil "paraíso eterno"!

Almany Sol - 28/09/2012

Inserida por almanysol

Me fiz ateu, nos absurdos das doutrinas,
pois seus abusos delimitam as consciências,
onde a verdade comprovada é um pecado
e o pecado é uma indisciplina condenável.
Disciplina, não combina com escravidão
e nem tão pouco com o falso livre arbítrio,
pois a evolução é a essência da liberdade.

Almany Sol - 28/09/2012

Inserida por almanysol

Não acredito em imagens e santos beatificados,
porque a santidade é um privilégio humano,
que só existe enquanto houver a luz da vida,
pois nenhuma ação procede de um ser morto,
onde já não há mais existência de virtudes.

Almany Sol - 28/09/2012

Inserida por almanysol

HÁ TEMPOS PESSOAS BUSCAM ABRIGO E PROTEÇÃO ATRAVÉS DO NADA E DEPOIS SE CONFORMAM COM NADA QUE MERECEM!

Almany Sol - 28/09/1012

Inserida por almanysol

É preferível estar só em um barco á deriva com teus pensamentos e com um objetivo belo duque estar em um palácio cercado de riquezas encantáveis, pós a vida a verdadeira vida ti da apenas uma chance de descobrir que a brisa da madrugada é a única que continuara lá quando teus dias terminarem.

Inserida por UbervalBrujah

A questão não é querer ser o sabedor da verdade. A questão verdadeira é não querer saber de mentiras, só isso!

Almany Sol - 28/09/2012

Inserida por almanysol

Não tô nem aí pro que dizem, eu quero mesmo é ser realista... quem achar que não, que viva e morra com suas ilusões...

Inserida por almanysol

Somente aos iludidos e enganados é que a verdade machuca e a mentira conforta!

Almany Sol - 28/09/2012

Inserida por almanysol

Não misturo pensamentos com idéias. Os pesamentos são as viagens, já as idéias são os transportes!

Almany Sol - 28/09/2012

Inserida por almanysol

Não sou louco e nem tão pouco cientista, mas sei muito bem até onde vai o limiar da consciência. É onde começa a desvalorização da vida, em nome de uma ilusão alheia!

Almany Sol - 28/09/2012

Inserida por almanysol

A vida é não sonhar. Deixa isso para as crianças, que são puraficadas pela inocência dos aprendizes. Você tem malandragem e sabe conhecer que a verdade não combina com viver a irrealidade de que tudo ou nada independe de você.

Almany Sol - 29/09/2012

Inserida por almanysol

SOMOS PLANTAS. E COMO PLANTAS PRECISAMOS SER REGRADOS EM SABEDORIAS, PARA CRESCERMOS CIENTES DE QUE NOSSOS FRUTOS NUNCA TERÃO COMO RESULTADOS, SEMENTES DE ILUSÕES!

Almany Sol - 29/08/2012

Inserida por almanysol

Sabe, você é importante,
pois mesmo se sentindo um nada,
você pode mudar uma planta de lugar,
quem sabe dar-lhe um pouco de sol,
ela irá te agradecer com sua cor,
seu perfume, sua flor , sua sombra
e mesmo até que não haja
nada disso pra te oferecer,
ela te revitalizarar a vida
com a essência dos suspiros,
transformando gás carbônico e água
em oxigênio purificado,
pela fotossíntese processada
através da luz do dia que recebe,
porque você lhe concedeu.

Almany Sol - 29/09/2012

Inserida por almanysol